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29 de janeiro de 2010

Bullying: a brincadeira que pode terminar em tragédia

Texto de Kátia Carvalho Abbud publicado no site da Fundação EDUCAR.

Bullying (não há tradução para o termo) é uma das formas que a violência assume e que, muitas vezes, é vista como simples atrito, brincadeira ou desavença – “coisas de crianças” - entre crianças ou adolescentes. Acontece principalmente no âmbito escolar e é tolerado, às vezes estimulado, por uma cultura da banalização da violência ou por desconhecimento sobre o tema, e pode trazer consequências graves.

Desde a década de 60 esse tipo de violência vem sendo objeto de estudos e assume proporções cada vez maiores.

Pesquisas com alunos de escolas públicas revelam que cerca de 50% deles são vítimas de bullying e que as consequências vão desde o isolamento ou o abandono da escola pela criança ou adolescente até extremos como suicídio ou violência contra os colegas, como, por exemplo, os acontecimentos de Columbine, nos Estados Unidos, e em escolas de Taiuva (SP) e Remanso (RS), onde alunos vítimas de bullying terminaram por invadir suas próprias escolas, atirando, matando estudantes e, depois, se suicidando.

O que é bullying?

Estudos recentes têm apontado para essa forma de violência que ocorre dentro das escolas, diferenciando-a de brincadeiras próprias da idade porque implica relações desiguais de poder. Os atos de violência são intencionais e repetitivos, sem motivação evidente, praticados por um ou mais estudantes contra outro/outros, causando angústia e sofrimento.

O bullying é todo tipo de violência, como humilhar, colocar apelidos depreciativos, agredir, discriminar, excluir, tirar “sarro”, amedrontar, ofender, quebrar objetos, chutar, assediar, dominar, perseguir, difamar etc.

Como acontece com outras formas de violência, o bullying também é marcado pelo complô do silêncio: a vítima se encontra encarcerada pelo medo, pelas constantes ameaças e, muitas vezes, pelas atitudes de conivência e pelos estímulos que ela vê nos adultos que a cercam (Se apanhar na rua, apanha em casa; Foi só uma brincadeira, você não tem senso de humor; Bateu, levou!; Pedala, Robinho! etc.).

A representação do bullying acontece com alunos que são alvos/autores (ora sofrem, ora praticam o bullying), com aqueles que são só autores e com aqueles que são testemunhas (convivem num ambiente onde essa violência é aceita).

Os autores de bullying são pessoas de pouca empatia e vêm de ambientes onde a violência é uma forma frequente de resolução de conflitos. Agem no binômio mando-obedece pela força e pela agressão, repetindo um comportamento que lhes foi ensinado. Têm grande probabilidade de desenvolver comportamentos antissociais e atitudes delinquentes.

Os alvos são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as consequências dos comportamentos de outros e que não dispõem de recursos, status ou habilidade para reagir ou fazer cessarem os atos danosos contra si. São, geralmente, pouco sociáveis. Um forte sentimento de insegurança os impede de solicitar ajuda. São pessoas sem esperança quanto às possibilidades de se adequarem ao grupo. A baixa autoestima é agravada por intervenções críticas ou pela indiferença dos adultos ante seu sofrimento. Têm poucos amigos, são passivos, quietos e não reagem efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Muitos passam a ter baixo desempenho escolar e resistem ou recusam-se a ir para a escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com frequência ou abandonam os estudos. Há jovens que, em extrema depressão, acabam tentando ou cometendo o suicídio.

O avanço tecnológico trouxe outra modalidade dessa violência, que chega também por meios virtuais: o cyberbullying ou ciberbullying, cujo efeito multiplicador tem preocupado pais e educadores. A utilização da internet e de outras tecnologias tem servido para maltratar, humilhar e constranger de forma perversa e ultrapassa os muros da escola. Acontece através de e-mails, torpedos, blogs, Orkut, MSN e outros, nos quais o autor adota nicknames (apelidos) e dissemina rumores, fotos, boatos sobre as vítimas, seus familiares e professores. Os alvos do cyberbullying podem ser quaisquer pessoas, não havendo motivos claros que justifiquem os ataques. Nos casos de cyberbullying, as consequências são as mesmas, com o agravante de que o sentimento de impotência é maior, porque o autor dessa violência se esconde no mundo virtual para desferir seus golpes.

