Páginas

31 de outubro de 2010

2010: o ano em que a democracia chegou aos brasileiros

fonte Blog André Forastieri

Em 2006, o número de brasileiros que liam jornal e revistas de informação estava na faixa dos 15 milhões. Eram os famosos “formadores de opinião”, na teoria gente com alguma informação, e capacidade de discutir propostas e defender posições.

Em novembro de 2006, o Brasil tinha 14,4 milhões de usuários de internet. Hoje somos 68 milhões. O número de pessoas que leem jornais e revistas caiu um pouco, mas não importa. Todo mundo que está na internet está lendo as notícias, se informando, debatendo - e fazendo várias outras coisas também. O número de formadores de opinião quintuplicou em quatro anos.

E a própria internet mudou nesse período. Não tínhamos Twitter e Facebook, agora temos. YouTube existia, mas a banda larga era bem mais rara e cara, então a gente via muito menos vídeos. O Orkut tinha 12 milhões de usuários em 2006; hoje são 40 milhões de brasileiros na maior rede social do país. O usuário hoje faz mais na internet. E faz em turma. Passamos cada vez menos tempo sozinhos em frente ao computador.

Principalmente, conversamos. Só o Twitter tem mais de oito milhões de participantes. É mais que a circulação de todas as revistas nacionais de informação somadas.

Eleição sempre foi mais animada na mesa do bar, no balcão da padoca, no almoço do domingão. A eleição de 2010 foi uma grande conversa de boteco entre 75 milhões de brasileiros. Pela primeira vez, o debate incluiu mais da metade dos eleitores. Saiu da sala de visita, foi para o resto da casa, inclusive o quarto da empregada. Quem é o novo formador de opinião, comparando com o velho? É uma turma mais jovem, mais religiosa, menos branca, menos abonada, mas ascendendo. É a famosa nova classe C, que cresce financeiramente, socialmente, intelectualmente.

Não é o grupo social mais beneficiado pelos oito anos de governo Lula - este seria os 1% mais ricos da nação, que ficaram muito mais ricos nos últimos dois mandatos. Nisto, nosso presidente foi idêntico aos seus antecessores.

Mas os novos formadores de opinião são a força social mais poderosa do Brasil de 2010. E ela se fez ouvir, via internet. Por isso, 2010 ficará marcado como o ano em que tivemos a eleição mais democrática que este país já viu. Quem fala de recorde de baixarias de lado a lado tem memória curta - eleição para presidente é sempre na base da canelada mesmo. O que está em jogo é a chave do maior cofre do país, um dos maiores do mundo. Vale tudo, ou quase.

A impressão de bagunça foi porque houve muito mais gente discutindo, propondo, esculhambando, às vezes se estapeando, tudo virtualmente. Em vez de uns poucos canais de TV, jornais e revistas, na mão de poucos, repercutindo entre poucos, tivemos 75 milhões de brasileiros no comando do debate.

Resultados? Um vídeo queimando o filme de Dilma foi o campeão de visualizações no YouTube - foi visto mais de 800 mil vezes. Outro em que Dilma defende o aborto foi visto 204.247 vezes. “Entenda como e por que Serra afundaria o Brasil” foi visto 229.156 vezes. No Twitter, algumas notícias da campanha chegaram à lista de Trending Topics - repercutiram mundialmente.

Qualquer site, comunidade, Twitter virou central de informação. Os noticiosos, os partidários, os engraçados. Eu mesmo fiz campanha pela abstenção, e dei meus pitacos, neste blog e no Twitter, onde - por razões que me fogem - quase 5.000 pessoas me seguem. Quem em sã consciência me contrataria para comentarista político? Ninguém, espero. Mas no mundo novo, qualquer um tem um palanque. O único candidato presidencial que percebeu o novo cenário com clareza, e teve liberdade para se espalhar, foi justamente o que menos tinha a perder: o mais velho de todos, Plínio de Arruda Sampaio. Seduziu muita gente, principalmente universitários.

A sacanagem rolou solta. O melhor exemplo foi a bolinha de papel na cabeça de Serra. Quatro anos atrás, o jogo de cena do candidato, de ir para o hospital fazer exames, seria reportado de maneira “imparcial” pelos veículos de imprensa. No mundo novo, o que aconteceu foi que caiu na internet o vídeo mostrando a bolinha de papel quicando na careca de Serra. Sua “denúncia contra a violência dos petistas” gerou ridículo.

Dois dias depois um esperto tinha feito um novo game, Jogue a Bolinha de Papel na Cabeça do Serra, e milhares jogavam. Serra caiu vários pontos por causa disso.

A internet foi usada principalmente para atacar candidatos, para ridicularizar campanhas, para avacalhar com debates insípidos? Se foi mesmo, isso é ótimo. Democracia não é bater palmas para programas de governo medíocres e campanhas dirigidas por pesquisas de opinião.

Democracia é debate informado, e se em altos brados, na rua, melhor. Se nenhuma ideia “positiva” repercutiu pela internet, é porque as ideias foram todas genéricas, os programas de governo dos três principais candidatos foram 90% iguais. Marina Silva, a suposta grande novidade, disse o quê de eletrizante? Nada.

O candidato que melhor soube usar a combinação de TV-internet para comunicar efetivamente sua mensagem - e tinha uma mensagem real, de rejeição à empulhação - foi o deputado federal mais votado do país, Tiririca. Se você ama a democracia, defenda o mandato de Tiririca.

A eleição foi um circo? Foi e daqui para frente, sempre será. O destino do Brasil não será mais decidido em salas fechadas, em conchavos, ou nos bairros ricos. Agora o espetáculo é público, e quem quiser se meter em política terá que enfrentar palhaços e leões, em uma lona que comporta quase o país inteiro.

Nesta eleição, demos um salto em direção ao futuro. Em 1985, nos livramos do regime militar. Em 1989, ganhamos novamente o direito de eleger um presidente. Mas 2010 será lembrado como o ano em que a democracia finalmente chegou à maioria dos brasileiros - por tudo acima, e pela lei da Ficha Limpa, que só foi aprovada por pressão da sociedade.

Em 2014, estarão na internet não pouco mais que a metade, mas a quase totalidade dos eleitores brasileiros. Nossos “formadores de opinião” terão se multiplicado por dez, em dez anos. A política determinada exclusivamente pela elite se foi e não voltará. Não temos só novos consumidores, mas novos cidadãos, e eles querem mais. Vão conseguir.

Nenhum comentário: