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29 de março de 2010

Aviso

De 28/03 a 01 de Abril estarei no CONAE, o que não me eprmitirá atualizar o site. Ao retornar transmito aos leitores as novidades deste evento ímpar para a Educação brasileira.

Carpe Diem...

26 de março de 2010

Conferência Nacional de Educação

De 28 de março a 1º de abril, em Brasília acontece a Conferência Nacional de Educação (Conae), evento que se propoe a discutir a criação de um sistema nacional de educação e propor diretrizes e estratégias para a construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que vai vigorar de 2011 a 2020. O Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, receberá cerca de 4000 participantes oriundos de todo o país.

Educadores, gestores, parlamentares e representantes de entidades falam sobre a Conferência Nacional de Educação (Conae).

Dermeval Saviani
Doutor em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; professor emérito e pesquisador da Unicamp

O tema central da Conae, a criação de um sistema nacional de educação, é de grande importância para o Brasil por sinalizar a superação de problemas como o analfabetismo, que muitos países — entre eles, nossos vizinhos, como Argentina e Uruguai — já conseguiram.

A raiz brasileira da segmentação das responsabilidades pela educação vem de 1834, quando a República entregou a educação primária às províncias. A União e os estados ficaram com a educação superior e a secundária. No século 20, as leis de diretrizes e bases (LDB de 1961 e de 1996) apontaram que a educação deveria ser regida por um sistema, mas ao facultar aos municípios a tarefa de legislar tornaram ambíguo o princípio da articulação.

Pela Constituição Federal de 1988, cabe aos municípios manter as condições físicas das escolas e zelar pela qualidade dos equipamentos, enquanto a União e os estados são responsáveis pelas demais tarefas. Entre elas, a manutenção de um padrão nacional de qualidade.

A Conae também vai tratar do Plano Nacional de Educação (PNE) de 2011-2020. Há relação entre sistema e plano, o que corresponde a uma educação planejada. O PNE definirá diretrizes, metas e recursos para a execução, enquanto o sistema vai ser um conjunto de elementos articulados. Num sistema nacional de fato, a educação é uma questão de Estado, não de governos ou partidos políticos.


Clélia Brandão
Presidente do Conselho Nacional de Educação; professora da Universidade Católica de Goiás

A Conferência Nacional de Educação, a primeira do século 21, deve se concretizar em quatro momentos interligados. Em primeiro lugar, deve ser destacado o movimento riquíssimo que aconteceu no país durante as conferências preparatórias em escolas, municípios, grupos de municípios e estados. Nessas instâncias, a sociedade fez uma reflexão sobre a possibilidade de criar um sistema nacional de educação que efetive o regime de colaboração entre União, estados e municípios. Também debateu o que deseja ver no próximo Plano Nacional de Educação (PNE).

A conferência ocorre em momento estratégico. Ela deve assegurar que as propostas aprovadas sirvam para nortear o novo PNE e a criação do sistema. Nesse contexto, para que se efetive o regime de colaboração, será preciso implantar a cultura do planejamento integrado, que compreende a divisão de responsabilidades das instâncias federal, estaduais e municipais.

Outra etapa importante é a da pós-conferência. A Conae precisa decidir como vai acompanhar a elaboração do projeto de lei que criará o PNE e, depois, a tramitação no Congresso Nacional. E, uma vez aprovado o plano, que vai vigorar de 2011 a 2020, como a sociedade vai acompanhar a execução das metas.

A constituição de um fórum nacional de educação, prevista no documento-referência da Conae e, agora, no documento-base, deve ser decidida pelos delegados durante o evento. Esse fórum deve ser bem representativo para ser capaz de cobrar a execução das metas e de convocar conferências nacionais de educação a cada três anos.

Carlos Roberto Jamil Cury
Doutor em educação; professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais; professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

A causa remota da conferência vem da elaboração da Lei de Diretrizes e Bases, que vai do começo dos anos 1980 até a aprovação, em 1996, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro. Educadores, associações e entidades defendiam a proposta de realização periódica de um encontro nacional. A possibilidade da conferência, no entanto, não foi contemplada na lei que está em vigor.