Diante dessas modalidades de violência, temos de refletir sobre nosso papel de educadores e repensar estrategicamente formas de enfrentamento do fenômeno, de modo a garantir e assegurar a proteção da qual somos todos devedores a crianças e adolescentes, sejam eles nossos filhos ou alunos.

Há caminhos a seguir: um deles é quebrar o complô do silêncio, proceder a notificações dessas violências, organizar e implementar ações nas quais a cultura da paz seja mediadora eficaz e eficiente das relações interpessoais que devem construir processos civilizatórios embasados em valores de cidadania.

26 de janeiro de 2010

Escola dá exemplo e influencia política pública

Abaixo um bom exemplo na Educação divulgado pelo Movimento Todos Pela Educação.

Articulação entre escola, comunidade, sociedade civil e governo cria programa de aproveitamento das salas de aula ociosas para oferecer cursos profissionalizantes


Programa desenvolvido pela Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira do Santos em parceria com a Associação Cidade Escola Aprendiz, a comunidade e o Centro Paula Souza influencia a criação de política pública educacional no estado de São Paulo. O êxito da utilização de salas de aula ociosas para ofertar cursos profissionalizantes serviu de exemplo para a ampliação do projeto a 84 outras escolas de 45 municípios. A expansão do programa foi divulgada essa semana pelo governador José Serra e deve atender mais de 9 mil alunos até 2010.

A escola Max, como é conhecida, trabalha em tempo integral e fica no bairro da Vila Madalena, zona oeste da cidade de São Paulo. Atualmente reconhecida por seu forte envolvimento com a comunidade, a escola quase fechou as portas em 2007 devido à falta de atratividade das aulas, que estava resultando no baixo número de matrículas e, por conseqüência, na redução do quadro de funcionários e na queda dos indicadores da qualidade do ensino.

Para reverter a situação, alunos, pais, comunidade e professores buscaram o apoio da Associação Cidade Escola Aprendiz e juntos conseguiram realizar diversas parcerias. A escola passou a oferecer oficinas culturais e de comunicação aos estudantes, além de abrir o espaço escolar para a comunidade do bairro. Segundo a diretora da Associação Escola Cidade Aprendiz, Natacha Costa, “a relação entre escola e comunidade foi fundamental tanto no processo educacional, quanto na qualidade de vida da comunidade”.

Para aproveitar as salas de aulas do período noturno e vespertino, a escola Max e a Associação Cidade Escola Aprendiz firmaram uma parceria com o Centro Paula Souza. Hoje são oferecidas 388 vagas para os cursos técnicos de Administração e Webdesign. Natacha explica que os alunos que têm interesse pelos cursos precisam passar pelo vestibulinho do Centro Paula Souza. “Mas os alunos do Max recebem uma preparação específica para participar desse processo seletivo”, afirma. Na primeira turma do curso de Administração a relação candidato/vaga chegou a 17 para 1.

A diretora sempre acreditou que, apesar do programa ser uma ação “micro-comunitária”, e pode ser facilmente replicado. Está nos planos da secretaria replicá-la em 74 escolas da rede estadual de ensino em 45 municípios e 10 CEUs - Centros Educacionais Unificados da capital paulista.

Os cursos técnicos serão oferecidos no período noturno e serão ministrados por professores das Escolas Técnicas (Etecs) estaduais. Cada escola estadual terá até três turmas por semestre e oferecerá até três cursos técnicos. Ao todo, serão 12 habilitações, com duração de três semestres: Administração, Logística, Contabilidade, Secretariado, Marketing, Comércio, Jurídico, Seguros, Serviços Imobiliários, Informática, Informática para Internet e Redes de Computadores. As turmas terão 40 alunos e outros cursos estão em estudo para serem incluídos em 2010.

Mais informações:
Saiba mais sobre a escola Max no site da Associação Cidade Escola Aprendiz

23 de janeiro de 2010

Filmes na sala de aula: recurso didático, abordagem pedagógica ou recreação?

Rogério Christofoletti - educação (UFSM) v. 34, n. 3, set./dez. 2009

O cinema é amplamente usado em sala de aula e em situações de ensino e aprendizagem. Docentes dos mais diferentes níveis de ensino recorrem à exibição de filmes de ficção e não-ficção, seja para ilustrar os conteúdos curriculares, seja para reforçar conhecimentos que se pretende fixar. Entretanto, pouco se sabe sobre o uso do cinema por parte dos professores, já que não existe uma pedagogia específica para esse recurso nem tampouco se conhecem regras que ajudem a orientar a utilização dessa tecnologia. Nos anos iniciais da educação escolar, o cinema pode até ser recreativo, mas e no ensino superior, mais orientado para a formação profissional e mais ampla dos sujeitos, de que forma vídeos e filmes funcionam como suportes pedagógicos? Perseguindo esse aspecto, esta pesquisa questionou 55 docentes de 11 cursos de uma instituição de ensino superior, abordando dimensões como as da rotina do uso do cinema em sala de aula, a natureza desse recurso pedagógico e a capacitação docente para essa utilização. As respostas colhidas em questionários permitem refletir sobre a relação entre cinema, tecnologia e educação.

texto completo clique aqui

21 de janeiro de 2010

Relatório aponta avanços e preocupações com a Educação no planeta

Um estudo, elaborado anualmente por uma equipe independente e publicado pela UNESCO, avalia os progressos realizados mundialmente para o alcance dos seis objetivos de Educação para Todos fixados em 2000, em Dacar, no Senegal, compromisso assumido por mais de 160 países.

O Relatório de 2010, intitulado Alcançando os Marginalizados (título provisório em português), apresenta e analisa alguns dos mais expressivos avanços obtidos no campo da educação ao longo da última década, mas adverte que apesar desses progressos, a comunidade internacional não está próxima de alcançar o objetivo de universalização do ensino fundamental até 2015. Como possíveis causas, o estudo destaca a incapacidade dos governos de combater as desigualdades extremas existentes em âmbito nacional, bem como a dos doadores de conseguir mobilizar o volume de recursos necessários.

O estudo adverte ainda que milhões de crianças dos países mais pobres do mundo correm o risco de serem privadas de escola em conseqüência da crise financeira mundial. Com 72 milhões de crianças ainda fora da escola, a desaceleração do crescimento econômico, conjugada com o aumento da pobreza e das pressões exercidas sobre os orçamentos públicos dos países, pode comprometer os progressos realizados no âmbito da educação nos últimos anos.

Os autores do Relatório estimam que, para que sejam atingidos os objetivos de Educação para Todos, será necessário cobrir o déficit de financiamento anual estimado em 16 bilhões de dólares, uma soma consideravelmente maior do que a prevista em avaliações anteriores.

Site oficial do relatório (em inglês, francês e espanhol)

19 de janeiro de 2010

Cordel: uma ferramenta pedagógica testada e aprovada!

Texto de Lili Peron, professora e consultora em Educação, publicado na edição 149 do Jornal Virtual.

Não há como falar do cordel sem antes situá-lo no cenário literário brasileiro. O cordel é reconhecido como literatura popular eminentemente oral, pois o cordelista, quase sempre um semi-analfabeto, escrevia poesias para as pessoas ouvirem e, somente depois, então, era transcrita em folhetos; por isso contada ou cantada em versos para facilitar a memorização.

