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29 de maio de 2011

"Waiting For Superman" e uma brilhante reflexão sofre o ensino público

O assunto de “Waiting For Superman” é essencialmente a crise do sistema público de educação norte-americano, mas que serve também à uma reflexão do sistema brasileiro.

As estatísticas são assombrosas: os gastos com educação nos Estados Unidos aumentaram para US$ 9 mil por estudante nos dias atuais, contra US$ 4.300, em 1971. Entretanto, os resultados em matemática e alfabetização mantiveram-se estáticos. Os Estados Unidos ocupam o 25º lugar em matemática e o 21º em ciências no ranking dos 30 países mais desenvolvidos do mundo, e a média de proficiência escolar na maioria dos estados está entre 20% e 30%.

Para apresentar os escabrosos efeitos desses fatos, “Waiting For Superman” se concentra em cinco crianças de diferentes idades e circunstâncias de vida. O que os jovens têm em comum é um interesse pelo aprendizado que é prejudicado por escolas superlotadas, péssimos professores, e falta de atenção dos administradores. O filme contextualiza suas histórias, entrevistando uma série de carismáticos proponentes de reformas educacionais, incluindo Michelle Rhee, uma polêmica defensora do sistema público em Washington, e Geoffrey Canada, um visionário, cuja organização, a Harlem Children’s Zone, conseguiu um impressionante sucesso em convencer os jovens a lutar por uma educação universitária.

Canada e Rhee apontam os maus professores como o principal problema que assola o sistema educacional. Enquanto um bom professor consegue dar conta de 150% do currículo obrigatório, o filme mostra que os maus professores podem lecionar somente cerca de 50%. Como o atual sistema de permanência – apoiado pelos sindicatos (pasmem, mas os dois maiores sindicatos de professores norte-americanos juntos, representam o maior financiador de campanhas presidenciais) – não faz distinções entre profissionais bons e ruins, mesmo os piores professores conseguem um cargo vitalício.

Sem dúvida alguma é um filme estimulante. “Waiting for Superman” venceu o prêmio de melhor documentário no Festival de Sundance de 2010.

Waiting for Superman (2010)
Direção: Davis Guggenheim
Roteiro: Davis Guggenheim,Billy Kimball

Site oficial do filme: http://www.waitingforsuperman.com/action/
Clique aqui e faça o download do filme (legendado) arquivo Winrar - 403MB



<< Agradeço a Ana Luiza pela sugestão do filme. Valeu!>>

24 de maio de 2011

restrições ao uso das novas tecnologias digitais no mundo da escola


As restrições ao uso das novas tecnologias digitais no mundo da escola ainda são fortes, mas esse cenário tende a se modificar com o tempo. O professor acabará entendendo que lecionar não é mais uma via de mão única, e sim que o aluno tem muito a acrescentar em classe, sobretudo pela facilidade que as novas gerações têm ao usar o computador. As redes sociais podem e devem ser utilizadas dentro do contexto pedagógico, e não somente como formato auxiliar. Esses são alguns pensamentos do pesquisador em tecnologias na educação e coordenador associado do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Unicamp, José Armando Valente, que trabalha com o tema desde 1983.

Valente é um raro exemplo de profissional que compôs seu currículo agregando as áreas de educação e engenharia à informática. Tem também o título de doutor em Filosofia pelo Departamento de Engenharia Mecânica e Divisão de Estudo e Pesquisa em Educação do Massachusetts Institute of Tecnologic (MIT). Nesta entrevista a Carta na Escola, Valente fala também da dificuldade que os governos nacionais têm em adaptar o currículo ao uso das novas tecnologias. “O Brasil não está preparado, mas não há país no mundo que esteja neste momento”, afirma.

Carta na Escola: O senhor é engenheiro de formação. Como surgiu o interesse em estudar a educação e associá-la à tecnologia?
José Armando Valente: Bom, fui formado como engenheiro mecânico e, desde a faculdade, eu mexia com computador. Fui ensinar computação na Unicamp e lá conheci um grupo que trabalhava com a tecnologia na educação – portanto, apesar de a tecnologia na escola ser um assunto maior há poucos anos, já se discute esses conceitos para sua utilização na escola há décadas. Em 1983, foi criado o Núcleo de Informática Aplicada à Educação, o Nied, que está na ativa até hoje e experimentou diversas fases tecnológicas. Naquela época, falávamos muito do computador para criar a linguagem operacional chamada Logo, desenvolvida por um pesquisador do MIT, nos Estados Unidos) e que dialogava com o construtivismo. Essa linguagem dizia que, em vez de a máquina instruir o aluno, é o aluno que deveria instruir a máquina. Então, nesse processo, você utilizaria conceitos que permitiram ao aluno aprimorar o próprio conhecimento aos poucos. Veja que não usamos mais o Logo há muitos anos, mas as redes sociais têm a mesma abordagem. Depois focamos mais na educação a distância e nos laptops educacionais, em situações que tornam o ensino mais abrangente e melhor.

