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19 de dezembro de 2009

Feliz Natal, Boas Festas e um pequeno recesso...

Caros Leitores,

Como também não sou de ferro, estarei dando uma pequena pausa nas atualizações aqui do Depois da Aula. Retorno a partir do dia 05 de Janeiro de 2010...

Desejo a todos um final de 2009 com muito alegria e votos que 2010 seja um ano bem melhor para todos!

Carpe Diem...

Prof. Frederico Dourado Rodrigues Morais



Baixa aqui o cartão

16 de dezembro de 2009

Gansos e patês

Uma amiga tem ideias curiosas sobre as escolas. Vivendo em uma cidade do interior, viu-se diante da encruzilhada difícil: “Qual a melhor escola para meu filho?” Pôs-se a campo visitando as tidas como as melhores. A cena se repetia. O diretor ou diretora se encontrava com a perspectiva de uma matrícula a mais. Fazia seus melhores esforços para convencer a mãe. Mostrava-lhes salas, laboratórios, quadras de esportes. Terminada a excursão, minha amiga tinha duas perguntas a fazer.

“-O senhor sabe, nosso mundo é competitivo, há o vestibular no horizonte, o mercado de trabalho, e eu gostaria de saber como é que sua escola lida com esses problemas...”
O diretor, seguro de sua filosofia de educação, respondia:

“-Essa é nossa grande preocupação. Precisamos preparar as crianças para o futuro. Assim, nossos professores são orientados no sentido de apertá-las ao máximo para que sejam vencedoras. Quanto a isso a senhora pode estar tranqüila.”

Aí ela continuava:
“-Sua resposta me esclareceu muito. Mas há uma última pergunta que quero fazer. As crianças passam apenas um período na escola. No outro período elas ficam com o tempo livre. O que fazer com esse tempo?”

Respondia o diretor: “-A resposta a essa pergunta já está implícita no que eu lhe disse. Não permitimos que as crianças tenham esse tempo ocioso. Damos tanta lição de casa que elas têm de trabalhar o dia inteiro...”
Aí a minha amiga concluía:

“-Sabe, senhor diretor, eu acho que a infância é um tempo tão bonito que é triste apertar as crianças em nome de um futuro hipotético. As crianças não podem viver hoje em função do amanhã. A vida delas é no hoje. Se elas forem ‘apertadas’, vão acabar por odiar a escola e o aprender. Além do que, as crianças devem ter num tempo livre para viver suas próprias fantasias, para brincar. Se elas tiverem todo o seu tempo tomado por deveres de casa perderão a alegria...”

E com essas palavras despedia-se do diretor perplexo.

Ela peregrinou de escola em escola e era sempre a mesma coisa. Até que chegou a uma periferia, condições físicas precárias, diretor esquisito. Perguntado sobre sua filosofia de educação, ele respondeu:

“-Acho que a coisa mais importante para as crianças nessa fase é que elas aprendam a se comunicar. Que aprendam a amar os livros. Que gostem de escrever. Uma criança que ama os livros tem o mundo aberto a sua frente...”

Minha amiga matriculou o seu filho nessa escola e ainda fez propaganda.
É preciso reconhecer que essa amiga anda na direção contrária. A maioria dos pais caminha na outra direção. Querem escolas fortes, que apertem, que preparem seus filhos para o vestibular, que encham o tempo dos alunos com um mundo de lições. Eles não estão interessados na educação dos seus filhos. Talvez nem saibam o que isto seja.

Vi, na antiga revista Life, a foto de um ganso sendo engordado para que seu fígado ficasse dilatado, próprio para ser transformado em patê. O cuidador do ganso segurava sua cabeça apontando para cima, um funil enfiado em seu bico, por onde a comida era enfiada, à força. Terminada a operação, para evitar que ele vomitasse a comida que ele não queria comer, seu pescoço era amarrado. Essa imagem dispensa explicações. Quem é o ganso? Quem é aquele que segura a cabeça do ganso? Quem é aquele que lhe enfia a comida goela abaixo? E o patê? Quem vai comer o patê? De uma coisa eu sei. Não será o ganso...

Autor: Rubem Alves

14 de dezembro de 2009

Uma "dose" de arte...


Embebedai-vos

(Baudelaire)

“É preciso estar-se, sempre, bêbado.
Tudo está lá, eis a única questão.
Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-os para a terra,
é preciso embebedar-vos sem trégua.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa.
Mas embebedai-vos.