Sua história remonta do Romanceiro, gênero literário de tradição oral constituído por breves poemas tradicionais ou romances com origem na Baixa Idade Média. Veio para cá no século XIX, na bagagem dos colonizadores lusos. Recebeu o nome de cordel pela forma como eram expostos à venda nas feiras de Portugal, pendurados em cordões (barbantes), lá chamados de cordéis. Atualmente, no Brasil, muitos folhetos ficam expostos, não só no barbante, mas horizontalmente em balcões ou tabuleiros.

Diferencia-se da forma como se apresenta em Portugal, Espanha e México porque, na Região Nordeste brasileira, onde se fixou, tomou forma e rumo próprios. Os conteúdos dos folhetos em sua forma original são poesias escritas em versos num papel simples, com suas capas ilustradas por xilogravuras (técnica semelhante ao carimbo). Os temas não têm limites, abordam a história do ciclo do cangaço, de cunho jornalístico de grande repercussão e interesse geral, bibliografias, sátiras sociais e políticas, desafios e pelejas entre grandes violeiros, temas educativos, sempre transmitidos de modo popular.

O cordel teve participação importantíssima no processo de alfabetização do sertanejo nordestino. Podemos confirmar esta informação por meio do boletim da UFMG (Nº 1280, Ano 26, 14.06.2000) sobre a tese de doutorado da Professora Ana Maria de Oliveira Galvão, quando fala de adultos e crianças que se reuniam em grupos na boca da noite e davam seus ouvidos às histórias, romances ou noticiosos sobre os fatos políticos e sociais mais importantes.

E nas rimas alegres do cordel se encantavam tanto que decoravam as histórias ouvidas e acabavam por assimilar “signo e som”, num processo de decodificação e, desta forma, muitos foram alfabetizados, mesmo porque as escolas existiam em um número diminuto e a distância – na maioria das vezes, ficavam a muitos quilômetros de distância. "Assim, muita gente se alfabetizou com o cordel", afirma a pesquisadora Ana Maria em tese defendida em março junto à Faculdade de Educação da UFMG. Ela afirma que "numa época em que eram poucas as oportunidades educacionais, principalmente na zona rural, o cordel teve o papel de desenvolver as competências na área da leitura".

Grandes nomes surgem na história do cordel como Leandro Gomes de Barros (PB, Pombal, 19/11/1865 — Recife, 04/03/1918) e João Martins de Athayde (PB, Ingá do Bacamarte, 23/06/1880 – PE, Limoeiro/1959), considerados os principais escritores. No cenário atual, o mais popular, sem dúvida, foi Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (CE, Assaré, 05/03/ 1909 — 08/07/2002), poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro; tema estudado na Sorbonne (antiga Universidade de Paris) na cadeira da Literatura Popular Universal.

O cordel se metamorfoseia diante das mudanças e, sem perder sua essência, permanece atemporal gerando novas vertentes que veremos na sequência. Em consequência da seca e do desemprego, o nordestino deixa o sertão e vem para os grandes centros e capitais e suas poesias já não são mais com os temas típicos da caatinga – inicia uma fase versejando o cotidiano urbano e nascendo, assim, o cordel urbano.

Com o boom da internet, sua forma impressa já não é mais a única e se abre espaço para o cordel virtual beneficiando tanto ao cordel quanto aos cordelistas que, com a extinção das pequenas gráficas tipográficas, pode publicar suas produções nos sites e blogs à disposição de todos; um trabalho praticamente sem custos e independente. Podemos encontrar blogs e sites que promovem desafios virtuais e produções coletivas.

Com o grande número de pessoas no mundo que acessam a rede, o cordel é divulgado para um público que antes desconhecia essa arte. Os resultados obtidos deste mundo virtual colocam o cordel evidência e, assim, ele reassume na escola a função de uma ferramenta, porém mais arrojada. Muitas instituições procuram orientações para desenvolverem ou já estão em ação com projetos e buscam capacitação para os professores para o uso dessa poderosa ferramenta pedagógica na aprendizagem, apresentando uma nova forma de ler e ouvir, recitar e criar, informar e conhecer – denominada Cordel Pedagógico.

