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5 de outubro de 2009

Professores deixaram de ser humanos e passam a ser considerados objetos?

Compartilho com vocês um belo texto escrito por um amigo o prof. Adriano de Melo, publicado originalmente no site da Universidade Estadual de Goiás foi gentilmente cedido e autorizado por ele para ser postado aqui no Depois da Aula.


CAPITALISMO, UNIVERSIDADE GERENCIADA E A ATOMIZAÇÃO DAS RELAÇÕES HUMANAS
por Adriano de Melo Ferreira*

Além das conseqüências materiais palpáveis e visíveis do novo modelo produtivo capitalista (acumulação flexível), há outra consequência que, devido a sua capacidade de se imiscuir na vida das pessoas e se naturalizar nos discursos, considero a pior de todas. Ao migrar de um modelo fordista, onde a lógica era “um trabalhador para uma tarefa”, para o atual modelo de acumulação onde se prega a flexibilidade e adaptabilidade quase que na velocidade da luz (um trabalhador para várias tarefas, o mais rápido possível), o capitalismo fragmentou e tornou o trabalho mais efêmero, com destaque para o trabalho subcontratado, parcial e temporário. E, essa nova polissemia do trabalho está pulverizando algo que, por dar significado à história das pessoas, era até então um importante referencial de identidade do trabalhador: o sentimento de pertença a um coletivo. Seja este a família, um grupo de amigos ou uma categoria de trabalhadores. Em seu lugar, o capitalismo globalizado criou uma nova forma de relação que Castells (2007) intitulou de “indivíduos em concorrência”. Concorrendo sempre e se reciclando para competir - segundo Marilena Chauí (2003) isso não pode ser chamado de educação - os trabalhadores acabam não se apercebendo desse distanciamento da coletividade, a qual é muito importante para o reconhecimento social do próprio grupo social a que pertencem, mas que negam. E quando se dão conta, muitos adoecem por não suportarem as pressões exigidas pelo novo modelo ou por perceberem que ajudaram a naturalizar esse distanciamento e até o estimularam.

Hoje, clamar por uma união de categoria, pra fazer valer direitos sociais e trabalhistas, é correr o risco de ser chamado de “marxista fracassado” ou “esquerdista chato” (como se exigir o respeito que todo cidadão trabalhador merece, dependesse de pertencer a essa ou aquela ideologia política). E como afirma Antunes (2005), essa nova polissemia do trabalho já não afeta apenas os trabalhadores braçais, mas também os trabalhadores intelectuais. No Brasil, com a reforma do aparelho de Estado esboçada no governo Collor e regulamentada e executada a partir do governo FHC, essa consequência já se faz presente no ambiente das universidades brasileiras.

No atual âmbito do Ensino Superior brasileiro, em que a educação foi transformada em mercadoria e a ciência reduzida a ferramenta para fomentar a competitividade, um triste cenário foi construído. Um contexto onde discursos como “formar para o mercado de trabalho”, “formar para competir”, “interação universidade-empresa”, “publique ou pereça” etc., tornaram-se falas fáceis e aceitáveis. E nesse cenário de uma universidade gerenciada, uma personagem destaca-se para além do valor da universidade como local de formação: o “gestor de pessoas”. Sob a perspectiva dessa personagem, que atribui estratégias e metas de produção a cumprir, já não é de se assustar que coordenadores, diretores de departamento e outros tipos de “gestores de pessoas” se sintam quase que na “sagrada obrigação” de punir professores e outros trabalhadores, como forma de dar exemplo aos demais. É o famoso “pegar alguém pra Cristo”.

Assim, nós professores deixamos de ser humanos e passamos a ser considerados objetos que podem ser manejados e remanejados para aumentar a produtividade e a capacidade de competir (nem que seja apenas quantitativamente, porque qualidade é outra coisa). Como bem observado por Chauí (2003), a Universidade deixou de ser pensada como instituição social para ser vista como organização social, com todas as terríveis consequências que hoje presenciamos na qualidade do ensino, da pesquisa e da interação universidade/sociedade. Nas palavras dessa autora (2003, p.7), a universidade “definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microorganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual”.