CE: Por que é importante a escola abraçar o mundo das redes sociais?
JAV: Quando falamos em inclusão digital hoje, estamos nos referindo a um conceito um pouco diferente do que estivemos acostumados nos últimos anos. Agora não se trata mais de ter acesso à tecnologia, porque grande parte da população do Brasil já tem acesso a computadores através da escola, da lan house e do barateamento do computador pessoal. A questão vai além. Já é sobre como o sujeito se comporta no meio on-line e de como pode trazer essa tecnologia para tirar benefícios próprios. A importância da escola hoje é também ajudar as pessoas- a desenvolver essa habilidade. É um processo de formação de pessoas, que é justamente uma das missões da escola. Mais que fazer parte da internet, as redes sociais fazem parte da vida das pessoas. A escola deveria já estar lidando com isso ao incluir as novidades tecnológicas em seu aparato pedagógico. A partir daí, existe o conteúdo das aulas, que pode se tornar mais profundo com o auxílio de toda essa tecnologia.

CE: E de que maneira o uso dessa ferramenta pode fazer a diferença na educação de um estudante?
JAV: Hoje a escola está basicamente restrita a lápis e papel. O currículo dela é todo formado assim há muito tempo, os professores foram moldados dessa maneira. Só que hoje temos simulações digitais que formam novos mecanismos para se lidar com o conhecimento, tudo ao alcance do professor. Exemplos: há simulações muito difíceis de você criar utilizando somente a lousa e o giz, e que poderiam rapidamente ser feitos no computador. Estou falando de formas geométricas da Matemática, estou falando de terremotos e tsunamis na Geografia etc. Imagine também uma aula de História, em que você visita um museu on-line. Esses já existem, já há uma interação fantástica atualmente.

CE: E como o senhor avalia que as redes sociais poderiam ser usadas em sala de aula?
JAV: Imagine que os adolescentes usam bastante o Twitter. Esse fator já faz dele algo palatável para o professor utilizar em sala de aula, pois desperta um interesse natural. Por que o professor de Língua Portuguesa, por exemplo, não o utiliza para os alunos expressarem ideias em 140 caracteres? É um ótimo exercício de concisão, um trabalho de comunicação sintética que muitos alunos de doutorado não costumam ter. É fundamental saber resumir suas ideias no mundo de hoje. Isso também serve para professores de outras disciplinas, em circunstâncias similares. Agora, claro, o aluno precisa da ajuda do professor para utilizar a ferramenta didaticamente. Não é porque ele está no Twitter que vai sozinho usar da melhor forma possível.

CE: Mas já há professores que usam -blogs, por exemplo, não?
JAV: Sim, mas muitas vezes não é um bom uso, ou é um uso incompleto. Serve mais como apoio de material, o blog não está incluso para valer na maneira de dar a aula.

CE: O aluno tende a ter mais interesse ao identificar uma ferramenta que ele usa diariamente?
JAV: Sim, mas depende muito se você tem um uso correto da tecnologia. Se você usa mal, sem conseguir agregá-la ao material didático, não adianta. O aluno precisa captar que aquilo está sendo útil para ele. Infelizmente, ainda há essa distância entre a escola de hoje e a vida fora dela, os alunos lidam pouco com o lápis e o papel.

CE: É comum professores serem refratários à ideia de inclusão da internet em sala de aula, principalmente porque conhecem menos essas ferramentas que a maioria dos alunos, que foram criados com elas. Como adaptar os professor sem traumas?
JAV: Fazer parceria com os alunos é a melhor forma, sem dúvida. Uma coisa que deve ficar claro é que a educação na era digital é bastante colaborativa, envolve interação e compartilhamento. Não pode existir mais aquela situação em que o professor se prepara para entrar na classe e dar um show-solo. Ele tem de sair do pedestal, a internet não tem nada a ver com isso e, uma vez que ela esteja presente em sala de aula, essa relação muda. Então você pode pedir auxílio para os alunos que têm o conhecimento daquelas ferramentas, que já entendem tudo da parte tecnológica, porque cresceram mexendo -naquilo. O bom professor é aquele que vai aproveitar esse conhecimento do estudante, trazê-lo para a sala de aula e definir como aquele conteúdo vai fazer parte da vida do estudante. Perceba como isso é importante do ponto de vista educacional.