Seu ritmo contagiante segue conquistando futuros leitores que ainda não o conheciam envolvendo-os em atividades e situações de estudos agradáveis por sua linguagem e vocabulário bastante simples. Uma das atividades deliciosas que pode contribuir na formação de novos e incentivar pequenos leitores é o Cordel Infantil, por meio da contação de histórias no estilo irreverente do cordel.

Aqui vai uma dica: escrever ou reler contos clássicos ou modernos em cordel pode ser uma variável interessante para agregar valor no ensino com a literatura podendo, ainda, ser complementada com uma atividade teatral utilizando o mesmo texto (dramatização). Essa é uma maneira muito agradável de despertar crianças e jovens para a leitura e para o conhecimento de vários assuntos, sejam conteúdos de quaisquer disciplinas ou temas transversais.

15 de janeiro de 2010

Ministro da Educação faz balanço sobre 2009

Em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta terça-feira, 12, o ministro da Educação, Fernando Haddad, falou sobre os avanços da área em 2009 e os projetos para 2010. Abordou, entre outros temas, os desdobramentos dos exames nacionais do Ensino Médio (Enem) e de Avaliação de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2009. Outros assuntos da entrevista foram os hospitais universitários e o fim da desvinculação das receitas da União (DRU) para a educação.

Leia a íntegra da entrevista.

13 de janeiro de 2010

TEORIA E PRÁTICA DA AUTONOMIA

por José Pacheco, Revista Pátio, nº 52

O Brasil da educação é um alfobre de excelentes exemplos de projetos de mudança. Não farei o seu inventário porque, com certeza, as "escolas invisíveis" serão referidas neste número da Pátio. Creio ser oportuno falar-vos dos riscos da inovação e da necessidade de reconhecer que, por detrás de uma boa prática, há sempre uma boa... teoria. Desde meados da década de 1980, a Escola da Ponte tem sido inspiração para muitos professores e escolas que não desistem de fazer dos seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes. Mas uma preocupação me assalta: por vezes, vejo reeditadas práticas da Ponte sem que os autores da mudança reflitam sobre o porquê da adoção. Chamo a atenção desses professores para a necessidade de dar resposta a necessidades locais, respostas específicas a problemas específicos, que não serão, certamente, aqueles que a Ponte defrontou. Nada se repete, e os projetos não devem ser clonados. Falo-lhes também dos nossos esforços de pesquisa motivados por problemas que resolvemos e avaliamos com apoio na teoria. Chamo a atenção dos que ousam mudar as suas práticas para uma realidade incontornável: nenhuma mudança poderá prescindir dos contributos da teoria. Por essa razão, evocarei uma das matrizes teóricas que influenciaram as práticas da Escola da Ponte. Uma delas − e não a única − porque a Ponte recebeu influências de múltiplas propostas teóricas.

Ao longo de mais de 30 anos de projeto, comprendemos que os processos de aprendizagem não deverão estar centrados no professor nem no aluno, que tudo passa pela relação. Instituímos múltiplos mediadores. E na gênese de muitos dos dispositivos que asseguram que a Ponte seja um espaço e tempo de relação - a Comissão de Ajuda, a Caixa dos Segredos, o Professor-Tutor e outros - está a vertente psicanalítica em educação. Exponho algumas das reflexões produzidas na equipa de projeto. São argumentos de recusa de práticas "tradicionais" e críticas de excessos. Completo com sugestões de leitura de autores cujos contributos serviram à fundamentação de práticas instituídas com vista ao desenvolvimento da autonomia dos nosso alunos.

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10 de janeiro de 2010

Os elementos que fazem de alguém um professor

Lembranças de uma formação

Artigo publicado na Revista Educação, edição 153

Em nossas memórias de adultos, geralmente impregnadas de melancolia romântica, a imagem da primeira professora ocupa um lugar especial. Quase proverbial, como a da velha canção na qual a felicidade de tão plena não tinha consciência de si (eu era feliz e não sabia...). Da minha, não lembro o nome. Mas recordo vivamente a expressão austera, o olhar implacável, os gestos fortes e destemperados, uma vara quebrada num acesso de fúria, o punho fechado a distribuir pequenos golpes nas cabeças infantis. E, claro, o apelido que cunháramos entre nós como vingança: Bruxa.

