Páginas

31 de outubro de 2011

O grande professor

por Matheus Pichonelli, da Carta Capital

Em alguma hora dessas, há exatos dez anos, um professor de literatura entrava em nossa classe do cursinho, em Araraquara, para deixar em silêncio, durante mais de duas horas, cerca de 70 estudantes que pagavam o que tinham e o que não tinham para aprender todos os meandros do vestibular. Não sei como a coisa funcionava antes, nem como funciona agora, mas naquela época prestar vestibular ou fazer regime para emagrecer tinha praticamente a mesma lógica: pegava-se uma cartilha, que dizia o que era certo e o que era errado, e criava-se uma rotina de regras para atingir um objetivo específico de maneira rápida e eficiente. Integração com a realidade, função social, conexão com o entorno, noção do que serve para o papel e o que serve para a vida, aprendizado pela prática: via de regra, tudo parecia levar tempo demais para caber no resumo dos livros e das fórmulas que seriam abordados numa prova de poucas horas ao fim do ensino médio. 

Na escola particular (aquela era uma escola particular) o aluno era um cliente. Se o filho não passasse de ano, a culpa era da escola; se não passasse na prova, a culpa era da escola; se não saísse de lá com o Nobel, a culpa também era da escola. Se o cliente não estivesse satisfeito, ele simplesmente trocaria de escola.

Quem estava na linha de frente de tudo isso, claro, eram os professores, sempre no tiroteio entre as ordens da direção, o luxo dos alunos, o luxo dos pais dos alunos e as ordens de uma lógica perversa. Lógica que hoje me parece clara quando lembro de um professor de história que, cansado de gritar pela atenção dos alunos, apelou para uma metáfora curiosa ao comparar sua aula ao McDonald’s. Para ele, os alunos que não prestavam atenção no que ele dizia eram como clientes da rede de fast food que, com o dinheiro dos pais, compravam hambúrgueres e, chegando em casa, jogavam as iguarias no lixo. Naquele dia, aprendemos mais sobre o mercado do que sobre história – mas o exemplo, ora com lanches do McDonald’s, ora com laranjas, limões ou maçãs, entrou para o anedotário da nossa turma. 

Não sei quantos professores tive na vida, e não tenho dúvida do quanto todos, de alguma forma, estavam dispostos a abrir mão de uma vida de conforto para assumir a linha de frente de seu tempo. Sim: porque a sala de aula é o termômetro que permite descobrir, antes de todo mundo, as dores e delícias das mudanças, que se aglomeram a cada nova turma que se forma, cada uma com suas tendências, linguagens, gostos, valores e vaidades que se reciclam (sobre esse desafio, não conheço filme melhor do que “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet). 

Muitos assumiram este desafio, mas conheci poucos que conseguiram sair ilesos ao tentar domar as feras – ou fazer com quem elas ficassem em silêncio, encantadas com o que ouviam. 

Há exatos dez anos, meu dia da semana favorito era a terça-feira. Não porque era dia de futebol com amigos ou porque veria a namorada ou iria ao cinema. Era meu dia favorito porque era dia de aula de literatura, aula do professor André Luiz Guerra. 

No último sábado, dia do professor, comecei a me perguntar o que fazia dele o grande professor que tive nesta vida, mesmo depois de dez anos – e dezenas de professores que viria a conhecer na faculdade. 

Para ler o texto completo clique aqui

Um comentário:

Fabiola disse...

Simplesmente tocante... Quem dera se 1% dos professores que passaram por nossas vidas tivessem deixado marcas assim para uma vida. Não coneci o Professor André... RS! MAs posso dizer que sou uma fã dele após essa carta que li...