CE: Que casos positivos servem de exemplo da inclusão das redes sociais na sala de aula?
JAV: Lembro de um caso bem-sucedido que foi durante a moda dos flashmobs. Os alunos estavam nessa onda e os professores organizaram uma tarefa multidisciplinar, na qual os alunos tinham de preparar um evento desses. Há a concepção artística da coisa, há a resolução de problemas para que se concretize o flashmob, aí tem o professor de Matemática que explora as figuras geométricas etc. Os alunos se empolgam.

CE: Os dirigentes do ensino brasileiro têm se preparado para isso? Como o senhor avalia as políticas públicas para tal?
JAV: Não, eles não estão bem preparados, mas esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Para falar a verdade, é do mundo inteiro. Não há um só país que já tenha todo um programa de utilização das novas tecnologias no universo educacional e que já esteja em pleno funcionamento. Vejo que, na Inglaterra e nos Estados Unidos, há casos isolados entre escolas e grupos de pesquisas, mas nada que se caracterize como uma política pública. O problema é que essas mudanças curriculares não podem simplesmente ser feitas de cima para baixo. Não adianta o Ministério da Educação dizer que a partir de agora o ensino brasileiro vai ser totalmente dentro da era digital se o professor que está lá em baixo da cadeia não participa, se a escola não está preparada etc.

CE: E qual é a alternativa a isso?
JAV: Com o tempo essa interação da escola tende a crescer, mas o fato é que os administradores da política pública têm de se reunir com os professores, que estão no dia a dia da sala de aula e sabem muito bem o que os alunos estão trazendo em termos de novidades. Entendendo o que os professores enfrentam, você consegue assimilar as novidades e as melhores maneiras de incluí-las no currículo.

CE: Mas a velocidade das mudanças das políticas educacionais é lenta, pode ficar décadas sem mudar. E a tecnologia muda em questão de meses. Como conciliar isso?
JAV: De fato, a política nunca vai dar conta de acompanhar o desenvolvimento tecnológico. Agora, o papel da política é preparar todos os personagens do ensino para a flexibilidade que virá do desenvolvimento tecnológico, de mostrar sobre como se preparar para ele. Essas bases são extremamente importantes não só para o mundo escolar, mas também para a nossa sociedade. Cada grande mudança de tecnologia dessas contém uma forte concepção educacional. Portanto, a política não vai acompanhar o avanço tecnológico, ela deve preparar o terreno para que aconteça.

16 de maio de 2011

Sócrates perdeu importância?

Matéria interessante do jornal Opção, sobre a situação vivenciada pela educação no estado de Goiás e que pode ser aplicada a outros estados e cidades brasileiras.

A arte de interrogar do filósofo grego, que exige tempo e reflexão, fica em segundo plano quando as medidas para o setor privilegiam políticas de resultado. Motes do secretário da Educação, Thiago Peixoto, para o setor são questionados por filósofos e professores.

Na arena pública de debates — nas rodas de conversa, na imprensa, nos blogs da internet, em outras redes sociais virtuais ou nas instâncias políticas — as discussões sobre educação, desde o início do governo tucano em Goiás, estão atreladas a ideias e expressões como liderança, metas, gestão, bônus por desempenho, meritocracia, avaliações sistemáticas por meio da aplicação de testes, foco nos resultados. O palavrório é consequência da formação — e, portanto, do posicionamento ideológico — do secretário da Educação Thiago Peixoto (PMDB), economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pós-graduado em gerenciamento de projetos pela Universidade da Califórnia. Assim que assumiu a Seduc, com o mote de que o Estado tem de contar com técnicas gerenciais do setor privado para se tornar mais eficiente (preleções naturais de um economista), Thiago Peixoto viu, como resposta à sua indicação ao cargo, um ânimo fresco na sociedade. O fato de recorrer a estudos quase sempre quantitativos, em uma área que exige também reflexões teóricas qualitativas acerca da realidade escolar, não foi motivo para queixas iniciais.
Reportagem publicada no mês de fevereiro pelo Jornal Opção ouviu professores da rede básica de ensino, que quase sempre se referiam ao secretário sob o mesmo tom: tinham boas expectativas com relação às propostas de meritocracia, bonificação ou melhoria da gestão escolar a partir da capacitação para a liderança. Pouco mais de um mês após a matéria, Peixoto sintetiza sua visão da esfera educacional, para ele uma área que exige políticas mais vinculadas a atuações práticas do que a reflexões teóricas.

matéria completa clique aqui

Ensino médio flexível?

