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10 de março de 2011

O "lado escuro" da Escola da Ponte

FOLHA DE SÃO PAULO, 07 DE MARÇO 2011

FELIPE CARUSO
DO RIO

Célebre por subverter os paradigmas do ensino tradicional, a Escola da Ponte, criada em Portugal em 1976, ganhou notoriedade ao propor um projeto pedagógico diferente, em que não há séries nem professores divididos por disciplina.
Por trás de um método inovador, exaltado em "A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir" (Papirus, 2001), de Rubem Alves, houve uma instituição onde a violência era rotineira e foi importante -o estopim- para a implantação do método.
A revelação é feita por José Pacheco, um dos mentores do projeto e que esteve à frente da escola por mais de 30 anos. Ele admite ter batido em um aluno em 1976 e diz que o livro do brasileiro lhe "criou um problema". Pacheco deve lançar, em meados do ano que vem, um livro sobre o lado obscuro da escola. Confira, a seguir, trechos da entrevista.

Folha - Depois do livro de Rubem Alves, a Escola da Ponte inspirou projetos de educação no Brasil...
José Pacheco - O Rubem Alves me criou um problema quando publicou o livro. Ele é um homem maravilhoso e um amigo, mas, sem querer, criou um mito, mostrando só o lado belo das crianças solidárias. A Escola da Ponte tem um outro lado. O lado feio. O lado da fragilidade humana e que é preciso revelar. Eu hoje no Brasil me preocupo em desfazer o mito sem chocar as pessoas, mas mostrando o lado da miséria humana que também fez a Ponte.

E que lado é esse?
É doloroso falar nisso. Há grandes lutas no projeto. No início, houve grande violência, tanto simbólica quanto explícita. Há 35 anos, havia uma prática comum na escola: professor batia em aluno e aluno batia em professor. Há o conflito entre pessoas diferentes enquanto não aprendemos a aceitar o outro.

A violência no início do projeto surgiu pela ruptura da noção antiga de autoridade?
Em 1976, havia na Ponte a chamada Turma do Lixo, constituída em sua maioria por jovens de 13 a 15 anos que não sabiam ler nem escrever. Esses jovens não eram violentos. Eram violentados.
Além da violência simbólica, eles tinham uma experiência de vida tremenda. Chegavam cobertos de piolho, cheirando mal, bêbados, com fome, com falta de ternura e de vínculo amoroso.
A violência não nasce com a pessoa. A violência aprende-se. Eles tinham aprendido essa violência, de modo que reagiam quando um professor os obrigava a fazer algo. Eles batiam nos professores.

E os professores?
Num primeiro dia de aulas, agora vou fazer uma revelação, bati num aluno que me bateu. Ele era mais alto que eu, tinha 14 anos -o Ricardo, que hoje tem 50 anos e é um homem maravilhoso.
Eu fiquei envergonhado daquilo que tive que fazer, mas a partir daí ninguém mais bateu naquela escola. Nem aluno nem professor.
Aquilo que estava instituído a partir do momento em que eu reagi, era o medo. Nunca eles imaginaram que um professor pudesse reagir.

Como a violência deixou de ser rotina na Ponte?
Desse medo inicial ao que Ponte se tornou hoje, há um processo feito com pessoas que compreenderam que não poderíamos continuar com a violência explícita nem com a simbólica, com um paradigma de ensino que faliu.
Encontramos caminhos com alunos, pais e professores. Desse tempo em que precisei reagir até hoje, quando nem com o olhar nós ameaçamos, há todo um processo que deve ser desmitificado.


Rubem Alves diz que mitificação foi intencional
O projeto pedagógico "Fazer a Ponte" foi criado na década de 70 na instituição pública de ensino Escola da Ponte, em Vila das Aves, distrito do Porto, em Portugal.
Lá, crianças e jovens de idades diferentes aprendem em pequenos grupos com um interesse comum. Orientados por um professor, pesquisam sobre um tema e, depois, avaliam o conteúdo.
Se o aprendizado for considerado adequado, o grupo se dissolve, e formam-se outros para estudar outro tema.
Ao se deparar com esse sistema de aprendizado, o escritor e colunista da Folha Rubem Alves quis transmitir o deslumbramento que sentiu.
"Eu estava tão encantado ao me defrontar com uma escola daquela que a minha tendência era deixar as coisas bonitas", disse.
O escritor admite que há mitificação em seu livro, "A Escola que Sempre Sonhei, sem Imaginar que Pudesse Existir", mas diz que, de certa forma, ela foi intencional.
"Há certas situações em que não é para ser objetivo, porque é o encantamento que faz as transformações."
Depois de quase 30 anos lutando contra os parâmetros do governo português para as escolas públicas, a Escola da Ponte conseguiu, em 2005, um contrato de autonomia com o Ministério da Educação. Nele, é reconhecida como uma escola pública distinta da tradicional.
Perguntada sobre o a revelação de José Pacheco, a atual direção diz que a melhor pessoa para falar sobre a época é mesmo o ex-diretor.
"Como qualquer projeto, é uma construção coletiva. É feito de pessoas com expectativas, convicções, opiniões e, consequentemente, de acordos e desacordos.(FC)

4 comentários:

Trabalho Inteligente disse...

Sou professor de uma escola do 2/3 ciclos do ensino básico de Portugal, de nacionalidade brasileira e grande admirador deste projeto de educação. Talvez, uma referência internacional, exceto para Portugal.
Gostaria de receber algum comentário acerca deste comentário, pois não consigo ver o 'outro lado' da Escola da Ponte.

Guilherme disse...

Eu admiro esse projeto e tb o Rubem Alves.
Não sei se a Ponte é conhecida e reconhecida internacionalmente, mas deveria.
No entanto, sei de uma enorme ironia para nós brasileiros:
A declaração do José Pacheco, em vídeo disponível no Youtube, se não me engano, é de que, entre as referências da Ponte, estão os grandes nomes da educação brasileira, como Paulo Freire e Anísio Teixeira. Ou seja, com todo respeito à Ponte, não precisamos ir até Portugal para encontrarmos boas bases para nossa Educação, falta um pouco de civismo em todas as camadas que constituem nossa Educação.

Leonardo Alves disse...

Infelizmente, em Portugal, continuamos a trabalhar em um processo educativo retrógrado, com poucas 'janelas' voltadas para a criatividade e para a esperança, e como se já não bastasse, agora, também com a instituição do 'terrorismo do fantasma do desemprego', que transporta em seu seio, a política do 'come e cala!'

Anônimo disse...

isso nao e nada trabalhei 4 anos em escola municipal em sao paulo que se dizia inspirada na escola da ponte..... verdadeira ditadura que se dizia democratica a direçao apelou para leis da epoca da ditadura para punir professores que lutavam por direitos.... e incitava o grupo anao deixar falar quem tinha alguma critica aos metodos super autoritarios de implantaçao do projeto... professores ficavam com cem alunos ou mais num salao... enfim muito estranho boa parte dos professores ficavam com medo de represalias....
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