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30 de maio de 2010

Palestra: Gestão de Instituições de Ensino

Ontem estive na Faculdade ALFA em Goiânia, debatendo com os alunos do curso de Pedagogia sobre Gestão Educacional. Disponibilizo abaixo os slides da palestra e alguns vídeos utilizados.
para acessar os slides clique na figura acima

Extras:
Conto "A nova roupa do Rei" clique aqui
Trecho de Alice no País das Maravilhas
Trecho do filme Limite Vertical
Show da banda Scorpions
Filme publicitário da NIKE

29 de maio de 2010

Anatomia do desconcerto

Na relação entre professor e aluno, há um momento fundamental: é quando o docente fecha a porta atrás de si e se vê frente a frente com dezenas de jovens. Uns estão prontos para que a aula comece; outros olham apáticos, como se não lhes importasse o que vai acontecer; alguns ainda continuam o que estavam fazendo, em alto e bom som, quase num desafio. É possível que ainda façam algum comentário engraçadinho ou insolente. A aula vai começar.

Se a educação fosse uma partida de futebol, a sala de aula seria o campo, o espaço estratégico onde se desenvolve a partida. Não, não se trata de uma disputa de alunos contra professores, embora a crescente onda de indisciplina sugira ser assim. Essa indisciplina, até certo ponto natural quando se trata de jovens que lutam para construir sua própria identidade - percurso que costuma incluir a negação de modelos do mundo adulto -, tem ultrapassado a dimensão desse embate natural, apontando muitas vezes para uma impossibilidade de convívio com objetivo comum. No caso da escola, o do conhecimento - o que inclui as formas de relacionamento com o outro.

Confiança ausente
Diferenças de expectativas, de realidades, apimentadas pelo advento de uma geração fermentada pela tecnologia, vêm alimentando um ambiente conflituoso e pouco propício para a aprendizagem, em que as aulas se tornam aborrecidas, o professor luta para preservar autoridade e os alunos veem pouco sentido no que aprendem.

Uma primeira pista para desemaranhar o novelo é lembrar que se trata, antes de tudo, de uma relação entre jovens e adultos. E a primeira notícia não é boa. Dois estudos complementares, realizados pelas pesquisadoras Helena Amstalden Imanishi e Vanessa Lopes dos Santos Passarelli, ambas do Instituto de Psicologia da USP, descobriram que quase 50% dos jovens entrevistados confiam pouco ou nada nos adultos de hoje, e restringem seu crédito basicamente aos pais. Para eles, os adultos são em geral pessoas egoístas e com pouca ética. O estudo ouviu alunos de escolas públicas e particulares da Grande São Paulo, justamente para explorar a visão dos jovens sobre os adultos, tanto no mundo público como no privado.

A esse ambiente de baixa confiança acrescente-se o questionamento da autoridade do professor e, em muitos casos, uma demanda crescente por atenção dos jovens: este é o caldo básico de uma sala de aula contemporânea, terreno fértil para um conjunto de situações e problemas associados à questão da indisciplina.

Nos últimos dois anos, a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Adriana Melo Ramos dedicou-se a estudar quatro classes de alunos de ensino fundamental II, em escolas públicas e particulares, tidas por diretores e professores como 'difíceis'. Passou um ano inteiro acompanhando as aulas, conversando com 90 alunos e professores, para descobrir que características tinham em comum e o que seria preciso fazer para promover a aprendizagem.

Um dos pontos que mais chamaram sua atenção foi a desconexão quase absoluta entre alunos e professores - a ponto de, no final do ano, o aluno desconhecer o nome do seu professor e o docente não se importar com isso. Além disso, ficou patente que a escola tem grandes dificuldades para levar em conta o chamado "conhecimento prévio" dos alunos. "Isso virou um chavão, mas poucas pessoas sabem o que realmente significa", diz. Em uma das situações presenciadas pela pesquisadora, uma professora pediu que os alunos desenhassem a planta baixa de uma casa e considerou errado quando a aluna apresentou-lhe um retângulo simples, sem divisões internas. Ocorre que aquela era, de fato, a planta da casa de uma criança de uma família pobre. Conversando com os adolescentes, Adriana ouviu repetidas vezes que predomina a sensação de que os professores não se importam de fato com os alunos.

A desmotivação dos alunos passa, também, pelas estratégias tradicionais das escolas, especialmente a da cópia. "Grande parte das aulas são cópias de lousa e de livros, com pouca atividade cognitiva", lembra. Ao mesmo tempo, as situações didáticas quase nunca promovem o trabalho em grupo e a colaboração. Tais situações acabavam descambando para uma disciplina que simbolizava um protesto, especialmente na rede pública, onde a sanção das escolas era menos temida pelos jovens.

Autoridade do professor
Nesse equilíbrio crítico e instável, a questão da autoridade do professor torna-se decisiva. Se o docente conquista um espaço de autoridade, o equilíbrio se mantém. Se ocorre o oposto, as consequências são imprevisíveis.

Para o psicólogo Yves de La Taille, a mudança do lugar de autoridade do professor faz parte da transformação de um contexto mais amplo nos papéis sociais e da formação de valores.

Segundo ele, até a década de 60, os pais tinham um papel social claro como instituições sociais. A partir de então, passam a ser pais e mães deste ou daquele, ou seja, deixam de ser uma referência pública para tornar-se uma célula afetiva de caráter privado. Ao mesmo tempo, os professores começam a ser destituídos de uma autoridade natural e inerente ao cargo. Ganhar o respeito do aluno tornou-se, desde então, uma prova de fogo para todo educador. Para Yves, os alunos apresentam uma demanda reprimida inconsciente em relação ao papel do professor do ponto de vista da formação de valores. Por isso, ligam-se mais a quem demonstra amor genuíno por aquilo que ensina.

É o caso do professor Wagner de Carvalho Rocha, que leciona matemática há 12 anos em escolas da rede pública, nos ensinos fundamental e médio, e em cursos de jovens e adultos. Wagner é o exemplo do professor que adora o que faz e tenta oferecer o melhor para seus alunos. Participa de grupos de estudo, como os da Sociedade Brasileira de Matemática, pesquisa em sites e prepara aulas mais ricas, frequentemente utilizando o laboratório de informática. "Sinto que os alunos valorizam essa preocupação em preparar uma aula interessante e respondem muito bem. Consigo um bom resultado mesmo em condições que outros acham adversas", relata o docente.

fonte: Revista Educação, edição 157

27 de maio de 2010

Publicado Documento Final do CONAE

O Texto abaixo foi extraído do Documento Final.

"O Documento Final resultou de um rico processo de construção coletiva, desencadeado pela decisão política de submeter ao debate social as idéias e proposições em torno da construção do Sistema Nacional de Educação, que assegurasse a articulação entre os entes federados e os setores da sociedade civil.

O Documento-Referência Construindo o Sistema Nacional Articulado de Educação: O Plano Nacional de Educação, Diretrizes e Estratégias de Ação serviu de base consistente para as discussões coordenadas pela Comissão Organizadora Nacional, constituída por representação do governo e da sociedade civil, em todo o território nacional. Esse documento examinava a situação educacional brasileira e suas perspectivas, tendo por base os diferentes níveis, etapas e modalidades de educação, sob a ótica da qualidade e valorização da educação com a participação de amplos segmentos educacionais e sociais em todo o território nacional. Ele foi objeto de debates,estudos e de deliberações pela Comissão Nacional, acrescido de novas proposições, pelas emendas que emergiram ao longo das discussões nos estados, Distrito Federal e municípios, sendo analisadas e aprovadas na Conferência Nacional de Educação.

Foram inseridas pelas comissões estaduais e do Distrito Federal, no Sistema de Relatoria da Conae 5.300 deliberações em parágrafos, com proposta de emendas ou novos parágrafos, acrescidos ao documento. As propostas foram sistematizadas, com base em critérios regimentais, pela Comissão Especial de Dinâmica e Sistematização (CEDS), em Documento-Base da etapa nacional, com 2057 emendas encaminhadas para apreciação dos/as delegados/as nas plenárias de eixo. Das seis plenárias de eixo, realizadas em 30 e 31 de março de 2010, resultaram 694 emendas, aprovadas pelos delegados/as e encaminhadas para apreciação e para deliberação na plenária final. Na plenária final da Conferência Nacional de Educação (Conae), foram aprovadas 677 e o conteúdo resultante de todo esse processo de sistematização está registrado neste documento.

O Documento Final da Conae expressa, portanto, o processo democrático de sua construção e a significativa participação de trabalhadores/as, mães/pais, estudantes, dirigentes, demais atores sociais e todas e todos que se preocupam com a educação, seja por meio das entidades da sociedade civil organizada ou pelo compromisso pessoal, refletindo, discutindo e propondo caminhos para a educação brasileira ."

Para acessar o Documento Final clique aqui

24 de maio de 2010

Educar para a responsabilidade ambiental

por Sheila Ceccon,
Revista Pátio Ano XIV - Nº 54 - Maio 2010 / Julho 2010


Estamos em plena Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, que traduz um esforço mundial das Nações Unidas no sentido de mobilizar amplas reflexões e efetivas ações capazes de colocar a educação em sintonia com as necessidades socioambientais da atualidade

Os sistemas educacionais do mundo todo têm sido provocados a assumir sua responsabilidade frente à necessidade de formação de cidadãos com uma nova postura em relação à sociedade e à natureza, com valores e atitudes diferentes daqueles que levaram o planeta à situação atual de grandes desigualdades sociais e intenso desequilíbrio ambiental.

Debates recentes em relação à divulgação de dados catastróficos relativos à situação atual de diversos ecossistemas não eximem a sociedade mundial da sua responsabilidade em relação ao destino que está construindo para si mesma e para o planeta. Independentemente da maior ou menor gravidade da situação, é inquestionável a impossibilidade de a Terra suportar a demanda de consumo atual, cotidianamente alimentada por diferentes meios de comunicação. É igualmente evidente a necessidade de políticas públicas diferentes para povos em situações diferentes.

Pensar em responsabilidade ambiental em um sentido amplo demanda enfrentar também o desafio da responsabilidade social. Uma imensa população deve consumir mais, tendo assim garantidas suas necessidades básicas historicamente negadas, enquanto outro grande percentual de cidadãos deve rever seu padrão de consumo, reduzindo-o em busca do equilíbrio ambiental tão amplamente difundido nos discursos, mas tão distante de nossas práticas diárias. Trata-se, portanto, de rever a ótica pela qual enxergamos o mundo. Essa mesma sociedade humana que surgiu da lógica da competição e do consumo deverá aprender a posicionar-se de maneira solidária e responsável em relação a todas as formas de vida.

A partir do Fórum Global realizado do Rio de Janeiro em 1992, surgiram dois importantes documentos com um grande potencial educativo: o Tratado da Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e a Responsabilidade Global e a Carta da Terra. No preâmbulo da Carta da Terra, encontra-se um apelo à humanidade: "Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas.

Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura de paz. Para chegar a esse propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida e com as futuras gerações" (Gadotti, 2010).

A escolha de um novo futuro, de um destino diferente para a Terra e todas as espécies que nela vivem - nas quais se inclui a humana - está intrinsecamente ligada à formação de novos sujeitos, guiados por valores como a igualdade, a solidariedade, a tolerância, a liberdade, o respeito à natureza e a responsabilidade compartilhada. Este é, portanto, um desafio a ser abraçado pelos sistemas educacionais do mundo todo.

No período de 2005 a 2014, estamos em plena Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, que traduz um esforço mundial das Nações Unidas no sentido de mobilizar amplas reflexões e efetivas ações capazes de colocar a educação em sintonia com as necessidades socioambientais da atualidade. Uma resolução produzida em 2002 pela Assembleia Geral das Nações Unidas encomendou à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a elaboração de um plano enfatizando o papel da educação na promoção da sustentabilidade.