Um equívoco
VLADIMIR SAFATLE - Folha de São Paulo, 10 de maio de 2011

O Ministério da Educação está prestes a cometer um grave equívoco. Na semana passada, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes "flexibilizando" o ensino médio. Tais diretrizes dão às escolas públicas e privadas autonomia para compor a grade curricular de seus alunos a partir de quatro obscuros eixos temáticos: trabalho, tecnologia, ciência e cultura.
Tal possibilidade de composição visa, entre outras coisas, favorecer o agrupamento de disciplinas, que se organizarão a partir de projetos comuns capazes de levar em conta os interesses específicos das comunidades nas quais as escolas estão inseridas.
As novas diretrizes ainda sugerem que a lei que aumenta em 20% o número de horas-aula leve em conta atividades fora da sala de aula.
O argumento para a primeira modificação é a adequação às particularidades. Uma escola em área industrial poderia, assim, dar mais ênfase a disciplinas como física e química. Certamente, para fornecer mão de obra mais adequada para as industrias locais.
Uma outra, estabelecida em área turística, talvez pudesse ensinar uma versão "Club Med" de geografia.
Vejam que interessante. Em um momento no qual se insiste na necessidade de formações capazes de abrir nossos alunos para realidades globais, resolve-se formá-los para trabalhar melhor na fábrica de tecidos da esquina. Como se eles passassem o resto de suas vidas no mesmo lugar.
Há de se perguntar se não necessitaríamos, na verdade, da definição de um currículo básico unificado a ser ministrado em todas as escolas e cuja aplicação adequada seria objeto de avaliação feita por uma inspetoria nacional.
Não creio haver alguém que discorde da importância de ensinar, de maneira aprofundada, as causas da Segunda Guerra, equações de segundo grau, o sistema literário brasileiro e as leis de Newton, em São Paulo ou em Roraima.
Podemos não estar de acordo sobre todos os conteúdos, mas se o Ministério da Educação ouvisse diretamente os professores, certamente ele seria capaz de criar um currículo básico que não colocaria nossos alunos à mercê dos caprichos do dia.
Tais caprichos ficam claros em ideias como "agrupamento de disciplinas". Trata-se de organizar os conteúdos através dos interesses mais imediatos, normalmente aqueles ligados a notícias que aparecem na imprensa.
Assim, se a notícia do mês é o terrorismo islâmico, então agrupa-se disciplinas de história, geografia etc. para "criar projetos" capazes de dar conta da curiosidade geral.
Se nada aparecer sobre "ditadura militar", então seus conteúdos serão secundarizados. O mínimo que se pode dizer é: triste o país que forma seus adolescentes ao sabor dos ventos.

7 de maio de 2011

Bullying' Governo não sabe como lidar com o problema

Do Valor
'Bullying' confunde áreas de saúde e educação
Luciano Máximo | De São Paulo
03/05/2011

As consequências do assédio moral e físico sofrido por crianças e adolescentes dentro de escolas públicas e privadas - também conhecido pelo termo inglês bullying - já extrapolam os limites da educação e avançam rapidamente sobre os setores de saúde, assistência social e segurança, mas o país ainda engatinha na formulação de políticas públicas de combate ao problema.

O bullying já envolve cerca de 30% dos estudantes brasileiros, de acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense/IBGE 2009), e a falta de sintonia entre as áreas de saúde e educação para lidar com a questão é tida como preocupante. Em geral, governos têm pouca informação sobre o assunto, entre médicos e psicólogos há divergências se o bullying é um problema de saúde ou não, o padrão de diagnóstico e tratamento no sistema de saúde não é claro e especialistas avaliam que educadores e funcionários de escolas precisam de melhor formação para identificar e restringir a prática.

O coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, Roberto Tykanori, admite que o país "está apagando fogo" no enfrentamento do bullying. "A verdade é que as políticas públicas não estão estruturadas." Segundo ele, o governo federal prepara para o fim do semestre uma ação nacional de treinamento de profissionais de saúde focada em abuso e violência entre crianças. "É necessário aumentar a consciência para resolver ou minorar danos causados por fenômenos como o bullying. Começamos a nos reunir com especialistas da área infantil para propor uma inflexão na política de assistência de saúde mental a crianças e adolescentes", acrescenta Tykanori.

Embora acreditem que os principais espaços para trabalhar a prevenção e a redução do bullying sejam a escola e a família, especialistas consideram grave o distanciamento da área de saúde do problema, uma vez que os males decorrentes dos assédios se manifestam em forma de patologias físicas e mentais. É comum estudantes que sofrem abusos reclamarem de mal-estar ou febre, principalmente na hora de ir para a escola, e também há casos de depressão e surtos de agressividade.

"Os pais não levam a criança no médico porque ela está sendo alvo de bullying, mas problemas decorrentes do ato acabam demandando serviços de saúde e cabe ao profissional do setor conhecê-lo para fazer o diagnóstico. O ideal seria orientar os pais e até entrar em contato com a escola", explica o médico-pediatra Aramis Lopes, especialista em bullying e dirigente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). "Infelizmente, esse profissional de saúde, na rede pública e privada, não tem consciência para o caso. O bullying não passa na cabeça, principalmente do pediatra", diz.

Uma incompreensão generalizada sobre a responsabilidade pelo combate aos problemas derivados do bullying entre educação e saúde e entre as três esferas de governo também prejudica a consolidação de políticas públicas. A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que tratar casos de bullying é atribuição do serviço municipal de saúde, onde estão estruturados os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Em Brasília, cujo índice de assédio escolar é o mais alto do país (35,6%), segundo a pesquisa do IBGE, a área de saúde disse que o bullying está relacionado à educação, pois são "atitudes que referem-se mais a situações comportamentais do que a distúrbios relacionados à saúde".

A psicoterapeuta Maria Tereza Maldonado, autora do livro "Bullying e cyberbullying: o que fazemos com o que fazem conosco", observa que muitas leis estaduais e municipais estão em processo de elaboração, mas se concentram apenas no âmbito da educação. "Parceria educação-saúde praticamente não há. Quanto à responsabilização, infelizmente a regra é geral, não só para o bullying. Até hoje não sei se o mosquito da dengue é federal, estadual ou municipal, falta integrar ações", ilustra.

A psiquiatra especializada em criança e adolescente Maria Motta Palma, da área de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, diz que o serviço da prefeitura está preparado para atender a todos os quadros, embora não haja uma especialização em bullying. "Não dividimos nosso trabalho. O atendimento é individual. Se a criança tiver um problema relacionado à educação, conversamos com a escola e a família, não atendemos por diagnóstico."

Maria Motta conta que recentemente foi iniciado um projeto-piloto entre saúde e educação envolvendo um Caps e duas escolas públicas na periferia da capital paulista. "Nossos profissionais visitam as escolas, capacitam professores e fazem intervenções simples para identificar crianças em situação de vulnerabilidade. Política pública para o bullying passa pela escola, cuidamos da consequência. Se a escola identifica o problema e leva caso discutido fica mais fácil, senão fica tudo em cima da saúde."

De acordo com Roberto Tykanori, do Ministério da Saúde, a expansão da rede dos Caps, administrados pelos municípios dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), faz parte do esforço governamental que está em discussão para ampliar a assistência mental no país, incluindo casos de bullying. Entre 2002 e 2010, o número de Caps no país saltou de 32 para 1.624, mas apenas 128 são especializados em crianças e adolescentes. "A expansão deve continuar, mas com pontos de foco. Se disser que temos tudo detalhado vou estar mentindo. Estamos discutindo um plano estruturante, o que implicará inflexões no modo como a criança é acolhida no sistema e como ela é olhada na escola", diz Tykanori.

Em Curitiba, onde 34% dos estudantes que participaram da pesquisa do IBGE responderam ter sido vítimas de algum tipo de violência na escola, a Secretaria Municipal de Saúde criou um programa chamado "Adolescente Saudável". A princípio a abordagem da ação era o consumo de álcool e drogas e sexualidade, mas recentemente o tema bullying começou a ser discutido. "Colocamos o jovem como protagonista no seu ambiente. Recentemente algumas escolas organizaram peças de teatro destacando o bullying como tema, uma ação que é multiplicada para várias outras escolas, como participação da área de saúde, educação e assistência social da prefeitura", destaca Luciana Elisabete Savaris, da prefeitura de Curitiba.

Em Belo Horizonte, o tema violência escolar está na agenda da área educacional desde 1999. Em 2004, a Secretaria de Educação organizou um seminário específico sobre bullying para os servidores municipais. De lá para cá, Ismayr Sérgio, gerente de coordenação dos projetos especiais da secretaria, diz que as ações para identificar e reduzir o problema se concentram na qualificação profissional, do porteiro ao diretor da escola. "Treinamos 10 mil na educação. Agora estamos na primeira etapa do treinamento de guardas municipais que fazem a ronda escolar. O grande desafio é multiplicar isso para as famílias e outras áreas, como saúde", conta Sérgio.

