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26 de outubro de 2012

Entenda a Lei de Cotas nas universidades federais

Há um mês a presidente Dilma Rousseff sancionou o projeto de lei 12.711 de 2012 que estabelece uma reserva de 50% das vagas nos processos seletivos de universidades e institutos federais para alunos que cursaram todo o ensino médio na escola pública. A nova legislação cria uma única política de ação afirmativa, já que até hoje as instituições de ensino usavam diferentes modelos para garantir o acesso de grupos da população ao ensino superior. 

O projeto de lei tramitou por quatro anos no Congresso Nacional e foi aprovado pelo Senado no início de agosto. No Ministério da Educação (MEC) um grupo prepara a regulamentação da lei que estabelecerá algumas regras para que as a reserva de vagas possa ser colocada em prática. Mesmo depois de todo o debate, a Lei de Cotas ainda causa muitas dúvidas. Confira no portal Empresa Brasil de Comunicação dez perguntas – e respostas – sobre o projeto. Clique aqui e confira.


19 de outubro de 2012

Professor, você tem uma nova mensagem!

Para celebrar o dia mundial do professor (05/10) e o dia do professor no Brasil (15/10), a UNESCO lançou a campanha “professor, você tem uma nova mensagem!”. Onde interessados poderiam gravar um vídeo de até 30 segundos, publicar no youtube e enviar o link para a organização da campanha. Os três melhores vídeos foram publicados no portal de vídeos da UNESCO no You Tube, e você poderá conferir abaixo os vencedores.


 

Mais informações: www.facebook.com/unesconarede
                                          http://www.youtube.com/unescoPortuguese

11 de outubro de 2012

ONG lança portal com materiais para professores discutirem segurança na internet

Para oferecer recursos aos educadores sobre o uso ético e consciente da Internet, a SaferNet Brasil lançou um novo site que auxiliará os professores a trabalhar a temática na escola. 

O portal www.netica.org.br/educadores disponibiliza uma diversidade de materiais pedagógicos, todos recursos educacionais abertos e gratuitos, para auxiliar na inclusão deste tema em sala de aula, em atividades com os pais e no planejamento pedagógico da instituição em que atua. 

O canal traz sugestão de atividades, cartilhas educativas, vídeos, pesquisas, orientações, dentre outros. Além de utilizar os recursos disponíveis, os docentes podem editar e criar novos materiais a partir das propostas sugeridas, compartilhando com toda a comunidade escolar, amigos e familiares. A iniciativa tem patrocínio da Petrobras, através do programa Desenvolvimento e Cidadania, da GVT, da Childhood Brasil e do Oi Futuro. 

O site surge da necessidade de instrumentalizar professores para que possam potencializar o uso pedagógico da tecnologia, favorecendo a participação juvenil e o engajamento cidadão também na Internet. 

Neste novo espaço, os educadores poderão falar em tempo real, por meio do chat ou e-mail, com uma equipe especializada para receber uma orientação personalizada. A partir do próprio site, os professores acessam o HelpLine Brasil, que é também um canal de orientação on-line tanto para pais e educadores, quanto para crianças e adolescentes. No Helpline Web Brasil (www.helpline.org.br www.canaldeajuda.org.br), os professores receberão orientações sobre riscos e vulnerabilidades que podem comprometer a navegação saudável de crianças e adolescentes na Internet, tais como ciberbullying, sexting, aliciamento sexual, uso excessivo da Internet e jogos online, dentre outros.

18 de julho de 2012

Alfabetismo funcional evolui na última década


Apenas 35% das pessoas com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas no Brasil e 38% da população com formação superior têm nível insuficiente em leitura e escrita. É o que apontam os resultados do Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2011-2012, pesquisa produzida pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa.
A pesquisa avalia, de forma amostral, por meio de entrevistas e um teste cognitivo, a capacidade de leitura e compreensão de textos e outras tarefas básicas que dependem do domínio da leitura e escrita. A partir dos resultados, a população é dividida em quatro grupos: analfabetos, alfabetizados em nível rudimentar, alfabetizados em nível básico e plenamente alfabetizados.
Os resultados da última edição do Inaf mostram que apenas 26% da população pode ser considerada plenamente alfabetizada – mesmo patamar verificado em 2001, quando o indicador foi calculado pela primeira vez. Os chamados analfabetos funcionais representam 27% e a maior parte (47%) da população apresenta um nível de alfabetização básico.
“Os resultados evidenciam que o Brasil já avançou, principalmente nos níveis iniciais do alfabetismo, mas não conseguiu progressos visíveis no alcance do pleno domínio de habilidades que são hoje imprescindíveis para a inserção plena na sociedade letrada”, aponta o relatório.
O estudo também indica que há uma relação entre o nível de alfabetização e a renda das famílias: à medida que a renda cresce, a proporção de alfabetizados em nível rudimentar diminui. Na população com renda familiar superior a cinco salários mínimos, 52% são considerados plenamente alfabetizados. Na outra ponta, entre as famílias que recebem até um salário por mês, apenas 8% atingem o nível pleno de alfabetização.
De acordo com o estudo, a chegada dos mais pobres ao sistema de ensino não foi acompanhada dos devidos investimentos para garantir as condições adequadas de aprendizagem. Com isso, apesar da escolaridade média do brasileiro ter melhorado nos últimos anos, a inclusão no sistema de ensino não representou melhora significativa nos níveis gerais de alfabetização da população. “O esforço despendido pelos governos e população de se manter por mais tempo na escola básica e buscar o ensino superior não resulta nos ganhos de aprendizagem esperados. Novos estratos sociais chegam às etapas educacionais mais elevadas, mas provavelmente não gozam de condições adequadas para alcançarem os níveis mais altos de alfabetismo, que eram garantidos quando esse nível de ensino era mais elitizado. A busca de uma nova qualidade para a educação escolar em especial nos sistemas públicos de ensino deve ser concomitante ao esforço de ampliação de escala no atendimento para que a escola garanta efetivamente o direito à aprendizagem ”, resume o relatório.
A pesquisa envolveu 2 mil pessoas, de 15 a 64 anos, em todas as regiões do país.
Os quatro níveis de alfabetização identificados pelo Inaf 2011-2012 são: analfabetos (não conseguem realizar tarefas simples que envolvem leitura ainda que uma parcela consiga ler números familiares), alfabetizados em nível rudimentar (localizam uma informação explícita em textos curtos, leem e escrevem números usuais e realizam operações simples, como manusear dinheiro). Há também os alfabetizados em nível básico, que leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo com pequenas inferências, leem números na casa dos milhões e resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações. Por fim, os alfabetizados em nível pleno, que leem textos longos, analisam e relacionam suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas, mapas e gráficos.
*Publicado originalmente em Agência Brasil.