O movimento dos educadores, no entanto, teve continuidade. Eles conseguiram colocar a conferência como uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), em 2001. Então, existe a determinação legal vigente. No governo Lula, o diálogo foi bem-sucedido e a conferência se realizará. A Conae será uma espécie de dobradiça que vai articular o sistema nacional de educação com o novo PNE. O último ano de governo não é o melhor momento para fazer isso, mas é o que foi possível conseguir.

21 de março de 2010

Vandelei, 7 anos, vendedor de toalinhas!

Terça, nove da noite, bar do Sacha, tomo uma caipirinha na mesa da rua enquanto espero um amigo – e sou interrompido. O mulatinho é simpático, mas não presta muita atenção em mim. Erro.

Vendedor tem que se concentrar na presa. O garoto não tem vocação pra empurrar paninhos. Vai de mesa em mesa, vendendo umas toalhinhas “para ajudar”.

- Quanto é?

- Três reais.

- Como é o seu nome?

- Vanderlei.

- Você estuda, Vanderlei?

- De manhã. Compra pra me ajudar a comprar o material?

- E você está aqui sozinho vendendo as toalhinhas?

- Não, é minha mãe que sempre vende, mas ela tá com a nenê.

- Onde? Em casa?

- Não, ali no outro quarteirão, dando de mamar.

- Então me vê uma.

- Pode escolher a cor.

(São todas igualmente horríveis.)

- Verde, me vê a verde. Taí, cincão, pode ficar com o troco.

- Leva duas, moço!

Não, pode ficar com o troco.

- Leva duas para acabar logo!

- Certeza? Então vou levar as duas verdes.

O moleque finalmente abre o sorriso – vejo a banguelinha. Faltam os mesmos dois dentes que no meu filho.

- Quantos anos você tem, Vanderlei?

- Sete.


Este "depoimento" foi retirado do Blog do André Forastieri

19 de março de 2010

Juventude virtual

por Thomaz Wood Jr., da Carta Capital

Não é preciso uma viagem muito longa no tempo. O leitor com 50 anos talvez resgate na memória uma época em que o aparelho de tevê era um móvel exclusivo da sala de estar, as horas de transmissão eram reduzidas e a programação, escassa. Aos mais jovens eram reservados horários e conteúdos específicos, que não chegavam a roubar muito tempo dos estudos e das brincadeiras com amigos. Em pouco mais de quatro décadas, no entanto, a tevê ganhou tempo de programação, variedade de canais e cores, muitas cores.

Vieram o videocassete, o DVD e os canais a cabo. Depois chegaram os videogames e a internet, abrindo um novo mundo de possibilidades. Estudar e brincar agora são atividades que habitam o tempo que sobra, espremidas entre as telinhas e as telonas. Qualquer que seja a dimensão da tela, sempre atulhada de cores, sons e apelos ao consumo.

A Kaiser Family Foundation, uma organização sem fins lucrativos com sede na Califórnia, divulgou recentemente um estudo sobre o tempo que crianças e adolescentes passam diante de meios eletrônicos nos Estados Unidos. Um sumário foi divulgado no Brasil pelo Instituto Alana, uma organização social. O estudo, realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de Stanford, analisou mais de 3 mil estudantes com idade entre 8 e 18 anos. O foco da investigação foi o uso recreativo dos meios eletrônicos. O emprego de computadores para estudar ou de celulares para comunicação não foi contabilizado nos índices apurados. Os resultados de 2009 foram comparados com os de pesquisas anteriores, o que permitiu avaliar a evolução recente do tempo de exposição das crianças e dos adolescentes aos meios eletrônicos.