Um trecho da edição brasileira desse documento, produzida em maio de 2005, afirma textualmente: "O objetivo maior da Década é integrar princípios, valores e práticas de desenvolvimento sustentável em todos os aspectos da educação e do ensino. Esse esforço educacional deve encorajar mudanças no comportamento para criar um futuro mais sustentável em termos de integridade do meio ambiente, da viabilidade econômica e de uma sociedade justa para as atuais e futuras gerações (...). O programa exige que se reexamine a política educacional, no sentido de reorientar a educação desde a pré-escola até a universidade e o aprendizado permanente na vida adulta, para que estejam claramente enfocados na aquisição de conhecimentos, competências, perspectivas e valores relacionados com a sustentabilidade" (Unesco, 2005, p. 57).

Estamos em 2010, no sexto ano da Década, e avançamos muito menos do que poderíamos. Segundo dados do Ministério da Educação, 98% das crianças brasileiras com idade entre 6 e 14 anos frequentam o ensino fundamental. Tomando as séries iniciais dessa etapa do ensino escolar como exemplo, são 9 anos de convivência diária, de diálogo, de construção de conhecimento, de prática de atitudes e exercício de valores, dia após dia, em quantidade de horas muitas vezes superior ao período em que as crianças convivem com os próprios familiares. É um longo período de convivência que pode tanto fortalecer nas crianças os princípios que levaram ao estado emergencial atual quanto contribuir para a construção de uma nova visão de mundo, de outro referencial ético de sociedade.

Não há neutralidade na educação. A opção por currículos centrados em conteúdos dissociados da realidade de vida da comunidade envolvida, currículos fechados em si mesmos, cujo objetivo maior de uma etapa é preparar as crianças para a etapa de ensino seguinte, é uma opção pela manutenção do modelo atual de sociedade; é um "sim" ao descomprometimento da humanidade frente ao seu próprio destino.

Ninguém pode estar no mundo "de luvas nas mãos", "descomprometidamente", como afirma Paulo Freire em seu livro Pedagogia da indignação. Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra. Não é possível estudar por estudar. Estudar de maneira descomprometida, como se misteriosamente, de repente, nada tivéssemos a ver com o mundo, um lá fora e distante mundo, alheio de nós e nós dele (Freire, 2000).

A responsabilidade socioambiental depende de uma consciência ecológica, e a formação dessa consciência depende da educação. Em nossa vida diária, fazemos inúmeras escolhas, ainda que nem sempre tenhamos consciência delas. O processo educativo deve "carregar de intencionalidade" nossos atos, fortalecendo a relação entre as escolhas que fazemos e a definição do futuro que teremos.

Ao percebermos o papel fundamental da educação neste início de milênio, compreendemos melhor a responsabilidade da escola na escolha do seu currículo. Ainda que educação ambiental seja um dos temas transversais preconizados pelo Ministério da Educação, muitas vezes a opção da escola é por uma educação ambiental conservadora, uma educação ambiental que privilegia o aspecto cognitivo do processo pedagógico, acreditando que a transmissão do conhecimento correto fará com que o indivíduo compreenda a problemática ambiental e que isso transformará seu comportamento e a sociedade. Esses currículos preveem a sobreposição da teoria à prática; o conhecimento geralmente é desvinculado da realidade; os conteúdos são organizados de modo a priorizarem a disciplinaridade frente à transversalidade; há um fortalecimento do individualismo; o conhecimento local é descontextualizado do global e a dimensão tecnicista sobrepõe-se à política.

Fazemos escolhas como indivíduos e como instituições. O quanto de intencionalidade existe em nossos discursos e documentos institucionais? Queremos realmente transformar valores e atitudes, construir autonomia e participação social, contribuir efetivamente para a existência de uma sociedade mais responsável em termos sociais e ambientais? O que defendemos verbalmente e o que está registrado nos documentos das instituições nas quais atuamos está em sintonia com o que praticamos cotidianamente no espaço escolar? Agimos de acordo com o que acreditamos? Grandes transformações começam com boas perguntas, e talvez essas sejam algumas das perguntas com as quais tenhamos que nos defrontar.