13 de julho de 2012

Distribuição 
de tablets pelo MEC tende a tropeçar em erros antigos


Tablets na sala de aula: mais do mesmo, Carta na Escola

E o objeto de desejo do momento e nem as escolas estão livres de modismos. Na onda dos lançamentos de inúmeros modelos de tablet, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou em junho que investirá 150 milhões de reais na compra de 600 mil aparelhos para uso de professores de Ensino Médio da rede pública de todo o País. Espécie de computador em formato de prancheta com tela sensível ao toque, o tablet tornou-se sensação entre usuários de tecnologia pela portabilidade e a possibilidade de acessar a internet ou ler livros digitais, por exemplo, com mais facilidade. 

Receberão os materiais primeiramente as escolas urbanas, com banda larga, rede sem fio e laboratório do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo). A distribuição se dará no segundo semestre dentro do Educação Digital – Política para computadores interativos e tablets, que prevê a inclusão de tecnologias de informação e comunicação (TICs) no processo de ensino. Os tablets virão num pacote de computadores interativos com lousa, acesso à internet, DVD, microfone, computador e projetor. Os aparelhos terão telas com entre 7 e 10 polegadas, câmera, saída de vídeo e conteúdos pré-instalados. 

A estratégia foi anunciada pelo ministro como forma de resolver o problema da evasão escolar no Ensino Médio. “A escola precisa se reinventar para atrair e dialogar com essa juventude”, afirmou na ocasião, ao dizer que o modelo de escola atual é do século XVIII e que é preciso renová-lo. Curiosamente, a imagem coincide com a descrita por Jens Bammel, secretário da International Publishers Association, ao falar sobre a febre mundial dos tablets na educação no 3º Congresso Internacional do Livro Digital, em São Paulo. “Em todo o mundo, surgem políticos dizendo que é preciso trazer a sala de aula para o século XXI enquanto tiram fotos com iPads ao lado de crianças sorridentes”, afirmou, ao descrever o que chama de “tecnofilia dos políticos”. “Na hora, discursam sobre como se isso somente fosse capaz de dar um salto nos indicadores de qualidade, porém, o que se forma é um ciclo de entusiasmo em que os governos repetem os mesmos erros: criam grande expectativa, as coisas se acalmam, as pesquisas mostram pouco ou nenhum resultado e o projeto é enterrado quietamente. Até que um outro político descobre um novo aparato tecnológico com que desfilar diante das câmeras.”

Favorável à chegada das TICs à sala de aula, Sergio Ferreira do Amaral, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação da instituição, vê com cautela o programa do ministério. “Não é preciso ser especialista para saber que é um fetiche comprar um aparelho sem planejamento pedagógico sério. O material não trará ganhos se só tiver animações. Boa parte do uso dos tablets é para leitura de arquivos de texto em formato PDF, quando ele tem um potencial para muito mais que isso.” 

O MEC afirma que o desenvolvimento do método pedagógico vai acontecer na prática, e eis que surge uma das primeiras críticas feitas ao programa: “A iniciativa de disponibilizar tecnologia é importante, necessária, mas não suficiente para melhorar a educação brasileira. O grande problema é a formação de professores, ela deve ser intensa e acompanhar qualquer inserção de TICs nas escolas”, afirma Klaus Schlünzen Junior, coordenador do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). 

Sem formação específica para o trabalho, a tendência é que todas as potencialidades exaltadas pelo ministro não se concretizem em melhoras no aprendizado ou em benefícios efetivos para os alunos. “São importantes as políticas direcionadas a investimento em tecnologia nas escolas, é uma questão de inclusão social. O problema é como isso é colocado. Hoje, a maioria das escolas tem laboratórios de informática subutilizados. Não há projetos pedagógicos, os computadores são usados para fazer pesquisas, baixar coisas da internet, o que é muito pouco para o que a infraestrutura permite. Há o risco de o mesmo acontecer com o tablet”, questiona o professor Sergio Ferreira. E completa: “Não é só levar o equipamento até a criança. É preciso saber quem está dando suporte pedagógico. O tablet representa um campo novo, não pode ser só a versão eletrônica do papel”. 

De acordo com o MEC, a Secretaria de Educação Básica já iniciou a tratativa junto às universidades federais que darão o apoio à elaboração de conteúdos. Estão sendo elaborados conteúdos modulares para serem colocados na plataforma de educação a distância do MEC para início imediato. 

Num País em que é comum o relato de laboratórios de informática e mesmo bibliotecas que acabam trancados por medo de que os estudantes estraguem o que eles guardam, cabe refletir sobre como o educador vê a tecnologia. Segundo uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet, a principal limitação para seu maior uso na escola está relacionada ao nível de conhecimento dos professores acerca dessas tecnologias. Para 75%, a principal fonte de apoio para o desenvolvimento dessas habilidades são os contatos informais com colegas. 

