Páginas

8 de abril de 2012

Invasão de especialistas

artigo de Rosely Sayão publicado na Folha de São Paulo, Caderno Equilíbrio, pág. 08, 3 de abril de 2012.

No princípio, era a escola com seus alunos e professores. Uniformes impecáveis, comportamentos idem, disciplina militar, regras de todos os tipos, alunos em geral obedientes, passivos, temerosos. Quando o aluno cometia alguma falta, era imediatamente penalizado: era obrigado a escrever muitas vezes alguma frase, ficar no canto da sala, levar puxão de orelha etc. A suspensão e a expulsão também eram punições aplicadas de modo exemplar. 

Há quem sinta uma certa nostalgia dessa escola, que assim permaneceu pelo menos até o início dos anos 60. O que não se costuma considerar é que essa escola era para poucos, bem poucos. Para os alunos que não precisavam que a escola, de fato, exercesse seu papel. Para bem funcionar, essa escola distribuía vereditos: alunos que não aprendiam como a média dos colegas eram simplesmente considerados inaptos para o estudo escolar. E ponto final. 

Na década de 60 surgiram novas teorias da educação que traziam o anseio de alunos mais participativos em seu processo escolar e condenavam muitos dos castigos até então aplicados. Novos ares tomaram conta da escola. Nos anos 70, a instituição se abriu para muitos alunos novos que, antes, não tinham lugar na escola. 

Mudou muita coisa, mas quero chamar a atenção para uma nova presença no espaço escolar: a dos psicólogos. A proposta da entrada desses profissionais na escola era bem interessante: colaborar para que o ensino fosse democrático, ou seja, garantir que todo tipo de aluno pudesse aprender. 

Mas essa proposta não vingou. Diagnósticos "psi", atendimentos clínicos na escola e o mau uso de princípios teóricos da psicologia deram um ar moralista a essa disciplina do conhecimento no espaço escolar. Logo depois chegaram também os fonoaudiólogos, os fisioterapeutas, os psicopedagogos.... 

Não parou aí. Na sequência, os médicos foram convidados e/ou se convidaram a entrar na escola também e os diagnósticos médicos explicando e justificando as mais diversas questões dos alunos passaram a ter presença regular na instituição. 

No princípio, era a escola com seus alunos e seus professores; agora temos alunos, professores, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e médicos das mais diferentes especialidades. São os chamados especialistas. Você pensa, caro leitor, que vamos parar por aí? Nem pensar. Agora há outro profissional entrando pela porta da frente da escola e interferindo nela: os advogados. 

Atualmente, muitos pais têm procurado advogados para que eles garantam o que consideram um direito do filho ou para que processem a escola por ter agido mal ou por não ter agido em situações bem diversas, como notas, relacionamento com colegas, relacionamento com professores, aprovações, retenções, fatos que repercutem nas redes sociais e envolvem alunos da mesma escola etc. 

Estamos vendo a inauguração de uma cultura escolar. 

No princípio, era a escola com seus alunos e professores; agora temos a relação entre aluno e professor com a interferência de vários outros especialistas, inclusive médicos e advogados. Deveríamos nos interessar em saber como fica a relação que deveria ser a mais preciosa -entre professor e aluno- com a intervenção de tantos outros profissionais alheios à educação escolar.

2 de abril de 2012

Os saberes docentes e o professor da educação profissional

artigo meu publicado na revista Direcional Educador, edição 86 - Mar/2012

O atual cenário da sociedade contemporânea requer uma Educação Profissional diferente capaz de atender as demandas do mundo do trabalho e exigências da sociedade. Conseqüentemente, o professor dessa modalidade de ensino sofre novas exigências para atuar com os seus alunos. Agora além de promover os conhecimentos referentes às profissões que vai desenvolver junto com os seus alunos, ele precisa se ater às questões pedagógicas, sociais, culturais e políticas inseridas no contexto da escola, desta forma alerta Perrenoud “a tarefa dos professores encontra-se globalmente alterada”. 

Porém, quando analisada a história da educação brasileira, percebe-se certo descaso com a formação de professores para a Educação Profissional. Um quadro de descontinuismo e inconsistência têm caracterizado as políticas públicas e as concepções teóricas no tocante a formação destes. Além do mais as próprias legislações atestam o foco nos conteúdos e na experiência profissional da área técnica de origem desses professores (medicina, engenharia, informática, etc.). Em muitos casos minimizam a importância dos saberes pedagógicos e desconsidera a necessidade de uma preparação, ou de um saber, especifico para o exercício da docência. Como se os saberes adquiridos no exercício profissional bastassem para assegurar um bom desempenho docente. 
"A especificidade dos contextos em que se educa adquire cada vez mais importância: a capacidade de se adequar a eles metodologicamente, a visão de um ensino não tão técnico, como transmissão de um conhecimento acabado formal, e sim como um conhecimento em construção e não imutável, que analisa a educação como um compromisso político prenhe de valores éticos e morais (...)"  

E neste contexto, independente, do amplo universo que engloba a Educação Profissional no Brasil , tirando-se as diferentes exigências legais para o exercício da docência em cada um dos respectivos níveis (formação inicial, ensino médio técnico ou ensino superior), estas mudanças a atingem uniformemente. 

O professor que atua nesta modalidade de ensino vive sob uma crença, abastecido pelo senso comum e muitas vezes pelos próprios documentos legais, de hipervalorizar os conhecimentos e a experiência profissional provenientes da área original. Assim, por exemplo, para ser professor de lógica de programação basta ser um analista de sistemas, para lecionar ergonomia basta ser um médico do trabalho, para assumir o ensino de Modelagem de Roupas basta ser um Estilista e assim por diante. 

Esta concepção se fortalece ainda mais no conceito que o domínio dos conhecimentos técnicos da profissão sejam suficientes para permitir que um indivíduo diplomado assuma a docência de determinada disciplina e/ou curso na Educação Profissional. 

Em suma para o exercício da docência na Educação Profissional o foco é na competência científica, desprovida de qualquer especificidade pedagógica. Portanto, é preciso repensar a formação deste docente, indo além do repasse dos saberes específicos. 
"[...] o futuro profissional da educação necessita ter uma formação que vá além do domínio dos conteúdos específicos de sua área de conhecimento, pois ele precisa também da formação político-pedagógica e epistemológica do conhecimento."

Para ler o texto completo publicado na revista clique aqui