A formação de sujeitos éticos, criativos, críticos e participativos, conscientes e responsáveis em termos sociais e ambientais, impõe repensar os currículos escolares. É preciso estreitar a relação da escola com o bairro e com a comunidade na qual está inserida, ao mesmo tempo em que se realiza um diálogo com lugares e comunidades mais distantes, com o mundo e suas múltiplas realidades, tão diversas e tão semelhantes, dependendo de como as observamos. Responsabilidade implica comprometimento.

Ao mesmo tempo, comprometemo-nos com aquilo que compreendemos, com o que acreditamos que deva ser preservado ou transformado. Não se constrói responsabilidade socioambiental apenas lendo livros sobre o tema. A experiência pessoal é fundamental. Plantar e seguir o crescimento de uma árvore ou de uma flor, caminhar pelas ruas da cidade ou aventurar-se numa floresta, sentir o cantar dos pássaros nas manhãs ensolaradas, observar como o vento move as plantas, sentir a areia quente de nossas praias ou olhar para as estrelas numa noite escura são formas de encantamento e de emoção frente à natureza que podem ser provocadas pela escola.

Perceber a existência da poluição e da degradação ambiental como ameaças a essas maravilhas pode contribuir para a formação da consciência ecológica e motivar à ação. Observar uma plantinha que cresce viçosa no meio de uma parede de cimento, acariciá-la, contemplar com ternura o pôr do sol, aspirar o perfume de uma folha de pitanga, de laranjeira ou de cipreste, são múltiplas maneiras de viver em relação permanente com este planeta generoso e compartilhar a vida com todos os que o habitam ou compõem. A vida tem sentido, mas ele, o sentido, só existe na relação (Gadotti, 2008).

Currículos escolares que pretendem estar em sintonia com os movimentos contemporâneos mundiais em prol de uma educação para a sustentabilidade devem reexaminar suas práticas educativas sob esse ponto de vista. É preciso promover ambientes educativos que desenvolvam a sensibilidade e a solidariedade, que "apurem" o olhar sobre o espaço e as relações; ambientes educativos que mobilizem processos de intervenção sobre a realidade e seus problemas socioambientais, que trabalhem na construção do conhecimento contextualizado para além da mera transmissão de informações ou conceitos.

O processo educativo deve ultrapassar o aprendizado individualizado dos conteúdos escolares. Em um currículo centrado nas disciplinas, a história, por exemplo, é abordada como algo distante, imutável, já construído. A história não se faz no presente, é algo dado e acontece em um território imaginário, no qual as características geográficas não estão presentes. Por outro lado, quando as aulas de geografia são ministradas, história e ciências são esquecidas. Nenhuma referência é feita à vida silvestre existente nos espaços geográficos, por exemplo - afinal, ecossistemas são conteúdos previstos na disciplina de ciências. Enfim, a fragmentação efetivamente compromete a compreensão do todo. Sem compreensão, não há comprometimento; sem comprometimento, não há mobilização nem intervenção social.

Bastante diferente é a opção por currículos nos quais o conhecimento está colocado "a serviço" da compreensão do mundo. Nesse caso, a abordagem dos conteúdos favorece o surgimento de perguntas sobre situações concretas, a busca por respostas em diferentes fontes de informações, a interpretação dos dados e a intervenção na realidade, contribuindo, assim, para um melhor conhecimento das crianças sobre si mesmas e sobre o mundo em que vivem. A aprendizagem acontece na relação com o contexto mais próximo e mais distante, assim como no exercício de intervenção intencional na realidade desde a infância.

A educação pode contribuir significativamente para a transformação da lógica antropocêntrica e predatória que tem guiado os passos da sociedade humana. Entretanto, para que esse processo se consolide, é preciso uma ampla reflexão entre discursos e práticas. A lógica racionalista levou-nos a saquear a natureza, a matar em nome do progresso. Porém, o uso da razão pode levar-nos a assumir novos valores, baseados na solidariedade, na afetividade e na "ecorresponsabilidade".

Este é um grande desafio, que pode e deve ser assumido amplamente pela sociedade. A educação acontece em todos os espaços e pode ser intencionalmente praticada por todos os setores da sociedade. As cidades podem tornar-se ambientes que contribuam para a construção de novos valores - ou não. Depende das nossas escolhas.