O MEC quer mudar essa realidade preparando os educadores através do ProInfo – cerca de 300 mil já participaram do treinamento. Porém, Sérgio questiona o formato desses cursos. “É previsto um treinamento de 360 horas. Não há necessidade, é tempo demais e desestimula o professor. É preciso focar a metologia”, afirma. Um problema que volta também com os recém-formados que estão deixando as universidades pouco familiarizados com as possibilidades pedagógicas oferecidas pelas TICs. 

A primeira comparação feita, ao se pensar no novo programa, é com o Um Computador por Aluno (UCA), aplicado em vários países, e que já distribuiu mais de 2,4 milhões de equipamentos pelo mundo. Porém, são poucos os estudos conclusivos a respeito de sua efetividade. Apenas a título de ilustração, uma pesquisa feita pelo Inter-American Development Bank no Peru não encontrou evidências de melhoras em matemática ou linguagem após a aplicação do programa. Foram encontrados, contudo, resultados positivos referentes a habilidades cognitivas. 

O próprio ministro admitiu, no lançamento da iniciativa, que há um certo risco no projeto: “Não há uma literatura conclusiva sobre isso. Há estudos na União Europeia dizendo que não está assegurado que houve salto sistêmico e relevante no processo de aprendizado, mas houve melhoras na criatividade, interesse pela língua, pela ciência. Ou seja, há ganhos positivos”. 

Para Klaus, tais ganhos tropeçariam, justamente, na desenvoltura dos professores em incorporar as possibilidades que a ferramenta oferece. “A tecnologia por si só não melhora a educação. Isso é algo óbvio e evidente. Educação é um processo humano que depende de bons professores. Ela precisa ser vista como um novo instrumento pedagógico como qualquer outro. Apenas aliada a um professor com boa formação inicial e continuada é que ela poderá trazer efetivos avanços.” 

“Poucas experiências no mundo apontam algum sucesso, até porque trata-se de algo novo, que ainda se está começando a estudar. Mas, se pensarmos em Piaget, na desenvoltura que as crianças têm com esses aparelhos e no fato de que é preciso que a sala de aula esteja em consonância com o mundo exterior, isso tudo já estabelece que podemos relacionar sim a inclusão digital com melhoras no ensino. Mas isso, mais uma vez, volta à necessidade de um educador preparado para guiar esse processo”, pondera Sérgio.

5 de julho de 2012

Pesquisa aponta inclusão digital dos professores

Lia Segre, do Vozes da Educação

“A escola é do século 19, o professor do século 20 e o aluno do século 21”. A frase, utilizada com frequência para expressar o descompasso entre os docentes e o uso de tecnologia em sala de aula, deve ser relativizada segundo dados de uma pesquisa lançada em junho no Brasil. 

O estudo TIC Educação analisou 650 estabelecimentos educacionais, sendo 497 escolas públicas e 153 particulares em 2011, e foi divulgado em junho pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Revelaram-se números como: 97% das professoras e 98% dos professores utilizaram internet nos três meses anteriores à pesquisa. Entre os docentes com mais de 46 anos, 95% navegaram na internet naquele período. Os resultados colocam os professores em um patamar de inclusão digital acima da média nacional: 45% dos brasileiros possuem computador, 38% acesso à Internet (TIC Domicílios 2011), enquanto que 94% dos professores possuem computador e 88% possuem conexão em casa; e 79% acessam a rede todos os dias.  

A pesquisa é bastante ampla – o resultado completo pode ser acessado aqui. Em relação aos docentes, 94% das professoras possuem computador em casa (95% no caso dos homens). E quase não há variação entre as faixas etárias nesse quesito. Outro dado que se destaca é que metade das professoras leva seu computador portátil à escola. Nessa parte da pesquisa, houve uma disparidade entre os sexos: 68% dos professores homens levam seu computador. E também houve disparidade entre as idades: até 30 anos, 73% levam; de 31 a 45 anos 58% e, a partir dos 46 anos 39% carregam seu portátil. Realizar tarefas no computador é outro dado que revelou alguma diferença de sexo e faixa etária. 61% das mulheres não tem nenhuma dificuldade em copiar arquivos e pastas, enquanto 75% dos professores homens não têm. E 83% das e dos professores até 30 anos não tem nenhuma dificuldade com isso, enquanto 49% das e dos professores com mais de 46 anos não tem dificuldade. 64% dos professores ensinam os alunos a usar computador e a internet, 42% pesquisa informações em livros, revistas ou internet para a preparação de aulas. 

O Vozes observou que algumas desigualdades regionais se mantêm na pesquisa: a porcentagem inclina para uma maior inclusão digital nas regiões mais ricas do Brasil. E, quanto mais avançada a série em que o/a professor/a leciona, mais acesso à tecnologia também. 

Uma pergunta da pesquisa era se os professores achavam que em sua escola os alunos entendiam mais de tecnologias do que eles: 40% das professoras concordam com essa afirmação e 34% dos homens. 26% concordam totalmente. Apenas 23% concordam em parte com a afirmação “acredita mais nos métodos tradicionais de ensino”, e 37% discordam totalmente. Na frase que dizia que o professor “não sabe de que forma” utilizar o computador ou a internet na escola: 75% discordam totalmente. Já na frase “os professores não tem tempo suficiente para preparar aulas como computador e a internet”, 19% concordam totalmente, 25% concorda em parte, e 34% discordam totalmente. 

No Brasil a estrutura tem suas limitações: 100% das escolas possuem computador, mas o número de equipamentos por aluno é muito limitante para expandir o uso das TIC segundo os professores (55% deles pensam assim), e 51% dos coordenadores pedagógicos. A baixa velocidade da conexão é outra dificuldade que a pesquisa revelou. 52% dos docentes mencionaram que esse problema atrapalha muito, o que relativiza o número de 93% das escolas com acesso à internet. Essa pesquisa mostra que os professores (ao menos os brasileiros) e os alunos não estão apartados das tecnologias da informação (TIC), elas fazem parte de suas vidas, mas não estão completamente integradas com a educação. 

Onde deve estar a tecnologia dentro da escola? 