Logo, não é apenas materialmente e financeiramente que a educação superior está sendo desmantelada, mas também intelectualmente. Ao seguir o modelo anglo-saxônico de universidade gerencial, caminhamos para o que Freitag, citado por Chauí (2003), considera o naufrágio da universidade. E, todas essas mudanças são consideradas supostamente necessárias para que uma nação possa competir mais e se destacar no cenário mundial dos grandes blocos econômicos como MERCOSUL, OCDE, União Européia, etc. Entretanto, como afirma Fonseca (2005), esse discurso de uma educação mais competitiva esquece (ou quer que esqueçamos) que o próprio sistema capitalista nasceu pra ser assimétrico. É natural que haja perdedores e vencedores sempre. “Todos” não podem vencer ao mesmo tempo. Como diria uma música do cantor maranhense, Zeca Baleiro, “pobre de quem não é cacique, nem nunca vai ser pajé”.

Ter essa visão geral do cenário, com suas contradições e consequências, ajuda e muito. Mas, precisamos fazer mais que isso, pois como afirmam Bourdieu & Passeron (2008, p. 89), “nada é mais adequado para servir à autoridade da instituição e do arbitrário cultural servido pela instituição do que a adesão mágica do mestre e do aluno à ilusão de uma autoridade (...). Assim, penso que além de nós professores nos unirmos e começarmos a questionar essa lógica imposta como verdade inquestionável, outra possibilidade de mudança está na figura dos estudantes. Bem esclarecidos e conscientizados (daí a contribuição dos professores), eles são importantes protagonistas na tentativa de ruptura desse paradigma da competitividade que ora paira como uma sombra funesta sobre nossas universidades. Mas, sem os esclarecimentos adequados, esses estudantes acabam sendo cooptados por esse ciclo vicioso de “produzir/competir/negar-o-outro/produzir”, disputando entre si bolsas de iniciação científica, classificando-se e classificando aos outros, como competentes ou não (uma pena não existirem bolsas para iniciação à cidadania e à solidariedade, bolsas para o engajamento e o compromisso social etc.). E assim, procurando acumular capital cultural específico do campo científico, acabam por sua vez, se tornando novas engrenagens da máquina produtiva do capital, perpetuando o modelo.

Concluindo, essa é a contradição que desafia a Universidade e, portanto, nós professores: Como convencer nossos alunos da importância de serem éticos, coletivos, responsáveis e que tenham uma visão interdisciplinar, se em nossos “castelinhos do saber”, nos isolamos uns dos outros, vigiando e nos punindo, para assim nos mostrarmos competentes? Acho que para isso, os “gestores de pessoas” não têm as respostas certas e nem devemos esperar que eles tenham pois algo bem pior pode advir disso. Façamos a nossa parte!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Ricardo. 2005. O caracol e sua concha – ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial. 135 p.
BOURDIEU, Pierre & PASSERON, Jean-Claude. 2008. A reprodução – Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Editora Vozes. 275 p.
ASTELLS, Manuel. 2007. Sociedade em Rede, Vol. 1- A era da informação. São Paulo: Paz e Terra. 698 p.
CHAUÍ, Marilena. A universidade pública sob nova perspectiva. Rev. Bras. Educ., 2003, n. 24, p. 05-15.
FONSECA, Marília. Sociedade do Conhecimento e os novos desafios educacionais. Texto apresentado no Congresso Internacional de Educação e trabalho, Universidade de Aveiro, Portugal, Maio de 2005.
MORIN, EDGAR. 2003. Introdução ao Pensamento Complexo. Coleção Epistemologia e Sociedade, vol. 2. Lisboa: Instituto Piaget. 177 p.


Adriano de Melo Ferreira é doutorando em Educação pela Universidade Federal de Goiás e professor dos cursos de licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Católica de Goiás (UCG). Email:adrianoplants@yahoo.com.br

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