E se, à vezes, sobre os degraus de um palácio,
sobre a grama verde de uma vala,
na solidão morna de vosso quarto,
vós vos acordardes,
a embriagues já diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são;
e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão:
“É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”


Pequenos poemas em prosa, Record, 2006, tradução de Gilson Maurity.

10 de dezembro de 2009

Quer uma escola segura? Abra a porta

07/12/2009 - JORNAL DO BRASIL

Dirigi duas grandes pesquisas para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) há alguns anos atrás. A violência nas escolas foi um dos temas em investigação.

Os dois bancos de dados nos empurravam para a mesma conclusão; qual a escola que menos sofria com problemas de violência, de qualquer tipo? A escola que estava mais aberta para a comunidade.

Qual a escola que sofria mais com problemas de violência? A escola que optava por se trancafiar entre grades e correntes nas portas.

Quer uma escola segura? Quer reduzir os índices de violência dentro da escola? Abra as portas da escola para a comunidade. Tão simples, tão fácil de entender que até envergonha, ninguém agride a sua própria casa, qualquer um agride um corpo estranho que se instala na comunidade como um carrapato.

Quando a escola se insere na comunidade, quando é considerada por todos ali como parte dela, quando os velhinhos vão para lá jogar um carteado, quando mães e pais a utilizam para festividades do bairro, quem irá até lá para uma agressão, pichação, enfim para qualquer tipo de violência? Ao contrario, quando a escola se fecha, trancafia-se, transmite uma mensagem sem ambiguidade, esta escola desconfia da comunidade, não quer seus membros por perto, todos são culpados até prova em contrario. Claro, será objeto de violência, mera devolução da agressão que provocou na comunidade.

Aqui, ocorre com clareza didática a profecia que se auto-realiza, providencias para evitar a violência provocam o que estavam querendo evitar, quem quiser se proteger da comunidade sofrerá suas agressões, quem se irmanar com ela será por ela protegida. Nenhuma novidade, armas insuflam a violência, principalmente quando são criadas para proteger qualquer um contra ela, porque seria diferente nas escolas?

Quando a escola se fecha, transmite a mensagem que desconfia da comunidade.


por, Wanderley Codo, PROFESSOR DE PSICOLOGIA SOCIAL DA UNB

8 de dezembro de 2009

Professora premiada fala de Reconhecimento e Desafios

Motivar os estudantes da atual "geração ctrl c, ctrl v" ou do "clic e encontre tudo pronto!" tem sido o maior desafio de nossas escolas.

Antes de ir a Brasília onde foi uma das premiadas do Prêmio Professores do Brasil, a professora Nidiane A. Latocheski, professora do município de Vilhena/RO concedeu esta bela entrevista ao site Depois da Aula.


Conte-nos sobre o projeto "Reestruturação da Sala de Leitura Álvares de Azevedo". Como surgiu a idéia? O que a motivou? E os resultados desta empreitada...

Criada em 1999, A Sala de Leitura Álvares de Azevedo, desde sempre, contou com o apoio da comunidade local para realizar ações pautadas na formação e autonomia de leitores proficientes. E, incentivar a leitura, popularizar o livro e sua circulação, requer a reorganização do ambiente que torna o ato de ler um verdadeiro prazer e amplia a visão de mundo dos seus usuários.

A reorganização do ambiente Sala de Leitura compreendeu a reposição dos antigos jogos de sofás e cadeiras de fio, bem como plásticas (uma miscelânea de acentos ou similares) por novos bancos de madeira padronizados, bem como escrivaninhas e estante; persianas e acervo literário condizente com as expectativas do público-alvo: adolescentes. Vale lembrar que os alunos, principalmente, do Ensino Médio participaram ativamente do projeto. Desde a sua criação, sugeriram necessidades e melhorias em prol de sua aprendizagem efetiva, “arregaçaram” as mangas no processo e, atualmente, usufruem do espaço nas aulas semanais de leitura.

Neste sentido, os envolvidos no projeto foram contemplados em aprender, na prática, o que é um projeto em parceria com a comunidade.

Como foi o envolvimento dos país e da comunidade no projeto?
Excelente! Um exemplo a contar foi durante a etapa de fabricação dos móveis, os alunos do 3° ano realizaram a leitura de poesias e junto à professora de Língua Portuguesa Lucineide Rodrigues, criaram então, o projeto Poesia Solidária, que resultou na arrecadação de alimento não perecível (237,75 Kg) para cestas básicas doadas às famílias carentes da comunidade escolar. Neste evento, os alunos apresentaram as poesias lidas de forma teatral, musical ou declamadas em vídeos, produzidos por eles e também através de apresentação “ao vivo”. Também arrecadaram a importância de R$ 250,00, que comprariam as espumas “com desconto” – idéia inicial. Porém, o Sr. Luiz, responsável pelo setor de espumação da fábrica Portal Colchões, doou as espumas e possibilitou bancos mais confortáveis, proporcionando a leitura mais agradável também, já que os alunos ficam por uma hora lendo nesse espaço.

