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8 de fevereiro de 2010

Docência atrai mal qualificados

Reportagem do Jornal O Popular, Domingo, 7 de fevereiro de 2010
por Adriano Marquez Leite



A falta de prestígio pela qual passa a carreira de professor no País e a falta de investimentos na infraestrutura das escolas públicas, e mesmo as privadas, provocam efeitos cada vez mais desastrosos na educação brasileira. Não há docentes para suprir a demanda em todas as áreas do conhecimento e muitos acabam dando aula de disciplinas sobre as quais não têm qualquer domínio. Para piorar a situação, o reflexo dessa conjuntura é que a carreira de professor é relegada à última opção nos vestibulares e atrai cada vez mais jovens mal qualificados e com enormes deficiências na educação que receberam desde o ensino fundamental. É esse o perfil do professor que pode vir a dar aula e formar milhares de crianças e jovens.

Questionário aplicado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano passado revela que quem quer ser professor no Brasil tem baixa renda familiar e tirou nota 20 na prova – em uma escala que varia entre 0 e 100 (veja quadro). Ou seja, é uma pessoa que cresceu em um ambiente com menores chances de acesso a livros e informação, por exemplo, e que possivelmente carrega inúmeros problemas de formação desde o ensino básico, com poucas chances de apreender mais conhecimento durante a faculdade e até de transmiti-lo em sala de aula. Outra pesquisa, divulgada recentemente pela Fundação Victor Civita, revela que a maioria dos futuros professores do País está entre os estudantes com pior desempenho no ensino médio.

Na semana passada, durante os dias de inscrição para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Ministério da Educação (MEC) divulgou as notas mínimas que o estudante deveria ter obtido para conseguir aprovação em uma das graduações oferecidas pelas instituições participantes do processo. Um dia antes de concluir a seleção, dos 100 cursos com os pontos de corte mais baixos, 75 eram de licenciatura.

Na sexta-feira, a divulgação do resultado do vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG) também revelou a mesma tendência. Enquanto cursos de bacharelado mantinham notas mínimas para aprovação em 192,5 pontos, no caso de Medicina, ou 178,5 pontos, para Direito, nenhuma licenciatura conseguiu superar a casa dos cem pontos. Ontem, reportagem do POPULAR mostrou que a situação é ainda mais crítica no interior do Estado, onde a nota de corte é mais baixa – chegou a 36,5 pontos para a licenciatura em Ciência Biológicas.

Pró-reitora de graduação da UFG, Sandramara Matias Chaves afirmou que em algumas turmas de licenciatura no interior a demanda foi menor que a oferta de vagas.

De acordo com o presidente-executivo do movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, a tendência atual de procura pelos cursos superiores mostra que as graduações que têm maiores condições de proporcionar os salários mais altos são as mais procuradas e, geralmente, pelos estudantes melhor qualificados. “O jovem é muito pragmático com relação ao futuro e às possibilidades que se abrem com a profissão que escolhem”, afirma Mozart.

Desestímulo
Especialistas de diversas áreas ouvidos pela reportagem são unânimes em dizer que a falta de alunos qualificados nos cursos de licenciatura está diretamente relacionada com o retrato que se tem da vida docente no País. Os professores exercem uma profissão entendida como estressante, sem planos de carreira bem determinados e dependem de salários baixos. Por causa disso, são obrigados a acumular horas e mais horas de sala de aula, prejudicando até a vida familiar do docente.

Os rendimentos que, em muitos Estados, não chegam ao piso nacional, também decepcionam. Informações da presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), Yeda Leal, apontam que na rede estadual, um professor com carga horária de trabalho de 40 horas semanais ganha em início de carreira 938 reais. Na rede municipal de Goiânia a situação é mais desgastante: um professor contratado para 30 horas semanais recebe o piso de 713 reais. “O professor em Goiás é desvalorizado ao extremo”, afirma Yeda.

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Só 2% têm carreira como opção

Pesquisa realizada com estudantes de escolas públicas e particulares do Brasil revela que somente 2% dos entrevistados têm os cursos de licenciatura ou pedagogia como a principal opção para o vestibular. Segundo o levantamento feito pela Fundação Victor Civita, um terço dos alunos ouvidosna pesquisa chegou a pensar em seguir a carreira docente, mas desistiu logo em seguida por inúmeras razões.

No entanto, se fossem aplicadas medidas como melhor infraestrutura nas escolas, formação continuada, planos de carreira e salários atrativos para quem começa a dar aula, a situação poderia ser diferente. É o que acredita o presidente-executivo do movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, que baseia a afirmação na experiência de outros países, que alcançaram excelentes resultados educacionais com políticas semelhantes às propostas pelo programa.

Coreia
Casos como o da Coreia do Sul são exemplares: há cerca de 30 anos o país patinava nos rankings internacionais que medem o conhecimento dos alunos e, hoje, figura como uma das principais potências em educação depois de rever todo seu processo de gestão das escolas e professores. É em território sul-coreano onde o professor da rede básica pode alcançar melhor remuneração, caso desempenhe satisfatoriamente suas funções ao longo da vida trabalhada.

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