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8 de agosto de 2010

Evasão nas Universidades Públicas?

Evasão também é alta nas públicas
Reportagem da revista Ensino Superior, edição julho/2010

Levantamento aponta índice de 14% entre as universidades públicas; motivo inclui falta de informação sobre curso e dificuldade em acompanhar as aulas

A pesquisa realizada pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) indicou uma evasão recorde de alunos nas instituições de ensino superior privadas em 2008. Realizado com base no Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o levantamento apontou um índice de 20,7% de evasão nas instituções privadas brasileiras; de 21,10% no Estado de São Paulo e de 24,21%, se for considerada apenas a região metropolitana de São Paulo. Todos os dados se referem às instituições privadas no ano de 2008.
Nas instituições de ensino superior privadas da Região Metropolitana de São Paulo, que é considerada como reveladora de tendência nacional, a elevação foi recorde desde o ano 2000, quando a pesquisa passou a ser realizada, passando de 15,17% para 24,21% de evasão.

Para o presidente do Semesp, Hermes Figueiredo, o crescimento da oferta de vagas, a queda dos valores das mensalidades e a inclusão das classes C e D na educação superior explicam o cenário de 2008.

"À medida que cresce a oferta de vagas do setor privado, a mensalidade média cai também para a inclusão das classes C e D com menor poder aquisitivo. Mesmo com os programas de financiamento estudantil, a falta de uma política para manter esse aluno de baixa renda na universidade, além da dificuldade de acompanhamento que esse jovem encontra, provocada pela deficiência no ensino básico, são alguns dos fatores que contribuem para o crescimento da evasão", analisa.

A pesquisa também apontou, na capital, o crescimento do número de ingressantes (3,3%) e de concluintes (10%). Os três cursos mais procurados em números de matrículas na Região Administrativa de São Paulo - composta por 39 cidades - foram administração (112.742), direito (57.815) e pedagogia (41.579).

Ainda entre as instituições particulares de ensino superior, o levantamento também detectou a participação de trancados, desligados e tranferidos na evasão. Em 2008, 11,6% dos alunos se desligaram da instituição, 8% trancaram a matrícula, e 1% foram transferidos (veja tabela acima). Do total de 20,7% de evasão nas instituções privadas, 11,1% acontece no primeiro semestre do ano e 9,6% ocorre no segundo semestre.

Entre os Estados que apresentaram maior evasão nas instituições particulares estão Tocantins (26,9%), Alagoas (26,7%), Ceará (26,3%) e Sergipe (25,9%).
Cruzados, os dados traçam o perfil das estratégias possíveis de serem desenvolvidas pelas instituições, e que comprovam a necessidade de dar mais atenção aos alunos no começo dos cursos e de forma diferenciada em cada semestre do ano.

Mas o problema não está apenas no âmbito das instituições particulares, já que nas universidades públicas esse índice alcançou 14,4% de evasão em 2008, um número ainda mais assustador quando o fator financeiro não é um agravante. A evasão total, incluindo públicas e privadas, foi de 19,1%.

"Nas universidades públicas, os fatores predominantes são a falta de informação sobre os cursos e a dificuldade de acompanhar as aulas por ter realizado um ensino médio de fraca qualidade. Isso é mais sentido principalmente nos cursos que exigem mais cálculos, estatísticas e melhor conhecimento nas matérias exatas", explica Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp.

Rodrigo cita ainda a incompatibilidade de conciliar horários entre aulas e trabalho e a decepção com o curso oferecido como causas para a evasão, já que ele acaba ficando muito distante daquilo que o aluno imaginava fazer antes de entrar na universidade pública.

Enquanto nas instituições particulares o aluno que abandona o curso no primeiro ano provoca, em média, uma perda de receita futura de R$ 13 mil a R$ 16 mil, na Universidade de São Paulo (USP), quase 40% da evasão se dá no primeiro ano e atinge muito mais os cursos de exatas e humanas, por exemplo, dos que os da área de biológicas.

Pesquisa realizada há quatro anos pela própria USP mostrou que o custo para formar 100 alunos em quatro anos de curso era exatamente o mesmo se apenas a metade, 50 deles, chegasse ao final do mesmo curso.

Roberto Leal Lobo, do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia, acredita que esse é um problema crônico. "A evasão no ensino superior não é um problema só do Brasil, mas internacional. As perdas de alunos que iniciam e não terminam seus cursos são desperdícios sociais, acadêmicos e econômicos. Constituem-se em uma fonte de ociosidade de professores, funcionários, equipamentos e espaço físico", reflete.

Na avaliação de Lobo, as perdas são para os dois lados. "No setor público, o alto índice de evasão significa uma grande quantidade de recursos públicos investidos sem o devido retorno, enquanto no setor privado ela se transforma em uma importante e perigosa perda de receita". (R.C.B)

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