4 de maio de 2011

O bullying e a omissão

por Rogério Tuma, em Carta Capital
No dicionário Webster, a definição é clara: bullying é tratar abusivamente, por meio de força ou coerção. É necessário, portanto, que o agressor seja alguém ou um grupo de pessoas com superioridade física ou mental que maltrate sua vítima de maneira intencional e repetitiva. É preciso diferenciar bullying de assédio, no qual não é necessária superioridade física e a coerção tem um objetivo claro, comumente a vantagem sexual. Outra situação diferente é o bullying cibernético, no qual não há contato físico. Em geral, a vítima não identifica seu agressor, o abuso não ocorre em tempo real e a vítima entra no espaço virtual por vontade própria. No ciberbullying, há outras abordagens.

Os exageros no uso do termo bullying como causa do comportamento antissocial são prejudiciais porque podem acobertar outras psicopatias graves ou que merecem tratamento totalmente distinto. Hoje, o bullying parece ser a desculpa preferida dos que têm personalidade psicopata e dos que têm um comportamento que está no limbo, entre o normal e o patológico. No início de abril, em uma conferência sobre o tema ocorrida na Casa Branca e patrocinada pelos Obama, o próprio presidente dos EUA declarou ter sido vítima de bullying. Dá para imaginar o efeito disso se realmente o bullying tiver um crucial papel na criação de assassinos? Nem todo assassinato ocorre porque o criminoso apanhava do pai ou sofria nas mãos dos colegas.

O problema do bullying é mais embaixo. Mais comum entre as crianças, existe na maior parte do caso uma superioridade física do agressor e uma baixa autoestima da vítima. Parece um tema atual, mas o termo já era usado no século XVII. E quem não se lembra de um João Grandão que batia sem motivo em todo mundo da classe? De acordo com o doutor Guilhermo Bigliani, especialista na área, 63% das trabalhadoras brasileiras são vítimas de bullying, principalmente as negras. O bullying é grave, pois demonstra uma falta de intervenção de alguém mais poderoso que o agressor para proteger a vítima.

Na Inglaterra pós-crise, 54% dos jovens estão envolvidos em bullying, e um terço das crianças é vítima ou agride os seus irmãos. No Brasil, mais de 40% da população escolar, segundo a Sociedade Brasileira de Combate ao Bullying, já sofreu abusos do gênero. Nas culturas capitalistas, o bullying é mais tolerado e praticado quanto maior for a pobreza.

Nas civilizações primitivas, o bullying era prontamente coibido pelo interventor que estava sempre próximo das crianças e não tolerava transgressões. Apesar de não escrita, a lei estava incrustada no comportamento automático das pessoas. Hoje, tudo está no papel, mas ninguém lê.

Agora, uma criancinha de 4 anos que conversa com a coleguinha na sala de aula vai para a cadeira do isolamento, enquanto um jovem de 16 anos pode arrebentar a cara do colega na sala de aula e o professor, com medo de ser agredido, finge não ver. Este é o problema verdadeiro: a punição do comportamento que é adequado e a tolerância do interventor ao comportamento antissocial que promove o bullying.

O bullying não ocorre apenas em crianças. Uma discussão extremamente didática sobre o tema entre três especialistas na área, entre eles o dr. Bigliami, e que se transformou em livro a ser editado ainda neste ano, com o título Humilhação e Vergonha, Diálogo Sistêmico Psicanalítico, deverá ter espaço na cabeceira de professores. A obra expõe como a nossa sociedade, moderna e caótica, permite a ascensão do bullyboy ou bullygirl no Estado ou nos altos cargos de direção de empresas, provocando depressão, ansiedade e até suicídio entre as vítimas. A doutora Young Shin Kim, da Universidade de Yale (EUA), analisou 37 estudos de 13 países diferentes e notou que as vítimas de bullying têm até nove vezes mais pensamentos suicidas que indivíduos que não sofreram tal abuso. Para ela, quem sofre bullying pode não estar tão sujeito ao risco de se tornar assassino, mas com certeza é um suicida em potencial.