Sheila Ceccon é engenheira agrônoma, especialista em Horticultura, mestre em Ensino e História de Ciências da Terra e atua no Instituto Paulo Freire nos Projetos Município que Educa e Educação para a Cidadania Planetária. sheila@paulofreire.org

REFERÊNCIAS

FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.

GADOTTI, M. Educar para a sustentabilidade. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008.

____. A carta da Terra na educação. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2010.

UNESCO. Década das Nações Unidas da educação para o desen­volvimento sustentável (2005-2014). Brasília: Unesco, 2005.

19 de maio de 2010

Seminário internacional Cursos Superiores de Tecnologia

Estão abertas as inscrições para o seminário internacional Cursos Superiores de Tecnologia: Educação e o Mundo do Trabalho. O encontro, no dia 31 próximo, em Brasília, reunirá delegações de várias partes do mundo. As do Uruguai, Argentina, Canadá, França e Chile já confirmaram participação. O seminário também marcará o lançamento da edição de 2010 do Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia.

No Brasil, o número de matrículas nesses cursos saltou de 81,3 mil em 2002 para 421 mil, de acordo com o Censo da Educação Superior divulgado no ano passado. Apesar do crescimento na oferta e na procura, grande parte da população e dos educadores ainda tem dúvidas, que vão da validade do diploma de nível superior à duração dos cursos.

O seminário, além de permitir a troca de experiências entre países, pretende ampliar a divulgação dos cursos tecnológicos. “O país cresce e o setor produtivo pede mão de obra qualificada. Os cursos superiores de tecnologia permitem a qualificação voltada para o mercado de trabalho em menor tempo”, afirma Ariane Chagas, coordenadora-geral de supervisão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.

Catálogo — A nova edição do Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia inclui dez novos cursos, divididos nos eixos tecnológico-militar (seis cursos), segurança (três) e apoio educacional (um). O Catálogo orienta instituições e estudantes sobre o teor e a infra-estrutura de cada formação.

As inscrições para o seminário internacional devem ser feitas na página eletrônica do Ministério da Educação.

8 de maio de 2010

Meninos são as maiores vítimas e agressores do bullying no Brasil

Pesquisa divulgada sobre o perfil do estudante que convive com o bullying (hostilidade física ou verbal por parte de colegas) aponta que os meninos são as maiores vítimas e também os maiores agressores.

Pesquisa na integra aqui


O levantamento, realizado no segundo semestre de 2009 pela ONG Plan Brasil, indica que 34,5% dos meninos já sofreram maus-tratos na escola, sendo 12,5% vítimas de bullying, contra 7,6% das meninas que se declararam vítimas. Já no papel de agressor, os meninos aparecem com 12,5% de autoria, e as meninas com 8%.

Segundo a professora Cléo Fanti, os fatores para essa razão são culturais e podem influenciar as atitudes dos pais em relação ao comportamento das crianças."Os meninos tem que ser durões, não levar desaforo para casa, não chorar, tem que ser popular. Culturalmente, isso tem uma influência muito grande, que às vezes afeta a própria educação familiar", justifica.

Dos alunos ouvidos, 70% dizem que já presenciaram cenas de agressões entre estudantes, enquanto 30% vivenciaram situações violentas. Desse montante, o bullying foi praticado ou sofrido por 17% dos alunos. A maior incidência ocorre entre adolescentes com faixa etária entre 11 e 15 anos e que frequentam a 6º série do Ensino Fundamental.

Foram colhidos dados de 5.168 estudantes das cinco regiões do país. Em cada região, foi verificado o comportamento de alunos de cinco escolas, sendo quatro públicas e uma particular. Ao todo, em todo o Brasil, a pesquisa foi realizada em 20 escolas públicas e cinco particulares localizadas nas capitais e interior dos Estados.