O estudo concluiu que a oferta de entretenimento 24 horas por dia, sete dias por semana, fez com que aumentasse a exposição aos meios eletrônicos. Crianças e adolescentes norte-americanos passam hoje nada menos que 7 horas e 38 minutos diárias, em média, diante de meios eletrônicos. Os resultados representam um sensível aumento em relação à pesquisa de 2004, quando foi registrada a média de 6 horas e 21 minutos.

O estudo detectou outras tendências importantes. Primeiro, o aumento do tempo diante dos meios eletrônicos de 2004 para 2009 foi causado em grande parte pelo crescente acesso a mídias móveis, tais como telefones celulares (39% para 66%), iPods e aparelhos de MP3 (18% para 76%). Segundo, apenas três de cada dez crianças e adolescentes mencionaram regras relacionadas ao tempo diante da tevê, dos -videogames e dos computadores. Significativamente, quando os pais estabelecem regras, o tempo de exposição a meios eletrônicos é reduzido em quase três horas por dia. Terceiro, crianças e adolescentes com maior tempo de exposição a meios eletrônicos têm piores notas. O estudo é cuidadoso e evita afirmar que há uma relação causal entre exposição aos meios eletrônicos e fraco desempenho escolar, mas detectou diferenças entre os "usuários pesados" e os "usuários leves".

O estudo também revelou que o tempo utilizado para ler livros manteve-se constante em relação a 2004. A notícia seria alvissareira não fosse o número tão baixo em relação ao total: 25 minutos por dia. Este escriba não tem notícia sobre estudo similar no Brasil. No entanto, a onipresença da tevê nos lares locais, os índices relacionados ao tempo médio por dia de navegação na internet e a aversão aos livros levam a supor que o quadro local seja tão dramático quanto o norte-americano.

Se a tendência se mantiver, teremos cada vez mais adultos que passaram a maior parte de sua infância e adolescência diante de meios eletrônicos. Como serão esses adultos? Um exército de gênios criativos ou uma horda de zumbis? Uma legião de desinibidos manipuladores dos mais complexos meios eletrônicos ou um bando de escravos iletrados desses mesmos meios? Uma geração de espírito aberto e crítico ou um punhado de conformistas, a consumir estilos de vida e grifes de identidade?

As respostas para essas questões estão sendo construídas minuto a minuto, em cada interação entre as grandes máquinas de fabricação de significados e as jovens mentes em formação. As respostas estão sendo influenciadas pelos programadores de tevê, pelos anunciantes, pelos fabricantes de videogames, por homens e mulheres de negócios, desafiados a conquistar corações e mentes, a otimizar recursos e a maximizar resultados. Pais e filhos são ainda agentes desse processo. São, porém, agentes cada vez mais impotentes e passivos. Os estudos sobre o impacto dos meios eletrônicos sobre jovens não costumam ser otimistas.

17 de março de 2010

Educador aponta dilemas e desafios na educação brasileira

O professor Moacir Gadotti é um dos mais respeitados educadores brasileiros. (...) Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos, Gadotti analisa a situação da educação no Brasil, aponta por que o país não conseguiu erradicar o analfabetismo, indica os pontos de avanço e de atraso no sistema educacional.

Entrevista completa clique aqui

15 de março de 2010

Antes que um PC nos separe

por Ricardo Prado, Carta na Escola

Nossa educação é feita em escolas do século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI.” Esta frase tornou-se uma espécie de mantra repetido durante os três dias do V Congresso Internacional Educarede, que reuniu cerca de 2 mil professores na capital da Espanha, em novembro de 2009. A frase pareceu perfeita para mostrar o desafio que seria debater o uso educacional das tecnologias da informação e comunicação (abreviadas pelo versátil acrônimo TIC); mas também porque, nesses encontros sobre tecnologia na escola, fica cada vez mais patente a incômoda inversão de papéis entre mestres e alunos. A maioria dos professores, na Espanha, no Brasil e pelo mundo afora, ainda persegue as habilidades e competências proporcionadas e/ou exigidas pelas TIC que seus alunos já manejam antes mesmo de ingressar na escola. E esses continuam a explorar a fronteira dos recursos de computadores e redes virtuais, sempre alguns passos adiante de seus mestres.