1 de maio de 2011

"Vai ser professor?Que coragem!"

por Tory Oliveira, Carta Capital


Você é louca!” “É tão inteligente, sempre gostou de estudar, por que desperdiçar tudo com essa carreira?” Ligia Reis (foto a esq.), de 23 anos, ouviu essas e outras exclamações quando decidiu prestar vestibular para Letras, alimentada pela ideia de se tornar professora na Educação Básica. Nas conversas com colegas mais velhos de estágio, no curso de História, Isaías de Carvalho, de 29 anos, também era recebido com comentários jocosos. “Vai ser professor? Que coragem!” Estudante de um colégio de classe média alta em São Paulo, Ana Sordi (foto a esq.), de 18 anos, foi a única estudante de seu ano a prestar vestibular para Pedagogia. E também ouviu: “Você vai ser pobre, não vai ter dinheiro”. Apesar das críticas, conselhos e reclamações, Ligia, Isaías e Ana não desistiram. No quinto ano de Letras na USP, Ligia hoje trabalha como professora substituta em uma escola pública de São Paulo. Formado em História pela Unesp e no quarto ano de Pedagogia, Isaías é professor na rede estadual na cidade de São Paulo. No segundo ano de Pedagogia na USP, Ana acompanha duas vezes por semana os alunos do segundo ano na Escola Viva.

Quando os três falam da profissão, é com entusiasmo. Pelo que indicam as estatísticas, Ligia, Isaías e Ana fazem parte de uma minoria. Historicamente pressionados por salários baixos, condições adversas de trabalho e sem um plano de carreira efetivo, cursos de Pedagogia e Licenciatura – como Português ou Matemática – são cada vez menos procurados por jovens recém-saídos do Ensino Médio. Em sete anos, nos cursos de formação em Educação Básica, o núsmero de matriculados caiu 58%, ao passar de 101.276 para 42.441.

Atrair novas gerações para a carreira de professor está se firmando como um dos maiores desafios a ser enfrentado pela Educação no Brasil. Não por acaso, a valorização do educador é uma das principais metas do novo Plano Nacional de Educação. Uma olhadela na história da educação mostra que não é de hoje que a figura do professor é institucionalmente desvalorizada. “Há textos de governadores de província do século XIX que já falavam que ia ser professor aquele que não sabia ser outra coisa”, explica Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas, coordenadora da pesquisa Professores do Brasil: Impasses e desafios. No entanto, entre as décadas de 1930 e 1950, a figura do professor passou a ter um valor social maior. Tal perspectiva, porém, modificou-se novamente a partir da expansão do sistema de ensino no Brasil, que deixou de atender apenas a elite e passou a buscar uma universalização da educação. Desordenada, a expansão acabou aligeirando a formação do professor, recrutando muitos docentes leigos e achatando brutalmente os salários da categoria como um todo.

Raio X
Encomendada pela Unesco, a pesquisa Professores do Brasil: Impasses e desafios revelou que, em geral, o jovem que procura a carreira de professor hoje no Brasil é oriundo das classes mais baixas e fez sua formação na escolas públicas. Segundo dados do questionário socioeconômico do Enade de 2005, 68,4% dos estudantes de Pedagogia e de Licenciatura cursaram todo o Ensino Médio no setor público. “De um lado, você tem uma -implicação muito boa. São jovens que estão procurando ascensão social num projeto de vida e numa profissão que exige uma formação superior. Então, eles vêm com uma motivação muito grande.”

É o caso de Fernando Cardoso, de 26 anos. Professor auxiliar do quinto ano do Ensino Fundamental da Escola Viva, Fernando é a primeira pessoa de sua família a completar o Ensino Superior. Sua primeira graduação, em Educação Física, foi bastante comemorada pela família de Mogi-Guaçu, interior de São Paulo. O mesmo aconteceu quando ele resolveu cursar a segunda faculdade, de Pedagogia.

Entretanto, pondera Bernardete, grande parte desse contingente também chega ao Ensino Superior com certa “defasagem” em sua formação. A pesquisadora cita os exemplos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que revela resultados muito baixos, especialmente no que diz respeito ao domínio de Língua Portuguesa. “Então, estamos recebendo nas licenciaturas candidatos que podem ter dificuldades de linguagem e compreensão de leitura.”

Segundo Bernardete, esse é um efeito duradouro, uma vez que a universidade, de forma geral, não consegue suprir essas deficiências. Para Isaías Carvalho, esta é uma visão elitista. “Muitos professores capacitados ingressam nas escolas e estão mudando essa realidade. Esse discurso acaba jogando toda a culpa nos professores”, reclama.