"O objetivo da pesquisa sobre bullying no Brasil é identificar essa forma de violência escolar, como e onde ela ocorre, quais são as variáveis que implicam na sua manifestação, depois juntar os dados para propor ações pilotos em determinadas escolas para que possamos aprender como viabilizar o debate de como combater a violência na comunidade acadêmica", disse Moacyr Bittencourt, diretor da Plan Brasil. De acordo com ele, com bases nos dados será possível determinar como as escolas devem agir e tentar formar políticas públicas para coibir esse tipo de prática.

Bullying

De acordo com Cléo Fanti, o bullying é caracterizado pela agressão física ou verbal que ocorre repetidamente contra a mesma vítima no mínimo três vezes num período de um ano letivo.

Além disso, não há uma causa definida para que aconteça e está relacionado ao desequilíbrio de poder, como por exemplo, o mais velho contra o mais novo, o mais forte contra o mais fraco físico ou psicologicamente.

Geralmente, as vítimas se diferenciam dos demais colegas de escola pela raça, cor da pele, obesidade, uso de roupas ou objetos, ou ainda, pelo status socioeconômico.

"Eu me sentia ridicularizada, mal, já cheguei a chorar. Algumas vezes tive vontade de trocar de escola", diz a estudante Bruna Fernanda, 14, vítima de bullying. Ela conta que quando era mais nova os colegas de escola a chamavam de gorda e que seu pai teve que ir ao colégio para intervir. A estudante comprova um dado da pesquisa que diz que as meninas, na maioria dos casos, ficam tristes, enquanto os meninos têm comportamento diferente e dizem que não ligaram para os comentários.

O levantamento mostra que as escolas não estão preparadas para lidar com o assunto e que o procedimento adotado são formas de intimidar o aluno com suspensão ou advertência e conversa com os pais --uma forma de transferir a culpa para a família.

A pesquisa mostra que tanto as vítimas como os agressores perdem o interesse em frequentar a escola e sofrem prejuízos em relação ao aprendizado.


fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u720740.shtml

5 de maio de 2010

Sugestões ao Clero

Em 2006/2007 costumava escrever e enviar por email pequenos textos que intitulava de "Temperando". A ideia era produzir, de forma "bem temperada", textos sobre assuntos do cotidiano e compartilhar com amigos e colegas. Reencontrei alguns destes textos e vou postar eles aqui. Espero que gostem!

Original de Junho 2007

Esta semana, o presidente Lula anunciou uma serie de medidas para planejamento familiar. Entre as medidas estão a oferta de métodos contraceptivos na rede pública de saúde e nas drogarias e farmácias privadas credenciadas ao Programa Farmácia Popular do Brasil, campanhas publicitárias de esclarecimento e estímulo ao planejamento familiar e o estímulo à realização e ampliação de vasectomia nos serviços públicos de saúde.

Depois de anunciada, as medidas geraram divergentes opiniões. De um lado o grupo dos que acreditam nos avanços trazidos pelas propostas do governo à saúde das mulheres de baixa renda. Do outro lado do muro, um grupo chefiado por alguns religiosos, que vêem nas medidas um desacato a família e um estimulo a infidelidade e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis.

Desta feita, este escriba gostaria de dirigir as “temperadas”, aos insatisfeitos com as medidas. Em especial à lideres religiosos que as consideram descabidas, blasfêmias e de mau grado para com a família e com Deus(neste caso o “deus” deles).

O que gostaria é oferecer a estes lideres algumas sugestões, que acredito são pertinentes a causa que estes defendem. Não a causa religiosa em si, com seus dogmas e doutrinas, mas os pareceres apocalípticos emitidos sobre o uso e a difusão de anticoncepcionais e a oferta de medidas contraceptivas em postos de saúde da rede pública.

Acredito nas boas intenções dos clérigos, portanto ofereço-lhes algumas idéias para que estes possam confrontar com as medidas do governo federal e assim dar alternativas as milhares de mulheres pobres deste país.

SUGESTÃO 1. O grande problema de ter um filho (ou vários filhos) sem planejamento e estrutura financeira é a educação desta crianças. As escolas públicas em grande parte estão vivendo um caos, e as particulares são caríssimas.