Mas já existem algumas ilhas de excelência, nas quais escola, professores e alunos parecem coabitar o mesmo século. CartaCapital foi conhecer uma delas, o Colégio Montserrat 1, em Madri, mantido pela Fundación Hogar del Empleado, uma instituição sem fins lucrativos criada com o objetivo de oferecer educação de qualidade para populações pobres, quase sempre formadas por filhos de imigrantes. Graças ao seu estatuto de escuela concertada, a Montserrat 1, mesmo sendo privada, recebe recursos públicos, o que permite que 100% de seus 960 alunos sejam bolsistas. Também recebe ajuda da Fundação Telefônica, que há quatro anos investe no aparelhamento tecnológico e na aprendizagem desses recursos pelos professores.

Todas as salas de aula da escola possuem lousa digital. Já o uso de laptops é compartilhado a cada grupo de quatro ou cinco alunos. Segundo o diretor, Carlos Díaz, foi uma escolha do corpo docente da escola não ter um laptop por aluno. “Dessa forma, acreditamos que podemos incentivar o trabalho em equipe desde cedo”, explica, antes de abrir a porta da sala onde o professor de matemática, Garcia Villás, acaba de espetar seu pen drive na lousa digital, iniciando mais uma aula com sua turma de 6ª série.

Procurando abstrair a presença dos jornalistas, incluindo uma equipe de televisão do noticiário peruano Cuarto Poder, Garcia exibe, primeiro, algumas imagens que extraiu da internet para ilustrar o tema do dia: os conceitos de máximo divisor comum e mínimo denominador comum. O professor possui uma versão inteiramente digitalizada do livro didático que repousa nas carteiras de cada aluno e com desenvoltura vai abrindo as páginas referentes aos exercícios que a turma fez em casa.

A sala encontra-se inteiramente dividida em blocos de quatro carteiras agrupadas, e a maioria das atividades é desenvolvida em grupo. Garcia chama alguns alunos à lousa digital, que pode ser rabiscada à vontade com uma caneta especial em sua tela branca. Ao lado, quase inútil, a velha lousa verde permanece vazia, como uma lembrança da época em que se ensinava com a dupla “saliva e giz”.

Em outra sala visitada pela reportagem, pertencente às turmas de educação infantil, apenas quatro alunos aprendem outros conceitos de matemática, bem mais básicos. Coisas tão elementares como contar o número de patinhos em um lado da lousa digital e escrever o numeral correspondente no outro lado, mas que parecem extremamente difíceis para duas das crianças. São meninos autistas, com dificuldade de concentração e aprendizagem, e se encontram em suas aulas de reforço, quando recebem uma atenção especial do professor Ramiro Gómez, formado em Pedagogia Terapêutica. Há, também, cuidados da direção em relação às crianças com alguma necessidade especial: é proibido fotografá-las.

Nessa segunda sala de aula, o uso das TIC encontra-se em uma etapa ainda mais evoluída: foi o próprio Ramiro quem desenvolveu o software ilustrado e divertido com que estimula seus alunos em busca da resposta correta. O que o professor Ramiro já faz, criar seu próprio repertório de materiais didáticos, o Ministério da Educação da Espanha pretende que outros docentes também façam. Amparado por pesquisas que revelam que apenas um terço dos professores espanhóis faz uso semanal das TIC em sala de aula, o ministério criou o ambicioso Programa Escuela 2.0, que, apenas para o biênio 2009-2010, já conta com um orçamento de 200 milhões de euros (aproximadamente, 523 milhões de reais) para desembarcar escolas e professores no ambiente virtual já vivido por seus alunos. Além de investir na infraestrutura tecnológica, visando transformar todas as escolas espanholas em salas de aprendizagem virtuais, com acesso à banda larga e laptops para alunos e professores, o programa vem investindo na criação de materiais didáticos intercambiáveis, cujos módulos podem ser realocados e modificados à vontade pelos professores, de acordo com o perfil de seus alunos e as necessidades de seus projetos. Formatados em soft­wares livres, pretende-se que esses materiais possam ser melhorados progressivamente por professores cada vez mais integrados à interativa escola do século XXI. Claro, desde que a conexão não caia.