Em 2010, 81% dos estabelecimentos de ensino tinham computadores apenas nas salas de informática, e 86% em 2011. 4% das escolas públicas possuem computadores em sala de aula.

8 de abril de 2012

Invasão de especialistas

artigo de Rosely Sayão publicado na Folha de São Paulo, Caderno Equilíbrio, pág. 08, 3 de abril de 2012.

No princípio, era a escola com seus alunos e professores. Uniformes impecáveis, comportamentos idem, disciplina militar, regras de todos os tipos, alunos em geral obedientes, passivos, temerosos. Quando o aluno cometia alguma falta, era imediatamente penalizado: era obrigado a escrever muitas vezes alguma frase, ficar no canto da sala, levar puxão de orelha etc. A suspensão e a expulsão também eram punições aplicadas de modo exemplar. 

Há quem sinta uma certa nostalgia dessa escola, que assim permaneceu pelo menos até o início dos anos 60. O que não se costuma considerar é que essa escola era para poucos, bem poucos. Para os alunos que não precisavam que a escola, de fato, exercesse seu papel. Para bem funcionar, essa escola distribuía vereditos: alunos que não aprendiam como a média dos colegas eram simplesmente considerados inaptos para o estudo escolar. E ponto final. 

Na década de 60 surgiram novas teorias da educação que traziam o anseio de alunos mais participativos em seu processo escolar e condenavam muitos dos castigos até então aplicados. Novos ares tomaram conta da escola. Nos anos 70, a instituição se abriu para muitos alunos novos que, antes, não tinham lugar na escola. 

Mudou muita coisa, mas quero chamar a atenção para uma nova presença no espaço escolar: a dos psicólogos. A proposta da entrada desses profissionais na escola era bem interessante: colaborar para que o ensino fosse democrático, ou seja, garantir que todo tipo de aluno pudesse aprender. 

Mas essa proposta não vingou. Diagnósticos "psi", atendimentos clínicos na escola e o mau uso de princípios teóricos da psicologia deram um ar moralista a essa disciplina do conhecimento no espaço escolar. Logo depois chegaram também os fonoaudiólogos, os fisioterapeutas, os psicopedagogos.... 

Não parou aí. Na sequência, os médicos foram convidados e/ou se convidaram a entrar na escola também e os diagnósticos médicos explicando e justificando as mais diversas questões dos alunos passaram a ter presença regular na instituição. 

No princípio, era a escola com seus alunos e seus professores; agora temos alunos, professores, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e médicos das mais diferentes especialidades. São os chamados especialistas. Você pensa, caro leitor, que vamos parar por aí? Nem pensar. Agora há outro profissional entrando pela porta da frente da escola e interferindo nela: os advogados. 

Atualmente, muitos pais têm procurado advogados para que eles garantam o que consideram um direito do filho ou para que processem a escola por ter agido mal ou por não ter agido em situações bem diversas, como notas, relacionamento com colegas, relacionamento com professores, aprovações, retenções, fatos que repercutem nas redes sociais e envolvem alunos da mesma escola etc. 

Estamos vendo a inauguração de uma cultura escolar. 

No princípio, era a escola com seus alunos e professores; agora temos a relação entre aluno e professor com a interferência de vários outros especialistas, inclusive médicos e advogados. Deveríamos nos interessar em saber como fica a relação que deveria ser a mais preciosa -entre professor e aluno- com a intervenção de tantos outros profissionais alheios à educação escolar.

2 de abril de 2012

Os saberes docentes e o professor da educação profissional

artigo meu publicado na revista Direcional Educador, edição 86 - Mar/2012

O atual cenário da sociedade contemporânea requer uma Educação Profissional diferente capaz de atender as demandas do mundo do trabalho e exigências da sociedade. Conseqüentemente, o professor dessa modalidade de ensino sofre novas exigências para atuar com os seus alunos. Agora além de promover os conhecimentos referentes às profissões que vai desenvolver junto com os seus alunos, ele precisa se ater às questões pedagógicas, sociais, culturais e políticas inseridas no contexto da escola, desta forma alerta Perrenoud “a tarefa dos professores encontra-se globalmente alterada”. 

Porém, quando analisada a história da educação brasileira, percebe-se certo descaso com a formação de professores para a Educação Profissional. Um quadro de descontinuismo e inconsistência têm caracterizado as políticas públicas e as concepções teóricas no tocante a formação destes. Além do mais as próprias legislações atestam o foco nos conteúdos e na experiência profissional da área técnica de origem desses professores (medicina, engenharia, informática, etc.). Em muitos casos minimizam a importância dos saberes pedagógicos e desconsidera a necessidade de uma preparação, ou de um saber, especifico para o exercício da docência. Como se os saberes adquiridos no exercício profissional bastassem para assegurar um bom desempenho docente. 
"A especificidade dos contextos em que se educa adquire cada vez mais importância: a capacidade de se adequar a eles metodologicamente, a visão de um ensino não tão técnico, como transmissão de um conhecimento acabado formal, e sim como um conhecimento em construção e não imutável, que analisa a educação como um compromisso político prenhe de valores éticos e morais (...)"  

E neste contexto, independente, do amplo universo que engloba a Educação Profissional no Brasil , tirando-se as diferentes exigências legais para o exercício da docência em cada um dos respectivos níveis (formação inicial, ensino médio técnico ou ensino superior), estas mudanças a atingem uniformemente. 

O professor que atua nesta modalidade de ensino vive sob uma crença, abastecido pelo senso comum e muitas vezes pelos próprios documentos legais, de hipervalorizar os conhecimentos e a experiência profissional provenientes da área original. Assim, por exemplo, para ser professor de lógica de programação basta ser um analista de sistemas, para lecionar ergonomia basta ser um médico do trabalho, para assumir o ensino de Modelagem de Roupas basta ser um Estilista e assim por diante. 