Já minha professora da 3ª e 4ª séries era uma moça dedicada e doce, creio que de cerca de 20 anos e recém-formada na escola normal do bairro. Seu nome era Gislaine. Lembro-me vivamente da aula em que tentou (no meu caso, sem sucesso imediato) nos ensinar frações, a partir do desenho de um chocolate, que se partia em meio, em um quarto, enfim, em enigmáticas "frações". Do dia em que me repreendeu, por conversar com um colega, e me colocou sentado no outro lado da classe, com as meninas (o sistema de coeducação não era concebido de forma muito ortodoxa). Do quanto nos observava com respeito, do remédio que me trouxe ao notar uma verruga em meu dedo, do zelo com que mantinha uma folha para cada aluno em seu caderno de aula. Lembro-me da canção que escreveu para o dia de nossa formatura, em que, tristes, nos despedimos de uma grande professora.

Há quase duas décadas tenho como ofício - e interesse teórico - a formação de professores. Mas confesso que em grande medida ignoro os processos pelos quais se formam professores como Gislaine. É difícil crer que sejam frutos do desenvolvimento de certas competências previsíveis e enunciáveis, como querem as mais modernas diretrizes. Ou que se produzam a partir da compreensão científica do desenvolvimento infantil, como pregavam (ainda o fazem?) as pedagogias de inspiração psicológica. Claro que esses, como outros aspectos, podem ter alguma relevância para a formação de professores. Mas passam ao largo de questões essenciais, como compromisso pessoal e institucional, empatia e dedicação aos alunos, senso de responsabilidade pelas crianças e pelo legado cultural no qual é dever do professor iniciá-las.

Por outro lado, é pouco plausível que essas características sejam 'dons' pessoais que independam de um processo formativo. Ao contrário, provavelmente se desenvolvem como fruto de uma formação na qual o significado da profissão docente possa, aos poucos, se desvelar em sua profunda complexidade. Nas páginas de uma obra literária, na elegância de uma demonstração matemática, no rigor de um experimento científico, na profundidade de uma reflexão filosófica. Nos exemplos de nossos mestres, nos compromissos sociais e políticos que, por meio deles, em nós se renovam. Por isso, convém certa prudência ao tratar do tema. A formação resulta do intercâmbio entre pessoas; e não do contato com coisas, por mais sofisticadas que estas sejam.

José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp

8 de janeiro de 2010

A grande descoberta

Pesquisa mostra como os alunos da terceira idade que voltaram para a universidade foram "despertados" para múltiplos saberes pelo uso da tecnologia

artigo publicado na revista Ensino Superior, edição de Dezembro de 2009


Escrevo-te estas maltraçadas linhas, meu amor, para dar notícias sobre ...". Assim começavam muitas cartas escritas no século passado e que demoravam dias para chegar até o seu destino. Hoje, com o advento da informática e das novas tecnologias, as distâncias foram encurtadas e basta um clique ou alguns segundos para que quaisquer informações, notícias ou fotos cheguem a qualquer lugar do mundo.

A geração nascida neste universo dos ícones, das imagens, dos botões e das teclas navega com tranquilidade nesta era e utiliza as ferramentas disponíveis com uma desenvoltura de quem vive quase num filme de ficção científica. A outra, nascida naquela época do envio de cartas, convive de forma conflituosa com as rápidas e complexas mudanças tecnológicas.