11 de março de 2010

No Brasil, mulheres passam mais tempo na escola do que os homens

da Agência Brasil

Se na maioria das áreas a desigualdade entre mulheres e homens permanecem, na educação o cenário é diferente. A trajetória escolar das meninas brasileiras tende a ser mais regular e bem-sucedida do que a dos meninos.

Em alguns países, especialmente na África e no mundo árabe, as condições de acesso ao ensino e permanência na escola são desfavoráveis para as mulheres. Por essa razão, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) estabeleceu metas de promoção de paridade entre gêneros para alguns países durante a Conferência Mundial de Educação, em 2000. A situação é monitorada pelo órgão.

O especialista em educação e oficial de projetos da Unesco no Brasil Wagner Santana analisa que no país as trajetórias escolares diferentes para homens e mulheres têm relação com o mundo do trabalho.

"Faltam estudos conclusivos a respeito disso, mas com muita frequência fala-se que os meninos, especialmente no final do ensino fundamental e no ensino médio, já passam a sentir uma pressão maior para entrar no mercado de trabalho", aponta. Muitos também são afetados pela violência que, nessa faixa etária, atinge mais a população masculina.

Santana destaca alguns dados da última Pnad/IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que ilustram a situação do Brasil: no grupo dos 15 aos 17 anos, 57% das meninas estão no ensino médio, etapa correta para essa faixa etária. Entre os meninos, o atraso é maior: só 47% cursam a série indicada para a sua idade.

Em relação aos índices de escolaridade, na faixa etária dos 15 aos 19 anos, 41% dos homens têm menos de oito anos de estudo. Já entre as mulheres, essa situação atinge 29% da população nessa faixa etária.

"A entrada dos dois na escola é muito parecida, mas a trajetória escolar dos meninos é mais tumultuada e interrompida", compara Santana. Segundo ele, essa situação é comum nos países da América Latina.

A pesquisadora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria Patrícia Rangel ressalta que essa vantagem na escolarização não se reflete em ganhos no mercado de trabalho. Segundo ela, o índice de desemprego entre mulheres com nível universitário é 30% maior do que entre os homens com a mesma escolaridade.

Elas ainda ocupam menos cargos de chefia e continuam ganhando menos do que os homens por questões culturais e de estruturação do mundo do trabalho, de acordo com a especialista. "Em primeiro lugar, o Brasil tem uma cultura patriarcal que não considera normal que a mulher assuma funções de liderança", afirma.

"Além disso, há uma divisão sexual do trabalho. Algumas tarefas são delegadas ao homens e outras à mulher. Elas sempre ficam encarregadas das atividades do lar e do cuidado com os filhos. Com isso, elas têm menos tempo para se dedicar e crescer na carreira", explica.

De acordo com a especialista, creches e escolas infantis são importantes para reverter essa situação e a oferta precisa ser ampliada. Com o acolhimento das crianças nesse locais, a mulher teria mais tempo e energia para investir na carreira, reduzindo os efeitos da dupla jornada.

"Além disso, homens e mulheres precisam compartilhar solidariamente as tarefas domésticas e de cuidado com a família. A Convenção 156 da OIT [Organização Internacional do Trabalho] trata sobre isso, mas o Brasil ainda não ratificou essa convenção", diz.

4 de março de 2010

Sua majestade, o professor

Num tempo em que a concorrência entre as instituições de ensino superior se acirra, a questão da sobrevivência das organizações coloca-se como preocupação central para muitos gestores. O que faz a diferença nesse contexto? A infra-estrutura, a gestão ou o relacionamento entre alunos, professores e funcionários?