Esta concepção se fortalece ainda mais no conceito que o domínio dos conhecimentos técnicos da profissão sejam suficientes para permitir que um indivíduo diplomado assuma a docência de determinada disciplina e/ou curso na Educação Profissional. 

Em suma para o exercício da docência na Educação Profissional o foco é na competência científica, desprovida de qualquer especificidade pedagógica. Portanto, é preciso repensar a formação deste docente, indo além do repasse dos saberes específicos. 
"[...] o futuro profissional da educação necessita ter uma formação que vá além do domínio dos conteúdos específicos de sua área de conhecimento, pois ele precisa também da formação político-pedagógica e epistemológica do conhecimento."

Para ler o texto completo publicado na revista clique aqui

24 de janeiro de 2012

A passagem da era da elite bem pensante para a da pesquisa burocrática

Inferno na torre… de marfim
Thomaz Wood Jr., Carta Capital

Certas profissões e ocupações povoam os sonhos dos jovens, sugerindo autorrealização ou simbolizando status. Porém, após conhecerem o apogeu, parecem seguir para um inevitável declínio. 

A engenharia, a advocacia e a medicina já tiveram dias melhores, mas seguem a trilha da proletarização, perdendo o prestígio e a aura. A economia e a administração também mostram sinais de decadência, depois de momentos fugazes de glória. Fenômeno similar parece atingir a ocupação de professor-pesquisador, praticada por uma pequena elite, incrustada nos andares mais elevados das torres de marfim do ensino superior. Comecemos pelo sonho. Depois, o feijão. 

O professor-pesquisador, profissional que atua em programas de pós-graduação, é um ser privilegiado. 

Não é nem será um milionário, mas conta com salário digno e emprego vitalício. Tem liberdade para trabalhar no que lhe interessa e conta com acesso facilitado aos recursos de fundos de pesquisa. 

Viaja regularmente pelo mundo para discutir suas descobertas científicas em cidades fascinantes e resorts bucólicos. Dedica-se à nobre função do magistério, mas apenas oito meses por ano. Leciona poucas horas por semana para pequenas classes povoadas por corações interessados e mentes brilhantes. 

Seu horário de trabalho é flexível e seus objetivos e metas são determinados por ele mesmo. Vive em um campus arborizado e tranquilo, longe da poluição e da agitação. Seus encontros sociais envolvem conversas inteligentes sobre temas relevantes. Desobrigado de olhar para o tedioso presente, concentra-se em desvendar o passado e mirar o futuro. 

De tempos em tempos, para ampliar seus horizontes, tem direito a um período sabático, durante o qual, com apoio de uma agência governamental, leva sua família para a Europa ou para os Estados Unidos. É reconhecido por seus pares e pela sociedade, que o têm na mais alta conta por sua sapiência e dedicação desinteressada ao bem comum. Afinal, ajuda a edificar os pilares do nosso progresso tecnológico e a formar nossa futura elite intelectual. 

Essa imagem idílica pode ser observada em Harvard, Oxford e Cambridge ou, mais provavelmente, nos películas de Hollywood que romanceiam a vida nessas universidades. No entanto, a realidade parece caminhar em outra direção. 

Em renomadas instituições de ensino locais o mato cresce, o ar-condicionado não funciona, as mentes brilhantes deram lugar a criaturas conformistas e opacas, e a vida acadêmica assemelha-se cada vez mais ao trabalho em uma linha de montagem fordista, com capatazes, metas e uma irritante burocracia. 

Consequência: cresce o descontentamento com as condições de trabalho e as pressões por produtividade na torre de marfim. Parte da revolta deve-se à reação usual a mudanças. No entanto, há também uma preocupação legítima com um sistema caro, pouco produtivo e que apresenta efeitos colaterais preocupantes, como a multiplicação de mestres e doutores ineptos e a proliferação de artigos científicos que nunca serão lidos. 

Uma pesquisa publicada recentemente por Otacilio Antunes Santana, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, explora outra dimensão preocupante da mesma questão: o efeito das condições de trabalho sobre a saúde dos docentes de pós-graduação. 

Seu ponto de partida foi a constatação do aumento de pedidos de licenças médicas, principalmente aquelas relacionadas a sintomas ou consequências de doenças cardiovasculares. 

Santana analisou dados de 540 professores de seis faixas etárias, entre 36 e 65 anos. Suas conclusões fazem eco a um debate emergente na academia brasileira, acerca da pressão por produção científica e pela formação de mestres e doutores. 

A pesquisa comprovou que, quanto maior o número de publicações científicas e o número de orientandos, maior o número de intervenções cardíacas, doenças coronárias e acidentes vasculares cerebrais. Em suma, trabalhar nessas condições faz mal. 

O quadro é agravado, segundo Santana, pela falta de dieta equilibrada, de atividades físicas e acompanhamento médico -regular dos docentes. 

Nas mais diversas latitudes e longitudes, o modelo tradicional de universidade está sendo criticado. Acelerar a linha de montagem e produzir mais mestres, doutores e artigos científicos é uma resposta simples para o desafio que se coloca, mas parece estar matando os operários e prejudicando a qualidade da produção. 

Pode ser mais um marco da passagem da era da elite bem pensante para a da pesquisa burocrática, conduzida por operários do conhecimento, uma etapa que talvez ainda resulte em ciência, mas por enquanto apenas mascara um sistema caro, improdutivo e insalubre.

20 de janeiro de 2012

A vergonha do marketing educativo

Julio Groppa Aquino, Revista Educação

Passada a avalanche avaliativa de final de ano, as férias escolares deveriam representar um momento de trégua do palavrório pedagógico. Mas não. Trata-se da época áurea do marketing educativo privado (intensificado nos últimos meses do ano), cuja expressão máxima é a propaganda do ensino superior, emblemática da intensa movimentação do setor que se estende desde as creches até os famigerados MBAs.      

