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29 de junho de 2010

O desrespeito a Educação - Carta de Repúdio

Uma pausa nas minhas férias do blog para trazer esta manifestação de repúdio contra o tratamento desrespeitoso com os professores e a Educação. O texto abaixo é da profa. Maíra Dourado, professora da rede municipal de educação de Goiânia/GO.

Salas super lotadas, prédios degradados (goteiras em sala de aula, janelas quebradas, pichações, paredes destruídas...), Instituições de placa, materiais pedagógicos de terceira categoria para uso das crianças, abertura de salas em Instituições de Educação Infantil utilizando divisórias e em locais precários (diga-se de passagem, impróprios para ser um local de atendimento a crianças pequenas), contratação de professores em nível médio (magistério – lê-se mão de obra barata), falta de segurança aos professores, funcionários e alunos (as escolas são vulneráveis a ataques de vândalos, roubos...), bibliotecas improvisadas e em locais inadequados, salas de computação (amontoados de equipamentos), baixos salários dos funcionários da educação... Essa é a atual realidade da Educação Pública Municipal de Goiânia.

Há aproximadamente 40 dias, os professores da Rede Municipal de Educação entraram em greve. Em pauta, uma série de reivindicações legítimas em defesa única e exclusivamente de uma Educação Pública e de Qualidade.

Desde então, um grupo de professores, conscientes da atual realidade da Educação Municipal em Goiânia, deram início a um movimento em que após alguns dias, 90% das Instituições estavam paralisadas: funcionários administrativos, agentes educacionais, professores... suspenderam suas atividades para irem em busca de algo que há muito se perdera: a crença de que a educação pública e de qualidade é direito de todos os cidadãos, incluindo os professores e funcionários da educação que dela fazem parte.

Passeatas, mobilizações, assembléias, panfletagem... várias foram as ações realizadas durante esse período para que houvesse uma conscientização da população acerca do Movimento Grevista. Em contrapartida, a Prefeitura de Goiânia, utilizando-se do seu direito, emitiu notas nos meios de comunicação, deu entrevistas, esclareceu a seu modo o que vem acontecendo.

Então, diante do impasse, muitos ainda questionam o fato da paralisação das atividades, do atendimento às crianças, jovens e adultos por parte dos profissionais da educação, como se houvesse uma punição à sociedade, esquecendo-se que os trabalhadores que hoje estão paralisados (não por capricho, preguiça ou falta de consciência em relação a população) defendem um direito constitucional: de que todos tenham direito e acesso a uma educação pública e de qualidade.

Nota-se que, como vem sendo amplamente divulgada, a greve não se limita a salários dos profissionais da educação. O salário é fundamental para que os profissionais sintam-se valorizados e não necessitem trabalhar vários períodos para manter uma família, pagar cursos de formação continuada, livros, congressos... enfim, custear atividades que qualificam ainda mais o trabalhador. Porém, o salário não é o único item em pauta. Todos desejam que as crianças, jovens e adultos que hoje estão sem atendimento, retornem as suas atividades normais com os seus direitos garantidos: permanência e acesso a uma educação pública e de qualidade.

Portanto, depois de dias em greve, em defesa de um direito soberano e legítimo, os vereadores, em plenária, no dia 29 de junho, recusaram-se a atender as reivindicações dos trabalhadores em Educação, entre elas: o Piso Salarial dos professores, plano de carreira dos funcionários administrativos e agentes educativos e, principalmente, Auditoria nas contas da Secretaria Municipal de Educação. Tais vereadores negaram a sociedade, aos cidadãos goianienses, o estabelecimento de uma política de valorização da Educação Pública e de Qualidade.

O sentimento de frustração, de negação, de indiferença a situação da Educação Municipal, permearam por alguns instantes o pensamento dos trabalhadores que ali estavam. Vários dias paralisados, várias ações realizadas, mobilizações nunca antes vista, apoio de diversas categorias a citar algumas: Fórum Municipal de Educação, UFG – Faculdade de Educação, Movimento Estudantil... E alguns vereadores que demonstraram claramente serem contrários a tudo que foi expresso neste texto, deixaram de favorecer a sociedade como um todo, e a Educação em particular.

Apesar de todo sentimento de frustração, sabe-se que é por meio da Educação que os professores e funcionários utilizarão de seu papel social: conscientizar a população sobre as perdas que vem sofrendo com um governo autoritário. Conscientizar sobre a importância do voto, e como se trata de um ano eleitoral, repensar as escolhas, refletir criticamente sobre cada uma delas. Esse é um dos papeis da educação e que não será furtado à população. Os profissionais da Educação permanecerão na defesa de algo há tempos esquecido: que a Educação Pública pode e DEVE ser de Qualidade, nem que para isso seja necessário permanecer paralisados.

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