Uma pesquisa realizada pelo sociólogo Gilson Borda, que resultou na sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Brasília, contém algumas ideias que podem ajudar as instituições a se posicionarem nesse contexto. A partir de questionários e entrevistas aplicadas a 351 alunos de duas instituições de ensino superior particulares do Distrito Federal, Borda concluiu que um bom professor vale mais do que instalações luxuosas. O resultado é válido para 80% dos estudantes que participaram do estudo e está relacionado, segundo o autor do trabalho, a uma mudança das relações que estão em curso no mundo contemporâneo.

Além de alunos, que responderam a um questionário com questões semi-abertas, foram entrevistados 14 gestores e profissionais das duas instituições. Uma delas existe há mais de 40 anos e localiza-se no Plano Piloto (área central de Brasília); a outra é pequena, nova e fica numa cidade-satélite (periferia). O autor conta que optou por investigar instituições com perfis diferentes para obter mais abrangência de resultados.

"Na segunda metade do século passado prevaleciam o capital econômico e o capital intelectual como valores das organizações. No cenário atual, o capital social está ganhando cada vez mais espaço como fundamento da relação de confiança que uma organização estabelece com as pessoas", diz Borda, explicando que capital social diz respeito às relações das instituições com clientes, prestadores de serviço, funcionários ou a comunidade em geral. Na opinião dele, a importância do capital social só tende a aumentar.

E, nesse processo, os professores desempenham um papel fundamental, afinal, são eles que convivem com os estudantes no dia a dia, constituindo-se na face mais visível da instituição. "O professor consolida ou não a confiança que o aluno mantém com a instituição de ensino", sintetiza o pesquisador. Ele considera que a sobrevivência das instituições está relacionada ao estabelecimento de relações de confiança, sobre as quais se constrói a credibilidade.

Para Borda, esse resultado implica o rompimento de algumas ideias preconcebidas, como a de que a imagem se constrói apenas por meio de uma comunicação eficiente. "A espiral de confiança é construída à medida que são reforçados os valores fundamentais", explica o pesquisador. Ele constatou um grau de satisfação maior dos alunos da instituição mais nova e menor, onde os resultados indicam a existência de maior engajamento dos professores. Por isso, ele reitera que o capital econômico e tudo que se associa a ele (investimento em infraestrutura, por exemplo) está vinculado ao capital social (o bom ou mau relacionamento com alunos, por exemplo). Novamente, os docentes são fundamentais nesse processo: o estudo aponta que a qualificação dos professores é o principal fator de atração de uma instituição .

Para Fábio José Garcia dos Reis, diretor de operações do Centro Unisal, em Lorena, no interior de São Paulo, o reconhecimento da importância do professor numa instituição educacional é algo que se constata ao longo da história e continua valendo até hoje. "Os professores tornam-se referência pelas suas publicações, pelo relacionamento com o mercado, pela sua capacidade de elaborar novos projetos e serviços e pelas diversas conversas com os alunos na orientação para o estudo, pesquisa ou trabalho", afirma.

Para Roberto Lobo Leal e Silva Filho, diretor da consultoria Lobo & Associados, o professor é o "DNA da instituição". "Não adianta ter um salão de mármore se os professores forem omissos", sintetiza. Entretanto, ele considera que o professor tem peso maior ou menor dependendo do perfil da instituição. "Nas instituições de massa, o valor da mensalidade pode ser um forte fator de atração", analisa. Mas mesmo nessas instituições, ressalva o consultor, não se pode esperar a oferta de um ensino de qualidade somente com professores horistas.

Reis se contrapõe, enfatizando que a credibilidade não está relacionada, necessariamente, ao tempo de dedicação do professor, embora reconheça que é importante ter muitos docentes vinculados a fim de se levar adiante projetos de pesquisa, ensino e extensão. "É ideal, mas o alto custo torna isso inviável para muitas instituições privadas."

Artigo publicado na revista Ensino Superior