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13 de outubro de 2009

“O entendimento de que a escola seja o único espaço educativo é um equívoco grave”

Roberto da Silva, é professor de uma das maiores universidades do mundo - USP. Mas, para atingir este estágio profissional, ele brigou com o destino para dar a volta por cima. Depois de viver por 15 anos na Febem, saiu pela porta da frente e acabou caindo na criminalidade, até ser enclausurado na Casa de Detenção, no Carandiru, em São Paulo.

Fez supletivo e ingressou na faculdade de Pedagogia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Com o diploma universitário, retornou para a capital paulista, onde acrescentou a seu currículo uma pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP) que resultou no livro "Os Filhos do Governo", publicado pela Editora Ática.

Casado e pai de dois filhos, é Fundador e presidente da História do Presente - Organização Paulista para Ações de Cidadania e um dos grandes defensores da Pedagogia Social no Brasil ele gentilmente deu esta entrevista para o Depois da Aula onde fala da Pedagogia Social, dos desafios para a escola e para o professor no atual contexto social.


Depois da Aula:O que impulsionou um ex.detento, ex Febem a escolher a vida acadêmica? O que o fortaleceu para prosseguir sua carreira, já que as possibilidades de estudar eram escassas.
Prof. Roberto da Silva: Aos 14 anos, quando trabalhava no juizado de Menores descobri meu próprio processo e na leitura dele constatei que o Estado e seus agentes tinham sobre mim e minha família todas as informações e, não obstante isso, não a utilizavam a nosso favor. Pelo contrário, usaram-na para nos separar, gerando a todos muita dor e sofrimento. Com esta experiência descobri que tudo que precisava saber sobre mim estaria em algum arquivo público, processo, prontuário, laudo ou parecer. Estudar estes documentos e depois organizar as informações para reverter situações desfavoráveis foi a motivação que me levou ao caminho do estudo, da pesquisa e depois à academia.

O senhor é um dos que lutam para implantar a Pedagogia Social no Brasil, fale-nos um pouco sobre esse projeto e explique-nos melhor sobre ele.
Pedagogia Social é a fundamentação teórica e metodológica da Educação Social. A primeira é desconhecida no Brasil, mas fazemos a segunda de boa qualidade. Pedagogia Social enquanto teoria geral da Educação Social existe ha mais de 70 anos no mundo e agora a estamos usando para resgatar o valor e o significado político, social, cultural e histórico das práticas de educação popular, social e comunitária há muito desenvolvidas no Brasil, hoje pejorativamente denominadas Educação não formal. Queremos o reconhecimento da Educação Social como profissão e que as instituições de ensino assumam a responsabilidade de formar o Educador Social e o Pedagogo Social no Brasil. São cerca de 4,5 milhões de educadores sem formação pedagógica, sem carreira profissional, sem garantias trabalhistas e que trabalham em movimentos sociais, ONGs e projetos sociais de forma muito precária.

O senhor defende que todos os espaços públicos e relações sociais deveriam cumprir funções pedagógicas. No entanto podemos afirmar que ao contrário disso, estaríamos vivenciando hoje uma exacerbada responsabilização da escola como espaço educativo?
O entendimento de que a escola seja o único espaço educativo é um equívoco grave e a excessiva transferência de responsabilidades da família para ela criou um descompasso entre o que sejam os objetivos da Educação Escolar e os objetivos da Educação Social. Além disso, o poder público atribui à escola exercer funções nas áreas da cultura, esporte, lazer e saúde por não investir nestas políticas setoriais. Ou retira-se da escola pública brasileira as funções sociais historicamente atribuídas a ela ou então é preciso um profissional de novo perfil, pois os cursos de formação de professores não conseguem capacitar o futuro professor a, simultaneamente, trabalhar a função didático pedagógica e a função social. Este novo profissional, insisto eu, é o Educador Social ou o Pedagogo Social.

Mas a escola pode fazer a diferença na vida de uma criança? Como? E o que tem faltado a ela para que realmente efetive seu papel educativo na sociedade?
A escola tem suprido a criança daquilo que a família não pode oferecer e cada vez mais incorpora funções de natureza social em detrimento de suas funções didático pedagógicas, isso parece irreversível no Brasil. Propostas como creche e escola em tempo integral colocam em choque o Direito à Educação e o Direito à convivência familiar e comunitária. A atribuição de maiores responsabilidades educativas aos professores e à escola resultam em maior descrédito em relação aos pais e à família quanto à capacidade de educar seus próprios filhos.

E A formação de professores consegue contemplar toda a diversidade social que envolve a escola?
Definitivamente não. E no ponto em que chegamos não sei se os cursos de formação de professores deveriam assumir isso como mais uma tarefa. Eu prefiro que a Pedagogia Social seja o campo de formação do novo profissional de que a escola necessita. Assim teríamos Pedagogia Escolar e Pedagogia Social trabalhando para fortalecer a Educação Escolar e a Educação Social e pedagogos escolares se pedagogos sociais trabalhando de forma complementar, articulada e integrada dentro da mesma unidade escolar.

Para encerrar, gostaria que o senhor citasse os desafios e as dificuldades do professor na atual sociedade.
Os desafios maiores para quem é professor hoje é trabalhar dentro de um universo onde os valores são tão heterogêneos quanto à diversidade de pessoas. Não há modelos a serem seguidos, não há padrões que sejam consensuais, as verdades são todas relativas e o que move cada pessoa é a sua própria vontade. A inexistência de um projeto coletivo que estabeleça rumos para a formação coloca em constantes dúvidas o professor quanto ao acerto do que ele está fazendo, pois o trabalho é feito de forma fragmentada, sem uma percepção do todo, do conjunto, do tipo de homem ou mulher que se quer formar. As questões salariais, as condições de trabalho, a indisciplina dos alunos e a desvalorização do trabalho do professor e da escola, creio eu, apenas agravam esta angústia existencial, fazendo com que muitos professores passem rapidamente do entusiasmo juvenil à frustração profissional.

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