Mediante os lucros estratosféricos do "negócio", estamos assistindo, nas últimas décadas, à aurora de verdadeiras corporações ditas educacionais. A vertiginosa privatização do ensino figura como um fenômeno não apenas empresarial, mas antropológico, já que uma prática impulsionada por um marketing agressivo e abençoada por quase todos. 

Alheia a qualquer prescrição legal ou apelo ético, a maioria dos estabelecimentos de ensino privado veicula uma propaganda à base de slogans tão mirabolantes quanto falaciosos, escancarados despudoradamente em outdoors , televisão, jornais e revistas. Cada vez mais arrojados, os anúncios desse tipo tomam de assalto os espaços de circulação da informação, provocando uma overdose cognitiva, cuja eficácia calculada é, obviamente, resultado da reiteração ad nauseum . 

Se, como forma, a estratégia mercadológica é a da repetição, como conteúdo, ela é a da profecia nada auto-realizadora. Prega-se um salto de status profissional (logo, sócioeconômico) ante um mundo competitivo, mas omite-se por completo que a empregabilidade segue uma lógica adversa à formação escolar. Exonera-se da obrigação de dar a conhecer, por exemplo, que a imensa maioria dos formados em administração, direito, psicologia, jornalismo etc. jamais encontrará colocação em sua área de formação. Propaganda da pior espécie, portanto. Propaganda mais que enganosa. Propaganda inescrupulosa. 

Meticulosas linhas de montagem de diplomas sem vazão profissional alguma. Centenas de milhares de salas de aula movidas à força de trabalho mal remunerado dos tais mestres e doutores formados com dinheiro público. Arranha-céus gigantescos alterando a paisagem das cidades, construídos a partir da esperança ingênua e dos tostões pingados de uma parcela crescente da população em busca do americam dream , o qual se efetiva - ao cubo do cubo, frise-se - apenas para os anônimos, quase invisíveis, proprietários do empreendimento. 

Canto de sereia, o marketing educativo vem se firmando como o braço forte da negociata educativa privada - uma aberração ético-política cuja conivência de outros setores sociais é espantosa, em particular da mídia. Não seria equivocado suspeitar que, nessa época do ano, boa parte do orçamento dos meios de comunicação provenha daí. 

Saídas? Uma, tão-somente: a interdição definitiva de toda e qualquer propaganda que envolva prestação de serviços educativos. 

Outro desejo quimérico, agora de férias.

12 de janeiro de 2012

"Não vamos conseguir bons professores enquanto houver essas críticas constantes e exageradas aos educadores."


Uma formação inicial sólida e, mais que isso, o acompanhamento a longo prazo das práticas docentes são a chave para a construção de uma educação de qualidade, defendem os pesquisadores Clare Kosnik e Clive Beck, da Universidade de Toronto (Canadá). Em São Paulo, para o seminário Inovação e Qualidade na Formação Inicial de Professores, promovido em novembro pelo Instituto Singularidades, os especialistas criticaram a valorização excessiva de desenvolvimento de novos currículos em detrimento de questões mais urgentes, como uma estratégia de recrutamento docente. O casal, que é autor de uma série de títulos sobre a formação de educadores, defende que os aspirantes a docente fortaleçam seus conhecimentos em áreas mais essenciais dos anos iniciais do Ensino Básico e não percam o foco na pesquisa. Na avaliação dos especialistas em formação inicial de professores, avaliações e práticas como a de colocar uma placa com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) na porta da escola não resultam em melhorias: “Nunca vamos conseguir fazer com que parem de achar que há uma resposta mágica nos resultados de uma prova”. 

Carta Fundamental: Suas pesquisas focam a experiência canadense, mas que pontos podem ser globalizados e, especialmente, aplicados ao universo brasileiro? 
Clare Kosnik: Acredito que nossos achados têm aplicação direta a qualquer lugar. Para começar, ao desenvolver os programas de educação de professores, é preciso pensar na pesquisa, que é a fundação para o que fazemos. Depois, temos de priorizar o que fazer no futuro dentro do contexto em que se está, independentemente de ser no Brasil, na Alemanha, na Austrália ou no Canadá. O que é importante no seu local? Você não pode fazer tudo, então deve saber o que é imprescindível para um professor em início de carreira. 
Clive Beck: Creio que as pessoas estão colocando ênfase demais, aqui, no conhecimento que o professor tem das matérias, o que, é claro, é importante. Mas o educador pode aprender com o tempo. O importante é atrair profissionais que gostem de lecionar, que consigam ter empatia com as crianças, formar uma comunidade na sala e sejam bons em gerenciá-la. O quanto mais souberem do conteú-do, melhor, mas sugerir que não se pode ter boas escolas porque os aspirantes a professores não sabem o bastante é exagero. 

CF: Que critérios utilizar, então, na hora de selecionar os aspirantes a educadores? 
CB: Mesmo que não se tenha candidatos o suficiente, é preciso selecionar. Algumas pessoas não servem para a educação porque estão nela pelos motivos errados. Por exemplo, se falharam em tudo o mais (risos) ou não gostam de crianças, se não estão interessados em aprender… 
CK: Você quer ter um plano claro em mente e quer educadores que gostam de aprender. Ainda mais com a tecnologia, eles devem constantemente se atualizar. Às vezes, o professor até tem uma formação deficitária, mas, se tiver sede por conhecimento, é ele que você quer. E ele vai aprender. 

CF: Dentro desse raciocínio, a educação continuada, então, é importantíssima. 
CK: É muito importante. Ela o mantém empolgado com o ensino. Se você não gosta de aprender, como quer que as crianças o façam? É preciso aprender o tempo todo: sobre si mesmo, sobre novas técnicas de ensino… Se o professor para de aprender, as crianças vão perceber. Porque ele vai ficar entediado e os alunos também vão. 
CB: Acredito até que, por conta disso, muito do processo de implementar um sistema de educação continuada, aqui ou em qualquer lugar, deve ser organizado pelos próprios professores. Você até pode envolver especialistas de fora, mas se envolver a própria escola é muito mais interessante, e mais, dá poder aos educadores. 