Desde 2006, Isaías Carvalho trabalha como professor do Ensino Fundamental II e Ensino Médio em uma escola estadual em São Paulo. Oriundo de formação em escolas públicas, Isaías também é formado pelo Senai e chegou a trabalhar como técnico em refrigeração. Só conseguiu passar pelo “gargalo do vestibular” por causa do esforço de alguns professores da escola em que estudava na Vila Prudente, zona leste de São Paulo. Voluntariamente, os professores davam aulas de reforço pré-vestibular de graça para os alunos, nos fins de semana. “Os alunos se organizavam para comprar as apostilas”, lembra. Foi durante uma participação como assistente de um professor na escola de japonês em que estudava que Antônio Marcos Bueno, de 21 anos, resolveu tornar-se professor. “Um sentimento único me tocou”, exclama. Em busca do objetivo, saiu de Manaus, onde morava, e mudou-se para São Paulo. Depois de quase dois anos de cursinho pré-vestibular, Antônio Marcos está prestes a se mudar para a cidade de Assis, no interior do Estado, onde vai cursar Letras, com habilitação em japonês.

Entretanto, essa visão enraizada na cultura brasileira de que ser professor é uma missão ou vocação – e não uma profissão – acaba contribuindo para a desvalorização do profissional. “Socialmente, a representação do professor não é a de um profissional. É a de um cuidador, quase um sacerdote, que faz seu trabalho por amor. Claro que todo mundo tem de ter amor, mas é preciso aliar isso a uma competência específica para a função, ou seja, uma profissionalização”, resume Bernardete.

Contra a corrente
Ainda assim, o idealismo e a vontade de mudar o mundo ainda permanecem como fortes componentes na hora de optar pelo magistério. Anderson Mizael, de 32 anos, teve uma trajetória diferente da maioria dos seus colegas da PUC-SP. Criado na periferia de São Paulo, Anderson sempre estudou em escolas públicas. Adulto, trabalhou durante cinco anos como designer gráfico antes de resolver voltar a estudar. Bolsista do ProUni, que ajuda a financiar a mensalidade, Anderson é um dos poucos do curso de Letras que almejam a posição de professor de Literatura. “Eu tenho esse lado social da profissão. O ensino público está precisando de bons professores, de gente nova”, explica ele, que acaba de conseguir o primeiro estágio em sala de aula, em uma escola no Campo Limpo, zona sul da capital. Ana, que hoje trabalha em uma escola de elite, sonha em dar aula na rede pública. “São os que mais precisam.” “Eu sempre quis ser professora, desde criança”, arremata Ligia.

A empolgação é atenuada pela realidade da escola – com as já conhecidas salas lotadas, falta de material e muita burocracia. Ligia Reis reclama. “Cheguei, ganhei um apagador e só. Não existe nenhum roteiro, nenhum amparo”, conta. “Às vezes, você é um ótimo professor, tem várias ideias, mas a escola não ajuda em nada”, desabafa. Ligia também conta que, para grande parte de seus colegas de graduação, dar aula é a última opção. “A maioria quer ser tradutor ou trabalhar em editoras. É um quadro muito triste.”

Como constatou Ligia, de forma geral, jovens oriundos de classes mais favorecidas, teoricamente com uma formação mais sólida e maior bagagem cultural, acabam procurando outros mercados na hora de escolher uma profissão. “Eles procuram carreiras que oferecem perspectivas de progresso mais visíveis, mais palpáveis”, explica Bernardete. Um dos motivos que os jovens dizem ter para não escolher a profissão de professor é que eles não veem estímulo no magistério e os salários são muito baixos, em relação a outras carreiras possíveis. “Meu avô disse para eu prestar Farmácia, que estava na moda”, lembra Ana.

A busca pela valorização da carreira de professor passa também, mas não somente, por políticas de aumento salarial. Além de pagar mais, é preciso que o magistério tenha uma formação mais sólida e, principalmente, um plano de carreira efetivo. “Um plano em que o professor sinta que pode progredir salarialmente, a partir de alguns quesitos. Mas que ele, com essa dedicação, possa vir a ter uma recompensa salarial forte”, conclui a pesquisadora.

Anderson, Ligia, Ana, Isaías, Antônio e Fernando torcem para que essa perspectiva se torne realidade. “Eu acho que, felizmente, as pessoas estão começando a tomar consciência do papel do professor. É uma profissão que, no futuro, vai ser valorizada”, torce Anderson. “É uma profissão, pessoalmente, muito gratificante.” “Às vezes, eu chego à escola morta de cansaço, mas lá esqueço tudo. É muito gostoso”, conta Ana.