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24 de outubro de 2011

Que ensino é esse? - O massacre

por: Jorge Portugal, do Terra Magazine


Embalado por certo frisson causado pelo meu último artigo, "Que ensino é esse?", dou continuidade imediata ao debate, apresentando um pouco do outro lado do que aqui assinalei, qual seja, a quase indigência do nível de informação geral e consistente dos nossos estudantes de terceiro ano, especialmente da rede privada de ensino.

A tese do artigo assinalava o fato de esse aluno ser entupido por informações muitas vezes descartáveis, mas apresentar-se incapaz de "ligar as coisas" do mundo real, de estabelecer uma relação de causa e conseqüência entre taxa de juros e dificuldades financeiras de sua família. Bom, disso aí a prova de redação é o melhor retrato.

Ocorre que a contribuição dos "métodos pedagógicos" desses caríssimos colégios não é pequena. É uma verdadeira máquina de massacrar inteligências!

Não sei se vocês sabem, mas o estudante de terceiro ano da maioria dos colégios particulares (e isso está virando praga) é submetido, todos os sábados, a, no mínimo, duas provas de unidade. Às vezes quatro. A justificativa é que, em ano de vestibular, não se pode perder tempo, são muitos conteúdos, o ritmo é acelerado e o estudante tem que dar respostas imediatas do que aprendeu para não acumular assunto. Ingerem sem digerir.

Resultado: sabendo que vai dar conta, no sábado (todos os sábados!!!) de duas a quatro provas, esse(a) pobre garoto(a) só se concentra nas disciplinas regulares da semana até a quarta-feira. De quinta em diante ele (a) só pensa "naquilo": as provas do sábado. O pobre do professor da matéria X pode se esfalfar de explicar o seu conteúdo, que a cabeça da maioria está longe... nos conteúdos das provas de sábado! Com isso, perde-se parte substancial do programa ( explanado de quinta em diante) e o aluno já naturalmente estressado em um ano decisivo para sua vida, ainda é submetido a um impiedoso massacre dessa natureza. É o famoso casamento do terceiro ano com pré-vestibular e, agora, Enem.
Não admira que, premido por ritmo e cobrança tão alucinantes, esse estudante chegue ao dia do vestibular completamente esgotado, com baixa assimilação do muito que lhe foi transmitido ao longo do ano, e inteiramente alienado das principais informações que perpassaram o seu mundo enquanto ele... "estudava". Daí a quase obrigatoriedade, hoje, nesses cursos e colégios de uma matéria (?) intitulada "Atualidades". Rarará.

Resultado 2: ao fim do seu terceiro ano, esse estudante massacrado encontra-se inteiramente preparado para passar no vestibular... do ano seguinte.

Algum espanto pelo fato de o nosso ensino médio estar entre os piores do planeta?

O debate continua.

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