CF: Em seus artigos, aparece a necessidade de montar um currículo coerente e, durante sua apresentação, Clare defendeu que, em vez de atolar os estudantes de conteúdo, elencar os tópicos mais importantes e aprofundá-los, para que eles cheguem mais bem formados nas salas de aula. Quais os impactos disso? 
CK: O que normalmente fazemos na formação de professores é pensar que temos tanto conteúdo a passar que temos de cobrir tudo. Mas o que descobrimos é que é tão superficial para os educadores que estão estudando que eles acabam não aprendendo muito. É melhor focar como ensinar a ler para que, no final, eles saibam como fazer isso muito bem. Talvez por fim haja outras coisas nas quais eles precisem se esforçar mais, mas esses são os tópicos que realmente precisam dominar como professores dos anos iniciais, então vamos fortalecê-los. Deixamos claro que não vamos falar tanto de outras questões para que eles tenham essas habilidades bem desenvolvidas e não se sintam tão desprotegidos quando começarem a dar aula. 

CF: Há especialistas que defendem que a formação dos alunos nos primeiros anos do Ensino Básico é deficitária porque os professores são generalistas. Segundo eles, matérias como as ciências exatas deveriam ser ensinadas por especialistas. Que pensam disso? 
CK: Há essa discussão, sim, dessa oposição entre especialistas e professores fraquinhos. Acho que os educadores estão num meio-termo. Porque você precisa de estratégias pedagógicas e também saber como desdobrar o conhecimento que adquiriu na universidade para crianças de cinco anos – e muitos matemáticos não sabem fazer isso! Se houver professores fracos em matemática, você tem de ensiná-los. Talvez uma das soluções seja colocar um professor que seja muito bom para ensinar as primeiras séries e dar tempo para um outro, que tenha mais deficiências, se fortalecer nessas áreas. 
CB: São muitos os fatores envolvidos nas boas práticas de lecionar e um especialista não daria conta delas satisfatoriamente. 
CK: Sim. Acredito que é preciso ter um professor para a maior parte das matérias nos anos iniciais, para que ele possa trabalhar o senso de comunidade, de grupo, fazer com que a criança sinta que pode se tornar um leitor, um escritor, mas há de se ter especialistas nas áreas de Artes. Descobrimos na pesquisa que os professores “de turma” não são tão bons nisso. A mensagem para os professores dos dois primeiros anos do Ensino Fundamental é aprender sobre a criança, descobrir o que ela pode fazer, o que está acontecendo em casa e construir pontes entre tudo isso. Com vários professores envolvidos, isso não vai acontecer. 

CF: Isso é algo interessante, mas toca num problema delicado aqui no Brasil, onde são incontáveis os professores que passam o dia indo de escola em escola para dar aulas de modo a conseguir ganhar o suficiente. Como eles podem se dedicar aos alunos nesse nível, construir esse tipo de ponte, trabalhando nessa situação? 
CK: Esse tipo de situação é terrível, mas o professor precisa fazer o melhor possível, aceitar que não é a situação ideal e esperar que, em algum nível, os governos façam algo para mudar esse cenário. 
CB: O professor precisa conhecer o aluno, suas fraquezas, características do comportamento e o cenário doméstico. Esse conhecimento é necessário para ensinar bem. Os princípios básicos do nosso estudo aplicam-se também nessa situação. Há quem diga que esse é um problema do Ensino Médio, mas ainda assim é possível construir comunicação, permitir que os estudantes falem e dar a eles uma chance de criar diálogos. Mesmo que você dê aula em quatro escolas diferentes, pode aplicar esses princípios – será mais difícil, mas você pode. No momento em que chegar, pergunte aos alunos como estão, faça-os falar, construa um relacionamento com eles. 

CF: Tendo em vista esses problemas específicos do País e os achados de suas pesquisas, como fazer para atrair mais jovens para a docência? 
CB: Aqui no Brasil, fiquei com a impressão de que as pessoas são críticas demais com os professores. Devemos dar a eles mais crédito. É preciso haver mais informação sobre as satisfações que ser professor pode trazer. 
CK: É preciso haver um recrutamento em larga escala. Sei que há um problema com os salários, mas é preciso celebrar os bons professores, oferecer incentivos para que os educadores fiquem e para que novos profissionais venham. Principalmente, temos de apoiar os diretores, que fazem diferença na vida de todos. É preciso ter uma grande estratégia, global. Os governos precisam fazer um esforço real com a comunidade, os professores em atividade, os sindicatos, para descobrir o que é necessário. Em vez de gastar tanto no desenvolvimento de currículos ou padrões, é preciso elencar as questões mais urgentes e, em minha opinião, trata-se da elaboração de uma estratégia de recrutamento. Além disso, uma questão delicada é que, muitas vezes, as experiências dos alunos nas escolas não foram boas e eles trazem consigo lembranças ruins dos professores. 

CF: Como vocês avaliam os programas de bonificação como o que foi recentemente abandonado em Nova York e inspirou experiência similar no Brasil? 
CK: Não funcionam. Se você tiver algum dinheiro, talvez o melhor a fazer seja colocá-lo em desenvolvimento profissional. Porque é muito difícil avaliar quem está fazendo um bom trabalho, especialmente quando se tem um educador numa escola pequena e outro numa boa. Como dizer que um é melhor que o outro? Eu digo que os efeitos colaterais disso não são bons. 

CF: Que tipo de consequências são essas? 
CK: O pior de tudo é que os professores começam a ensinar para as provas. Em vez de ter um bom currículo, tudo o que querem fazer é focar no que vai cair nos exames para que os alunos tenham boas notas e todo o resto fica de fora. E só se podem testar certas coisas: aproveitar a escola e aprender a gostar de ler não são coisas mensuráveis num teste. Isso estreita tanto o currículo que mais alunos acabam entediados. Eles podem até estar se saindo melhor nas provas, mas estão aprendendo menos. 
CB: Às vezes não estão nem sequer conseguindo notas melhores. Só estamos distorcendo o currículo e impedindo o crescimento pessoal de todos. 