A leitura é o grande desafio da escola?
Sim. A leitura sempre é um desafio. Motivar os estudantes da atual "geração ctrl c, ctrl v" ou do "clic e encontre tudo pronto!" tem sido o maior desafio de nossas escolas. Aqui em Vilhena (único município do Estado em que há Salas de Leituras em pleno funcionamento - nas 13 escolas Estaduais), proporcionamos um atendimento semanal, durante 1hora a todas as turmas do colégio. Nessas aulas buscamos contemplar projetos que envolvam os alunos e os motivem ao hábito de ler e construir conhecimentos através das leituras variadas ou ainda experimentarem novas experiências através do livro.

Voltando a falar do prêmio... Como foi todo o processo, da inscrição ao telefonema informando sua conquista?
Soube do prêmio lendo o "Depois da Aula"- site que acompanho a alguns meses depois que criei o blog. Vi a prorrogação da data e mandei no último minuto de funcionamento do dia 30/09/09 - prazo final. Quase que não mando devido ao horário de fechamento do sistema nos Correios 17h - Detalhe: O correio daqui fecha às 16h e cheguei lá às 16:30, graças à Miriam que permitiu minha entrada, já que o sistema ainda aceitaria... Depois de correr atrás da documentação, arquivos de foto, projeto, depoimentos dos alunos, site de notícia, Orkut da Sala de Leitura Álvares de Azevedo, para comprovação dos dados relatados.

Sobre o telefonema, nossa! Nem acreditei! Pensei tratar-se de um trote. Mas, quando falou "Professora Nidiane, aqui é do MEC, queremos parabenizá-la..." comecei a tremer um súbito misto de alegria, euforia, emoção à flor da pele, indescritível.
O que este prêmio representa para o trabalho de uma professora? É um renovar das forças? Dever cumprido...

Sem dúvidas representa O RECONHECIMENTO do trabalho de 5 anos como coordenadora da Sala de Leitura. Renovação das forças e dever cumprido. Ainda representa que nada vem de graça e que parafraseando "alguém" que não me lembro quem agora - "Sucesso só vem antes de Trabalho no dicionário".

E a repercussão do premio na sua vida profissional e pessoal... Imagino que você esteja bem mais conhecida...
Sim. Agora, todos os meus alunos me falam: "te vi no site", "no jornal", etc. Repercussão rápida, e às vezes preocupante. Virei "vitrine", então, me cobram mais e mais. O que eu já faço comigo...Sou perfeccionista e me exijo bastante, logo tenho alguns "trabalhos extras" (risos) - mas, ainda não estou fazendo terapias (risos).
Nasci e me criei em Vilhena, então, muitos já me conheciam. Fui embora em 1999 para a capital Porto Velho, onde trabalhei retornei em 2005. Desde lá, revi antigos amigos, fiz novos e sempre busquei ampliar a rede de contatos, o que facilitou as parcerias.

Além de uma grande professora você também mantém um blog. E como já disse o Depois da Aula foi o canal onde você ficou sabendo do Prêmio. Assim gostaria de saber o papel destas tecnologias da informação, principalmente a internet, no trabalho de um professor hoje. Contribui? E como? E como tem sido sua experiência com a Web?
E como contribui. Hoje está muito difícil ensinar com "giz e saliva" apenas. Como já disse, a geração atual pensa, cria, recria, tem iniciativa numa velocidade impressionante. Então, acompanhar "um pouco" o ritmo deles exige nossa dedicação e também aprendizado. Ao contrário do que muitos professores pensam, digo que aprender com meus alunos é me tornar aluna e professora que os compreende um ciclo de aprendizagem mútua, e também acabamos por criar um elo, além da relação professor-aluno, mas da relação "alunamigos". Sem sombra de dúvidas, as aulas envolvendo mídias são mais atraentes, participativas e o principal: podem ser colaborativas.

Concluí neste ano dois cursos on-line, promovidos pelo MEC e espero que continuem promovendo e nos dando suporte, pois, os LIES (Laboratório de Informática Educacional) das escolas equipadas precisam dos professores aptos à utilização dos recursos.