E esta é uma população que tem crescido a cada ano, graças ao aumento da expectativa de vida, consequência de uma condição de vida melhor. São tantos os aparatos tecnológicos que os idosos sentem-se perdidos neste novo contexto. Quando o assunto é o computador, a dificuldade é ainda maior, de acordo com a pesquisa Idosos no Brasil realizada pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc, por meio do Departamento Nacional e do Departamento Regional de São Paulo, em 2007. Atualmente, a inclusão social passa também pela chamada inclusão digital e, neste campo, há muito a realizar, pois apenas 10% dos idosos afirmam usar o computador. Dentre eles, apenas 3% declaram usá-lo sempre e 7% o fazem ocasionalmente. Em relação à internet, ocorre algo semelhante: apenas 4% a utilizam, sendo que somente 1% o faz constantemente.

Além disso, os idosos, em sua maioria, sentem-se inseguros com relação ao computador, têm medo de errar, de estragar a máquina, de ficarem perdidos no ambiente desconhecido. Mas, à medida que vão se familiarizando com a linguagem, receios e inseguranças vão sendo superados.

Partindo desse cenário de diversas mudanças que vêm ocorrendo na sociedade, como a globalização e os avanços das tecnologias de comunicação e informação, a professora Kely Cristina Pereira Vieira percebeu o surgimento de um novo público para as instituições de ensino: as pessoas da terceira idade e suas consequentes dificuldades em prosseguir nos estudos. Neste contexto, Kely desenvolveu a pesquisa O impacto do computador na vida dos universitários da terceira idade, dissertação de mestrado em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, feita pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e defendida em setembro. (...)

Para ler reportagem completa clique aqui

5 de janeiro de 2010

A Sociedade do Emprego

Começamos um novo ano. E o primeiro post do Depois da Aula será com um artigo meu publicado no Jornal O Popular no dia 22 de Dezembro de 2009.

A atual sociedade passou nas últimas décadas por mudanças intensas na sua configuração. As economias se internacionalizam, debates políticos extrapolam os limites geográficos, as informações circulam numa velocidade impensável em tempos passados. Problemas que antes preocupavam o homem foram amenizados ou até mesmo extintos e as relações humanas se tornaram cada vez mais intermediadas pelas mídias digitais.

O entendimento hoje da contemporaneidade perpassa por níveis de complexidade jamais vistos, alterando a forma de ser e agir das pessoas e das instituições. Muitas fórmulas utilizadas no passado já não servem mais, o que aumenta a busca por respostas e alternativas, e acima de tudo o refletir e o pensar se tornam palavras-chave .

Paralelamente os indivíduos sofrem cada vez mais exigências, como maior responsabilidade, disposição de correr riscos, inovação constante, flexibilidade frente às novas formas de viver e encarar a vida, resistência ao desânimo e às frustrações e uma capacidade enorme de antever e preparar o futuro através do seu presente, embasado nos conhecimentos gerados no passado.

Enfim a sociedade não é a mesma, e as pessoas não podem se portar como outrora. Estabelecem-se as necessárias mudanças, atualizações e aperfeiçoamento dos indivíduos e nos deparamos com novas exigências da sociedade, entre elas a de se tornar uma “pessoa empregável”. O mercado cobra que as “máquinas de trabalhar”, profissionais que agem mecanicamente repetindo suas tarefas sem reflexão da ação, sejam substituídas por “seres pensantes”, sujeitos capazes de atuar ativamente e refletidamente sobre a sua ação.

A mudança no mundo contemporâneo implica transformações significativas no mercado de trabalho, visivelmente percebidas no novo desenho laboral, nas relações de emprego, nos requisitos exigidos aos trabalhadores, no desaparecimento e no surgimento de profissões e na densidade de conhecimento que cada área exige.

O mercado de trabalho exige mais. Assim a qualificação constante passa de uma opção para ser uma necessidade primária para transitar neste “novo mundo” e adquirir a condição de empregabilidade. É preciso um novo perfil de trabalhador, requalificado e que saiba postar-se diante de um mundo mais complexo e dinâmico, que não perdoa o comodismo e a inoperância. Qualificação passa a ser palavra de ordem, e “possuir qualificação” passa a condição essencial para todos aqueles que desejam ser empregáveis.