Assim sugiro que as diversas religiões ( católicas ou protestantes) mantenedoras de ótimas escolas e faculdades por este país a fora possam oferecer educação gratuita a estas crianças e jovens oriundas de famílias pobres e de famílias constituídas sem qualquer planejamento.

SUGESTÃO 2. Além de educação, a saúde é outra grande problema fundamental das futuras “mães desplanejadas”.

Minha sugestão é que estas mesmas religiões ofereçam em suas redes de hospitais acesso gratuito, facilitado e de qualidade as famílias pobres.

SUGESTÃO 3. Minha última sugestão, talvez a mais polêmica e mexerá com os cofres das igrejas. O que acham de 5% do dizimo ofertado pelos fies sejam transformados num fundo de amparo e assistência as famílias pobres brasileiras? Esse fundo seria uma “bolsa escola” privado. Afinal, além de educação e saúde as famílias precisarão de comida em casa!

Bem, essas são algumas sugestões que faço. Não quero transformar pessoas em objetos, mas criança é despesa. Filho trás consigo gastos. E mais do que uma visão religiosa gostaria de refletir sobre a questão: Quem educará, dará comida, cuidará da saúde e da integridade física destas crianças? As mães? As famílias? Os padres e pastores? O governo federal?



Espero que meus caros leitores entendam, que as “temperadas” aqui feitas não são ataques a religiões ou religiosos, mas, um estímulo a reflexão sobre um assunto de suma importância – SAÚDE PÚBLICA.

3 de maio de 2010

Os olhos abertos de Têmis.

Em 2006/2007 costumava escrever e enviar por email pequenos textos que intitulava de "Temperando". A ideia era produzir, de forma "bem temperada", textos sobre assuntos do cotidiano e compartilhar com amigos e colegas. Reencontrei alguns destes textos e vou postar eles aqui. Espero que gostem!

Original de Abril 2007

Segundo a mitologia grega Têmis era a deusa da Justiça, da lei e da ordem e protetora dos oprimidos. Inicialmente, Têmis era representada como uma divindade de olhar austero e segurava uma balança em uma das mãos, e, em outra, uma cornucópia (uma espécie de espada). A imagem da Têmis, como conhecemos hoje, passou a ter a venda nos olhos por criação de artistas alemães do século XVI. A faixa cobrindo-lhe os olhos significava imparcialidade: ela não via diferença entre as partes em litígio, fossem ricos ou pobres, poderosos ou humildes, grandes ou pequenos.

No Brasil a deusa “chutou o balde”, jogou a balança num lixão, leiloou a espada no “Mercado Livre” e agora é uma funcionária da máfia do Jogo do Bicho no Rio de Janeiro. Segundo relatos, desfilou na ala das baianas da Escola de Samba Beijo Flor de Nilópolis, ganhadora do carnaval carioca deste ano. Possui vários caros de luxo, contas em bancos suíços e dizem até, contratos de jogadores de futebol.

Por aqui a deusa, que agora prefere ser chamada de Madame Injura, é musa inspiradora de alguns desembargadores, juizes e delegados federais. Semana passada, um furacão, atrapalhou a calma rotina do grupo e tirou o sono da madame. Em uma operação deflagrada pela Policia Federal foram cumpridos 25 mandados de prisão. Na ocasião foram apreendidos um grande volume de dinheiro e mais de trinta carros de luxo. Os detidos são suspeitos de envolvimento em exploração de jogos ilegais, corrupção de agentes públicos, tráficos de influência e venda de sentenças judiciais favoráveis a bandidos.

Nos bastidores, advogados e magistrados clamam por ajuda da Madame Injura para liberar colegas. Pedem a ela que faça a “justiça” se cumprir, pelo menos neste caso. Dizem por ai que a “deusa da justiça tupiniquim” andou mexendo seus pauzinhos e algumas figuras ilustres já estão soltos.

E nessa história toda a Madame faz questão de deixar claro: “No Brasil a justiça não é cega, e enxerga bem a conta bancária e as causas dos poderosos”.

E no buteco do Juca, falam a boca miúda: “Ainda bem que esse pessoal não roubou galinha e nem comida pra matar fome, senão tavam ferrados…”.