E agora professora, quais seus novos projetos? Mais um prêmio em vista...
Olha, essa foi sua pergunta mais difícil de ser respondida. Mas, estou amando essa vida de contribuição digital. Então, penso em me aprofundar nos conhecimentos dessa área e quem sabe galgar um mestrado, doutorado. Preciso me organizar, pois, além dos projetos, trabalho em três escolas - duas da rede pública estadual e ainda na particular (Sesi).

Sobre prêmios, esse é o primeiro, inesquecível, especial, que acrescentará um item importante no meu currículo. Que venham outros prêmios, concursos, eventos, projetos... O que eu puder participar e conseguir valerá a experiência. Serão bem vindos. Por isso, continue mantendo-me informada sobre as inscrições. (risos)

6 de dezembro de 2009

Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas

O Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas - a escola aprendendo com as diferenças - valoriza as iniciativas de quem trabalha para garantir o direito de todos à educação. São diretores, equipe docente, alunos, pais, entre outros, que colocam na prática políticas, programas e ações para efetivar o direito à educação dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.

Um reconhecimento às escolas que trabalham para garantir o acesso, a participação e a aprendizagem de todos os alunos. Inscrições de 16 de novembro de 2009 a 12 de março de 2010.

O Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas é uma realização do Ministério da Educação do Brasil, através da Secretaria de Educação Especial, em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos, com patrocínio da Fundação Mapfre e apoio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais (UNDIME).

Mais informações clique aqui

4 de dezembro de 2009

Somos, sim, racistas

por Phydia de Athayde - Revista Carta na Escola (Edição 40)

As universidades têm adotado critérios distintos de políticas afirmativas e contemplado outros grupos, como índios. Mas só o benefício a negros incomoda

Em 2000, entre os 50 calouros de Direito na Universidade Federal de Sergipe, havia quatro negros, dos quais apenas dois se formariam. Ilzver de Matos Oliveira era um deles. Os quatro anos de curso não foram suficientes para que uma professora aprendesse a distinguir Ilzver de outro colega. “Ela não conseguia perceber que tínhamos um rosto peculiar e próprio, além da pele negra comum. Só depois percebi o quanto ela destruía a minha identidade e autoestima”, diz o hoje professor substituto na mesma universidade. “A discriminação no Brasil quase nunca é explícita. Somos culturalmente trabalhados para evitar conflitos.”

A trajetória de Ilzver, 29 anos, teria sido como a de muitos garotos nascidos em famílias pobres. Por sorte, um tio o apadrinhou e custeou dois anos de escola particular quando ele tinha 8 anos. Aos 18, prestou vestibular para Medicina na Universidade Federal de Sergipe. Não passou. Aos 19, novo fracasso. Na terceira tentativa, optou por Direito e entrou em 18º lugar. “A primeira ação afirmativa da minha vida foi a ajuda desse tio”, diz. Formado, ele concorreria a uma bolsa de pós-graduação da Fundação Ford. Oliveira cumpria os pré-requisitos necessários e, aprovado, tornou-se mestre em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia e em Sociologia (pela Universidade de Coimbra). Além da função na universidade federal, hoje leciona na Faculdade Pio Décimo, também em Aracaju, e milita pelos direitos dos negros em Sergipe.

Em 2010, pela primeira vez a Universidade Federal de Sergipe reservará metade de suas vagas para alunos vindos do sistema público de ensino. Destas, 70% serão destinadas aos que se declararem negros, pardos ou indígenas. Além disso, em cada curso haverá uma vaga para portadores de necessidades especiais. O programa de ação afirmativa foi aprovado pelo Conselho da universidade e ficará em vigor durante dez anos.

Assim tem sido até hoje nas instituições públicas de ensino superior, onde os conselhos de ensino discutem os termos e aprovam o sistema de cotas – ou de bonificação – para grupos desfavorecidos. Facilitar o acesso a quem tem menos condições é o cerne das ações afirmativas.

Nos últimos 14 meses, o total de universidades que adotam algum tipo de ação afirmativa saltou de 69 para 93. Dentre elas, as que utilizavam algum recorte racial passaram de 55 para 67. Por recorte racial entenda-se a ação afirmativa dirigida não apenas a negros, mas também a indígenas (estranha e providencialmente suprimidos do debate “racial” das cotas). Este levantamento, atualizado até agosto de 2009, é resultado do trabalho de grupos da UERJ, da PUC-Rio, da Universidade de Brasília (UnB) e do CNPq, que monitoram as ações afirmativas no País.