CF: E quando notas de testes são colocadas nas portas das escolas, como acontece em algumas localidades com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)? 
CK: Isso é péssimo. Nunca vamos conseguir fazer com que parem de achar que há uma resposta mágica nos resultados de uma prova. Isso não nos ajuda. Sabemos onde estão as boas escolas e onde estão as problemáticas, e o que temos de fazer é tentar ajudar cada uma a resolver suas próprias questões. Em vez de desperdiçar dinheiro em testes, vamos usá-lo para aprimorar as escolas. Os professores estão trabalhando duro, em condições adversas, às vezes as crianças não têm a melhor estrutura em casa, estão fazendo o melhor que podem, e chegam esses testes, tão artificiais, que vão parar nos jornais. Não vamos conseguir bons professores enquanto houver essas críticas constantes e exageradas aos educadores.

9 de janeiro de 2012

A escola perde a oportunidade de usar o humor como recurso didático


No célebre best-seller O nome da rosa, o filósofo Umberto Eco oferece ao leitor uma trama que passa pela obstinação de um monge em fazer desaparecer uma fictícia obra manuscrita de Aristóteles sobre um tema incômodo para a igreja medieval: o riso. O cenário era um milenar mosteiro europeu. Mas assim como nas conhecidas comparações que aproximam escolas e outras instituições que resistem a mudanças, esta história também poderia ser contada, ainda que com algum exagero, nos colégios atuais. Avessos ou, pelo menos, indiferentes ao tema do humor, os colégios perdem uma excelente oportunidade de abrir espaço para uma manifestação tipicamente humana, associada com inteligência aguda, capaz de motivar professores e os alunos e gerar um ambiente de melhor qualidade, justamente em tempos em que as brincadeiras de mau gosto e violentas, como o trote e o bullying, ganham as manchetes de jornais. 

"Ninguém fala disso nas escolas, o que é uma pena", diz a psicóloga Denise Gimenez Ramos, professora de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Este é um tema fundamental, pois tem a ver com inteligência e saúde mental", resume. "A escola desdenha ou não vê valor em uma área que é muito rica e traz debates muito atuais e significativos", complementa o psicólogo Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), que vem pesquisando sobre as relações entre o humor e o campo da moralidade. 

Numa espécie de contrassenso, as escolas são espaços onde se ri - e muito, ainda que quase sempre da sala de aula para fora e de forma algo clandestina. Segundo Denise, há pesquisas que mostram que uma criança chega a rir 300 vezes por dia. Mas, na escola, por ser associado com bagunça, quebra de hierarquia, indisciplina, o riso frequentemente não encontra espaços de expressão. 

Há pelo menos três formas de notar a importância - e talvez a urgência - desse tema no meio educacional, em especial na Educação Básica. Em primeiro lugar, o humor possui um conhecido efeito de distensionar o ambiente. Em um momento em que se fala tanto em resolução de conflitos no espaço escolar, o humor pode funcionar tanto como um antídoto para relações excessivamente conturbadas, como um catalisador para relacionamentos humanos mais saudáveis. "O bom humor tem a ver com a capacidade de lidar com estresse e é um natural mediador de conflitos", explica Denise Ramos. 

O humor também pode se apresentar como um caminho para encurtar a distância cultural cada vez maior existente entre as gerações de professores e de alunos, o que tem impacto direto na sala de aula. Favorece o diálogo, promove vínculos e, principalmente, humaniza o relacionamento. Segundo o pesquisador James Neuliep, da Universidade de Wisconsin, que faz pesquisas sobre o assunto, como há uma natural diferença de status entre professores e alunos, o humor ajuda os estudantes a compreender o lado humano do docente. "Quando utilizado adequadamente, ele pode ajudar a reduzir a distância psicológica entre professores e alunos", escreve Neuliep, em artigo publicado no site da ASCD, uma organização norte-americana para o desenvolvimento curricular. 

Nessa vertente, podem ser consideradas não apenas as ações intencionais do professor para criar um ambiente mais descontraído, como também estratégias didáticas que têm no humor sua pedra de toque - como, por exemplo, o uso de jogos e brincadeiras na alfabetização, no ensino da matemática e de outras disciplinas. Essas representam, por assim dizer, percepções mais imediatas do papel positivo do riso na escola. Mas, na medida em que o nível de reflexão sobre o papel do riso se aprofunda, é possível notar que há muito mais do que descontração sob uma risada. Está em jogo a possibilidade da escola de trabalhar sobre aspectos mais profundos da educação, como a busca de sentido para a vida. 

Para Denise, as escolas não apenas deveriam ver no humor uma forma de crescimento pessoal, mas ativamente buscar desenvolvê-lo, já que se trata, segundo ela, de uma atitude que também pode ser ensinada e que frequentemente se aprende por imitação. Segundo ela, bom humor não é simplesmente dar risada de qualquer coisa, mas desenvolver um senso crítico, o que tem a ver com a possibilidade de distanciamento e de auto-observação. "O bom humor se relaciona com a capacidade do indivíduo de refletir, ou seja, conforme a etimologia da palavra, de dobrar-se sobre si mesmo", afirma. "O problema é que na escola aprendemos muito sobre a história do mundo, mas pouco sobre nós mesmos", diz. 

Yves de La Taille, por sua vez, defende que há questões verdadeiramente existenciais por trás do humor. "Para uma geração de jovens que está doida para encontrar algum sentido na vida, é um prato cheio", diz o pesquisador. Uma das razões que revelam a importância do humor é justamente a sua universalidade. "Todo mundo ri, seja bebê, seja idoso, em qualquer cultura humana, em toda parte do mundo", afirma. Contudo, diz Yves, as razões pelas quais se ri são muitas - e o humor é apenas uma delas.

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