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29 de maio de 2010

Anatomia do desconcerto

Na relação entre professor e aluno, há um momento fundamental: é quando o docente fecha a porta atrás de si e se vê frente a frente com dezenas de jovens. Uns estão prontos para que a aula comece; outros olham apáticos, como se não lhes importasse o que vai acontecer; alguns ainda continuam o que estavam fazendo, em alto e bom som, quase num desafio. É possível que ainda façam algum comentário engraçadinho ou insolente. A aula vai começar.

Se a educação fosse uma partida de futebol, a sala de aula seria o campo, o espaço estratégico onde se desenvolve a partida. Não, não se trata de uma disputa de alunos contra professores, embora a crescente onda de indisciplina sugira ser assim. Essa indisciplina, até certo ponto natural quando se trata de jovens que lutam para construir sua própria identidade - percurso que costuma incluir a negação de modelos do mundo adulto -, tem ultrapassado a dimensão desse embate natural, apontando muitas vezes para uma impossibilidade de convívio com objetivo comum. No caso da escola, o do conhecimento - o que inclui as formas de relacionamento com o outro.

Confiança ausente
Diferenças de expectativas, de realidades, apimentadas pelo advento de uma geração fermentada pela tecnologia, vêm alimentando um ambiente conflituoso e pouco propício para a aprendizagem, em que as aulas se tornam aborrecidas, o professor luta para preservar autoridade e os alunos veem pouco sentido no que aprendem.

Uma primeira pista para desemaranhar o novelo é lembrar que se trata, antes de tudo, de uma relação entre jovens e adultos. E a primeira notícia não é boa. Dois estudos complementares, realizados pelas pesquisadoras Helena Amstalden Imanishi e Vanessa Lopes dos Santos Passarelli, ambas do Instituto de Psicologia da USP, descobriram que quase 50% dos jovens entrevistados confiam pouco ou nada nos adultos de hoje, e restringem seu crédito basicamente aos pais. Para eles, os adultos são em geral pessoas egoístas e com pouca ética. O estudo ouviu alunos de escolas públicas e particulares da Grande São Paulo, justamente para explorar a visão dos jovens sobre os adultos, tanto no mundo público como no privado.

A esse ambiente de baixa confiança acrescente-se o questionamento da autoridade do professor e, em muitos casos, uma demanda crescente por atenção dos jovens: este é o caldo básico de uma sala de aula contemporânea, terreno fértil para um conjunto de situações e problemas associados à questão da indisciplina.

Nos últimos dois anos, a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Adriana Melo Ramos dedicou-se a estudar quatro classes de alunos de ensino fundamental II, em escolas públicas e particulares, tidas por diretores e professores como 'difíceis'. Passou um ano inteiro acompanhando as aulas, conversando com 90 alunos e professores, para descobrir que características tinham em comum e o que seria preciso fazer para promover a aprendizagem.

Um dos pontos que mais chamaram sua atenção foi a desconexão quase absoluta entre alunos e professores - a ponto de, no final do ano, o aluno desconhecer o nome do seu professor e o docente não se importar com isso. Além disso, ficou patente que a escola tem grandes dificuldades para levar em conta o chamado "conhecimento prévio" dos alunos. "Isso virou um chavão, mas poucas pessoas sabem o que realmente significa", diz. Em uma das situações presenciadas pela pesquisadora, uma professora pediu que os alunos desenhassem a planta baixa de uma casa e considerou errado quando a aluna apresentou-lhe um retângulo simples, sem divisões internas. Ocorre que aquela era, de fato, a planta da casa de uma criança de uma família pobre. Conversando com os adolescentes, Adriana ouviu repetidas vezes que predomina a sensação de que os professores não se importam de fato com os alunos.

A desmotivação dos alunos passa, também, pelas estratégias tradicionais das escolas, especialmente a da cópia. "Grande parte das aulas são cópias de lousa e de livros, com pouca atividade cognitiva", lembra. Ao mesmo tempo, as situações didáticas quase nunca promovem o trabalho em grupo e a colaboração. Tais situações acabavam descambando para uma disciplina que simbolizava um protesto, especialmente na rede pública, onde a sanção das escolas era menos temida pelos jovens.

Autoridade do professor
Nesse equilíbrio crítico e instável, a questão da autoridade do professor torna-se decisiva. Se o docente conquista um espaço de autoridade, o equilíbrio se mantém. Se ocorre o oposto, as consequências são imprevisíveis.

Para o psicólogo Yves de La Taille, a mudança do lugar de autoridade do professor faz parte da transformação de um contexto mais amplo nos papéis sociais e da formação de valores.

Segundo ele, até a década de 60, os pais tinham um papel social claro como instituições sociais. A partir de então, passam a ser pais e mães deste ou daquele, ou seja, deixam de ser uma referência pública para tornar-se uma célula afetiva de caráter privado. Ao mesmo tempo, os professores começam a ser destituídos de uma autoridade natural e inerente ao cargo. Ganhar o respeito do aluno tornou-se, desde então, uma prova de fogo para todo educador. Para Yves, os alunos apresentam uma demanda reprimida inconsciente em relação ao papel do professor do ponto de vista da formação de valores. Por isso, ligam-se mais a quem demonstra amor genuíno por aquilo que ensina.

É o caso do professor Wagner de Carvalho Rocha, que leciona matemática há 12 anos em escolas da rede pública, nos ensinos fundamental e médio, e em cursos de jovens e adultos. Wagner é o exemplo do professor que adora o que faz e tenta oferecer o melhor para seus alunos. Participa de grupos de estudo, como os da Sociedade Brasileira de Matemática, pesquisa em sites e prepara aulas mais ricas, frequentemente utilizando o laboratório de informática. "Sinto que os alunos valorizam essa preocupação em preparar uma aula interessante e respondem muito bem. Consigo um bom resultado mesmo em condições que outros acham adversas", relata o docente.

fonte: Revista Educação, edição 157

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