João Feres Junior, coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, ligado ao Iuperj, detalhou ainda mais quais são e como se dividem os critérios das ações afirmativas nas universidades brasileiras (quadro à página 36). “Alguns programas têm por objetivo a promoção de somente um grupo de pessoas desfavorecidas, outros beneficiam dois, três, quatro ou até cinco categorias diferentes. E as categorias são também de natureza heterogênea: etnia, raça ou cor da pele, origem regional, renda e educação pública”, comenta.

Em meio a tantos critérios, moldados pelas características próprias dos locais onde estão essas universidades, um único aspecto tem sido capaz de, sozinho, dividir a comunidade acadêmica, gerar discursos inflamados, acirrar ideologias e ser questionado na Justiça: a identificação dos negros entre os beneficiados. Este é o ponto central da ação movida pelo DEM, o ex-PFL. O DEM quer que a Justiça proíba a matrícula dos alunos que entraram usando as cotas na UnB (a instituição usa apenas o critério etnorracial) e, mais que isso, declarar inconstitucionais quaisquer iniciativas que utilizem o critério de raça negra para conceder qualquer tipo de benefício.

A advogada Roberta Kaufmann, autora da ação, disse ter procurado diversos partidos políticos até encontrar eco a sua causa. Pupila de Gilmar Mendes, foi orientada pelo próprio presidente do Supremo Tribunal Federal no mestrado em que questiona a necessidade de ações afirmativas no Brasil. Conclui que é melhor ficar tudo como está. Pelo menos, no que diz respeito aos negros. Pobres, argumenta, ainda poderiam receber algum auxílio. O presidente do STF redigiu a apresentação do livro de Roberta, que trabalha no Instituto de Direito Público (IDP), do qual Mendes é sócio.

Apesar de ter negado a suspensão das matrículas dos cotistas, Mendes elogiou o trabalho da pupila e, em seu despacho, indicou concordar com a tese do DEM. O próximo passo será a discussão, em plenário, do mérito da ação, que dificilmente ocorrerá neste ano.

“Há um descompasso entre a prática das ações afirmativas e o estardalhaço quanto a elas na mídia e em algumas instâncias da Justiça”, avalia Fúlvia Rosemberg, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e responsável pelo programa de bolsas de pós-graduação da Fundação Ford. “O Brasil oferece acesso preferencial e benefícios a muitos grupos, mas esperneia-se nas universidades públicas porque são um reduto das elites.”

No debate contra ou a favor das cotas para negros, diz a pesquisadora, não se discute o racismo de hostilidade e ofensas, mas um processo sutil de discriminação baseada em desigualdades com base étnica e social. Um padrão de segregação racial informal, mediado pelo nível socioeconômico.

Entre os 25 mil alunos da UnB, há 3.225 cotistas. No vestibular, 20% das vagas são destinadas a negros, independentemente de terem vindo de escolas públicas ou privadas, que concorrem entre si. Como em todas as demais universidades, a adesão às cotas é voluntária. “Em alguns cursos, a nota de corte dos cotistas é mais alta que a dos demais e a maioria é de baixa renda. Para a UnB, as cotas são um ato político”, defende o professor de antropologia José Jorge de Carvalho, que ajudou a implantar as cotas na universidade. Em termos de desempenho acadêmico, não há grande diferença no rendimento anual dos alunos da UnB em geral. Na Universidade Federal da Bahia, onde as cotas foram criadas em 2005, os alunos negros já representam 75% do total.

A Unicamp tem uma experiência diferente. Não existem cotas e, sim, bônus na pontuação do vestibular. Numa prova que vale 500 pontos, alunos oriundos da escola pública ganham 30 e se forem negros, mais 10 pontos. A ideia surgiu da observação do desempenho desses alunos na vida acadêmica. “Os pontos de bônus apenas corrigem as distorções do vestibular. Tornam mais competitivos os alunos que, lá na frente, terão melhor desempenho”, explica Leandro Tessler, assessor da reitoria. Em mais da metade dos cursos, os alunos que receberam os bônus têm médias melhores. “É importante unir inclusão social a desempenho acadêmico. Tudo o que eu não quero é uma lei me obrigando a implantar cotas, pois elas não consideram as demandas dos cursos.”

