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26 de outubro de 2009

A docência sobre pressão

Contribuições de leitores do Depois da Aula.

Este texto foi escrito pela Profa. Maíra Braga, Pedagoga, Coordenadora e Professora da Rede Municipal de Educação de Goiânia/Goiás.
email: maira_b_adorno@gmail.com

O sistema educacional brasileiro, nos últimos vinte anos, transformou-se significativamente. Acentuou-se o desgaste da imagem social do ensino e dos professores, sobretudo, pela crescente escolarização das crianças e jovens em idade escolar.

O ensino deixou de ser meramente elitista e se massificou, provocando o aumento quantitativo de alunos, bem como de problemas relacionados à qualidade da educação formal.A sociedade nesse sentido, deixa de acreditar na educação como promessa de um futuro melhor, e, consequentemente, os educadores passam a enfrentar a profissão com atitude de renúncia, que se desenvolve paralelamente à degradação de sua imagem social.

Os professores sujeitam-se a determinadas situações de mudança que os obrigam, em muitos casos, a realizar mal o seu trabalho, tendo inclusive, de suportar críticas generalizadas da sociedade, que os consideram muitas vezes, responsáveis diretos pelos problemas enfrentados pelo sistema educacional.

Os profissionais da educação estão mais sujeitos a terem transtornos psíquicos que outros grupos de profissionais, sobretudo pelas más condições de trabalho em que estão submetidos (excesso de tarefas a serem cumpridas, pressão por qualificação constante e obrigatória, falta de apoio institucional, entre outros aspectos), de acordo com a pesquisa coordenada por Wanderley Codo e Yône Vasques-Menezes (Universidade de Brasília), publicada no livro, Educação: carinho e trabalho. Os pesquisadores chegaram à conclusão que, quase 50% dos professores brasileiros possuem indícios de estresse ou depressão, sendo que muitos desistem da atuação em sala-de-aula.O atual contexto sócio-econômico provocou nas últimas décadas, consideráveis mudanças no âmbito educacional no que tange à profissão docente. Sabe-se que entre as conseqüências que marcam o sistema capitalista, globalizado e neoliberal ao mundo do trabalho, a mais relevante relaciona-se à eliminação e substituição dos direitos e conquistas históricas dos trabalhadores.

Tais conseqüências aliadas às transformações educacionais geraram nos profissionais da educação várias doenças de cunho trabalhista, tais como: depressão, stress, ansiedade, fadiga. Sendo que a junção de tais doenças leva ao que se denomina Síndrome de Burnout, ou seja, a exaustão causada pelo trabalho e a conseqüente desistência docente.

Transferiu-se ao educador a responsabilidade de cobrir as falhas existentes na instituição educacional. O profissional, portanto, sobrecarrega-se de funções, exercendo além do magistério, práticas de atualização e preparação constantes, bem como a realização de tarefas fora da sala de aula, estendendo a jornada de trabalho.Cada vez mais tem se discutido a respeito das condições de trabalho em que os professores estão submetidos.

Sabe-se da precariedade de todo o sistema educacional, no sentido da falta de materiais didáticos e de apoio para os docentes, bem como a indisciplina em sala de aula, perpassando pela má remuneração em que estão sujeitos.Toda essa problemática, gera no educador um sentimento de impotência e desistência diante da profissão.

Nesta perspectiva, a Síndrome de Burnout, em um sentido mais amplo, seria a desistência no trabalho, e em uma tradução mais literal, queimar-se por inteiro, consumir-se.A síndrome é produzida pelas condições de vida e trabalho neste início de século. Globalização, urbanização acelerada, despersonalização nas relações humanas, dificuldades na elaboração de projetos políticos capazes de amenizar o problema...

Esta é a sociedade que sustenta burnout.Ao referir-se à síndrome, é válido ressaltar que podem ser associados à desistência no trabalho três fatores que são independentes entre si: a despersonalização, a exaustão emocional e o baixo envolvimento pessoal no trabalho.A despersonalização seria o desenvolvimento de atitudes negativas às pessoas destinatárias do trabalho, sobretudo, usuários e clientes, bem como o endurecimento afetivo e a 'coisificação' da relação. A exaustão emocional refere-se à situação em que os trabalhadores percebem que não podem dar mais de si mesmos afetivamente. Esgotam-se os recursos emocionais próprios devido ao contato permanente com problemas.

E, finalmente, a falta de envolvimento pessoal que tende a um processo negativo no trabalho, afetando a habilidade para realização do trabalho e/ou com as pessoas usuárias do trabalho.No âmbito educacional, o professor se sente totalmente exaurido emocionalmente, em razão do desgaste diário e permanente ao qual é submetido, sobretudo, no relacionamento com seus alunos, que muitas vezes é conflitante.

Nesse sentido, é válido repensar as condições de trabalho do educador, valorizando sua profissão e estabelecer medidas preventivas que auxiliem o docente em sua prática cotidiana, no sentido de melhorar a qualidade do ensino. Assim, todos saem ganhando: sociedade, educação e, principalmente, o professor.

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