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13 de fevereiro de 2010

Alunos e professores

Carta enviada ao Jornal O Popular, no dia 10/02/2010.

Este jornal publicou domingo reportagem (postado aqui no dia 08/02) sobre alunos com baixo desempenho que viram professores. É triste constatar mas, infelizmente, essa é uma verdade no Brasil inteiro. Como professora (há mais de 10 anos) em escola pública, gostaria de conviver com uma outra realidade no âmbito da educação brasileira. É vergonhoso. A culpa, dizem, é dos professores.

A escola pública conta, principalmente, com alunos de baixa renda. Como se isso não bastasse, oriundos de famílias totalmente desestruturadas, economicamente, socialmente e culturalmente. Famílias desrespeitadas e excluídas pelo governo e pela sociedade, desempregadas, sem atendimento adequado na área da saúde, etc. Indivíduos gerando indivíduos dentro do tráfico, da violência, em casas sem valores, sem princípios e sem religião.

Pais e mães que, por falta de tempo – ou não –, abandonam seus filhos, nas mínimas coisas como pentear o cabelo, escovação dos dentes. Quando o problema não é a falta de dinheiro, trocam uma alimentação saudável por porcarias e drogas no meio da rua. Obrigam, muitas vezes, seus filhos a pedir esmola na rua, ao invés de incentivá-los a estudar, a transformar suas vidas, suas histórias.

O que são valores para essas famílias? Culpá-las? Por quê? É essa a realidade delas. Não conhecem outra. Mandam seus filhos para a escola para se verem livres deles. Já vi criança de seis anos praticar sexo dentro da escola. Já vi usarem drogas. (Não vou dizer o que vi com adolescentes.) Já vi criança machucada, espancada, humilhada. Já apanhei de aluno, ouvi palavrões; fui violentada verbalmente com termos sexuais horríveis. Já tive aluno assassinado, preso, bandido. Já ensinei muito, já virei psicóloga, quando não atriz, palhaça, cantora. Tentei mudar um mundo, uma realidade, em vão. Adianta?

Aquela história de “fazer a minha parte” vem me frustrando. Quem sou eu num mundo como esse? Acabo sendo ameaçada de morte por querer ensinar o aluno a ler, a criticar, a ser melhor. Quem me ameaça? Não, não é o aluno! É o próprio sistema!

Arrependo-me, confesso, de ter sido essa a profissão que escolhi, porque foi esse o sonho que tive desde os cinco anos de idade. Podia ter sonhado melhor. Que salário ainda posso almejar? Nem o que é meu de direito, meu “chefe” não paga.

ALICE XAVIER

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