Como a experiências são recentes, ainda é cedo para dizer qual será o futuro das ações afirmativas no País. Nos Estados Unidos, duraram cerca de 50 anos. Até hoje é legal o uso da etnia como critério para ações afirmativas, mas desde 1976 não há mais cotas nas universidades, ainda que a raça possa ser considerada na seleção. Na Califórnia, desde 2003 os bônus são analisados caso a caso.

“As cotas têm o fator positivo de dar um tratamento de choque ao forçar a sociedade a pensar em um tema real, a discriminação e o racismo. Mas não deixam de ser uma forma de discriminação, mesmo que positiva”, ressalva o educador e psicólogo da USP, Yves de La Taille. “É sempre delicado separar as pessoas pelo que for, fere a ideia de igualdade, por isso as cotas poderão gerar inclusão ou reforçar a discriminação.”

Para além dos corredores das universidades, há outra mudança em curso no Brasil no que diz respeito à raça e cor. É o que defende o pesquisador do Ipea e do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade da UFRJ, Sergei Soares. Ele analisou recortes de população da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, e notou que, entre 1996 e 2001, começou um processo de mudança em como as pessoas se veem e como se declaram para os pesquisadores (quadro à página 35). “Elas passam a ter menos vergonha de dizer que são negras. Isso antecede as cotas e continua até hoje.” Soares argumenta que o impacto numérico das cotas é muito pouco relevante na população brasileira, comparado ao do ProUni, o programa federal que dá isenção fiscal a faculdades privadas que oferecerem bolsas a estudantes de baixa renda inscritos no programa.

Para o ministro da Secretaria Especial de Promoção de Políticas da Igualdade Racial, Edson Santos, os principais temores daqueles que se diziam contras as cotas nas universidades caíram por terra. “Não caiu o nível da produção acadêmica, não gerou confrontos nem conflitos de raça, e não há desvantagem para os não-negros, pois as cotas são sociais, com um recorte racial.”

Antes de chegar ao STF, a Justiça dos Estados onde há cotas tem lidado com questionamentos. Muitas vezes, alunos alegam ter sido injustiçados ao perder a vaga para um cotista. Um levantamento publicado no Estado de S.Paulo mostrou que na maioria dos casos o Judiciário tende a rejeitar as alegações e a considerar o sistema constitucional. Exceções têm ocorrido no Rio Grande do Sul, onde o critério de renda tem dado vitórias aos opositores da ação afirmativa.

2 de dezembro de 2009

Violência na escola

texto publicado no dia 01/12/09, na seção Carta dos Leitores, do jornal O Popular.

"Trabalhadores da educação, nos indignamos e ficamos em pânico quando uma criança indefesa é estuprada, e dentro da escola. Ficamos paranóicos, imaginando se todo o cuidado que estamos tendo e se tudo que estamos fazendo é suficiente.

Os acontecimentos no dia-a-dia da escola são de deixar qualquer um maluco. A indisciplina gera todo tipo de violência, pois cada criança é educada de uma forma, recebendo diferentes orientações em casa. Isso faz com que a escola tenha de mediar essas diferenças, para tentar trabalhar com o conhecimento. Dizem que é esse o papel da escola, tentar diferentes metodologias, para que o processo de ensino-aprendizagem se torne mais atrativo, ou seja, todas as crianças despertem o interesse pelo aprendizado.

Se a criança não aprende, a culpa é nossa (só nossa?). Assim vamos acumulando culpas, que, na maioria das vezes, não geram as devidas reflexões por parte dos pais e da sociedade, de forma geral. Criança que bate/apanha, que perde ou não tem materiais, que não tem amigos, não tem comida, roupa, calçados... E não tem segurança! Será que temos de ser especialistas em segurança?

A sociedade mudou, a violência está por toda parte e precisamos de ajuda para conseguir proteger nossas crianças. Precisamos que a sociedade pense e nos ajude a proteger nossos alunos. Em relação a isso, vimos o primeiro passo para fragilizar as escolas quando a guarda foi substituída por cercas elétricas que não funcionam e alarmes que só protegem o patrimônio.

As crianças e nós mesmos que compomos o quadro de funcionários, formado por maioria de mulheres, proporcionamos uma ideia de fragilidade para os agressores. Hoje assistimos aos noticiários, e só ouvimos falar de punição aos culpados.

Precisamos pensar também em quais medidas deverão ser tomadas para evitar que casos como esse se repitam não só dentro da escola, mas também fora dela."

BENI HONORATO
RAQUEL RIBEIRO
MARIA LÚCIA RODRIGUES
OMAR RORE
Professores da Rede Muninicipal de Ensino de Goiânia