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19 de janeiro de 2010

Cordel: uma ferramenta pedagógica testada e aprovada!

Texto de Lili Peron, professora e consultora em Educação, publicado na edição 149 do Jornal Virtual.

Não há como falar do cordel sem antes situá-lo no cenário literário brasileiro. O cordel é reconhecido como literatura popular eminentemente oral, pois o cordelista, quase sempre um semi-analfabeto, escrevia poesias para as pessoas ouvirem e, somente depois, então, era transcrita em folhetos; por isso contada ou cantada em versos para facilitar a memorização.

Sua história remonta do Romanceiro, gênero literário de tradição oral constituído por breves poemas tradicionais ou romances com origem na Baixa Idade Média. Veio para cá no século XIX, na bagagem dos colonizadores lusos. Recebeu o nome de cordel pela forma como eram expostos à venda nas feiras de Portugal, pendurados em cordões (barbantes), lá chamados de cordéis. Atualmente, no Brasil, muitos folhetos ficam expostos, não só no barbante, mas horizontalmente em balcões ou tabuleiros.

Diferencia-se da forma como se apresenta em Portugal, Espanha e México porque, na Região Nordeste brasileira, onde se fixou, tomou forma e rumo próprios. Os conteúdos dos folhetos em sua forma original são poesias escritas em versos num papel simples, com suas capas ilustradas por xilogravuras (técnica semelhante ao carimbo). Os temas não têm limites, abordam a história do ciclo do cangaço, de cunho jornalístico de grande repercussão e interesse geral, bibliografias, sátiras sociais e políticas, desafios e pelejas entre grandes violeiros, temas educativos, sempre transmitidos de modo popular.

O cordel teve participação importantíssima no processo de alfabetização do sertanejo nordestino. Podemos confirmar esta informação por meio do boletim da UFMG (Nº 1280, Ano 26, 14.06.2000) sobre a tese de doutorado da Professora Ana Maria de Oliveira Galvão, quando fala de adultos e crianças que se reuniam em grupos na boca da noite e davam seus ouvidos às histórias, romances ou noticiosos sobre os fatos políticos e sociais mais importantes.

E nas rimas alegres do cordel se encantavam tanto que decoravam as histórias ouvidas e acabavam por assimilar “signo e som”, num processo de decodificação e, desta forma, muitos foram alfabetizados, mesmo porque as escolas existiam em um número diminuto e a distância – na maioria das vezes, ficavam a muitos quilômetros de distância. "Assim, muita gente se alfabetizou com o cordel", afirma a pesquisadora Ana Maria em tese defendida em março junto à Faculdade de Educação da UFMG. Ela afirma que "numa época em que eram poucas as oportunidades educacionais, principalmente na zona rural, o cordel teve o papel de desenvolver as competências na área da leitura".

Grandes nomes surgem na história do cordel como Leandro Gomes de Barros (PB, Pombal, 19/11/1865 — Recife, 04/03/1918) e João Martins de Athayde (PB, Ingá do Bacamarte, 23/06/1880 – PE, Limoeiro/1959), considerados os principais escritores. No cenário atual, o mais popular, sem dúvida, foi Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (CE, Assaré, 05/03/ 1909 — 08/07/2002), poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro; tema estudado na Sorbonne (antiga Universidade de Paris) na cadeira da Literatura Popular Universal.

O cordel se metamorfoseia diante das mudanças e, sem perder sua essência, permanece atemporal gerando novas vertentes que veremos na sequência. Em consequência da seca e do desemprego, o nordestino deixa o sertão e vem para os grandes centros e capitais e suas poesias já não são mais com os temas típicos da caatinga – inicia uma fase versejando o cotidiano urbano e nascendo, assim, o cordel urbano.

Com o boom da internet, sua forma impressa já não é mais a única e se abre espaço para o cordel virtual beneficiando tanto ao cordel quanto aos cordelistas que, com a extinção das pequenas gráficas tipográficas, pode publicar suas produções nos sites e blogs à disposição de todos; um trabalho praticamente sem custos e independente. Podemos encontrar blogs e sites que promovem desafios virtuais e produções coletivas.

Com o grande número de pessoas no mundo que acessam a rede, o cordel é divulgado para um público que antes desconhecia essa arte. Os resultados obtidos deste mundo virtual colocam o cordel evidência e, assim, ele reassume na escola a função de uma ferramenta, porém mais arrojada. Muitas instituições procuram orientações para desenvolverem ou já estão em ação com projetos e buscam capacitação para os professores para o uso dessa poderosa ferramenta pedagógica na aprendizagem, apresentando uma nova forma de ler e ouvir, recitar e criar, informar e conhecer – denominada Cordel Pedagógico.

Seu ritmo contagiante segue conquistando futuros leitores que ainda não o conheciam envolvendo-os em atividades e situações de estudos agradáveis por sua linguagem e vocabulário bastante simples. Uma das atividades deliciosas que pode contribuir na formação de novos e incentivar pequenos leitores é o Cordel Infantil, por meio da contação de histórias no estilo irreverente do cordel.

Aqui vai uma dica: escrever ou reler contos clássicos ou modernos em cordel pode ser uma variável interessante para agregar valor no ensino com a literatura podendo, ainda, ser complementada com uma atividade teatral utilizando o mesmo texto (dramatização). Essa é uma maneira muito agradável de despertar crianças e jovens para a leitura e para o conhecimento de vários assuntos, sejam conteúdos de quaisquer disciplinas ou temas transversais.

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