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9 de maio de 2009

'Formação de professor ficou para trás porque não dá voto', diz diretora da USP

Depois da Aula reproduz entrevista da profa. Sonia Penin dada ao portal de notícias G1. (Fernanda Calgaro do G1, em São Paulo)

Para Sonia Penin, carência fica evidente após avaliações, como o Enem. Diretora da Faculdade de Educação rebate críticas do governador.

A formação de professores mereceu menos atenção dos governos do que a parte de infraestrutura das escolas porque não tem o mesmo peso eleitoral, avalia a professora Sonia Penin, diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. “Com as avaliações de ensino, como o Enem, essa questão fica mais evidente”, afirma. Ao rebater as críticas do governo do estado de São Paulo aos cursos de pedagogia ela diz que “pensamentos simplistas não levam a nada". Leia a seguir trechos da entrevista ao G1.

G1 - Durante o anúncio de um pacote de medidas para reforçar a formação de professores da rede estadual, o governador de São Paulo, José Serra, disse que a parte de infraestrutura deixou de ser o problema da educação no estado. Segundo ele, a questão agora está dentro da sala de aula.
Sonia Penin - O que dá voto é o cimento, são as coisas materiais. Formação continuada não dá voto, por isso ficou para trás. Agora, concordo que essa parte de infraestrutura já não está naquele nível [ruim] que se tinha antes, apesar de os problemas continuarem em locais mais carentes. Mas [a parte de formação de professores] realmente foi ficando para trás ao longo dos anos no país todo, porque não aparecia. E agora com as avaliações de ensino, como o Enem, essa questão fica evidente e é colocada em debate e na mídia. O direito não é acesso à educação somente, mas o acesso à educação de qualidade. E esse é um desafio da sociedade brasileira inteira.

G1 – Serra atribuiu a má qualidade da educação à inadequação dos cursos de pedagogia, além do corporativismo inadequado e da rigidez das leis. Como avalia essa crítica à academia?
Penin - É inaceitável e lamento essa política de usar essa máxima de que a melhor defesa é o ataque. Não é bom para o governo nem para nenhuma instituição. Me admira e é inaceitável fazer uma afirmação colocando como problema só uma questão, no caso os cursos de pedagogia, e não se falar nada sobre a própria instituição empregadora. Na equação “má qualidade da educação” têm que ser colocadas todas as questões para nós sermos justos e podermos trabalhar de uma forma adequada. No caso da instituição empregadora, por exemplo, devem ser incluídas nessa equação questões como a alta rotatividade dos professores, a falta de professores, os alunos que não têm aulas seguidas, 40% dos professores são temporários, sem concurso, e o número de aulas assistidas pelos alunos é baixo.

G1 - Como vê a criação de uma escola de formação de professores pelo governo estadual?
Penin - A formação continuada de professores é uma obrigação da instituição empregadora. Mas tem um problema porque o professor vai fazer esse o curso antes de entrar na sala de aula. No entanto, é na sala de aula que ele terá problemas e precisará de interlocutores para discuti-los. A aprendizagem tem que ser o ensino baseado em problemas, que só serão encontrados dentro da sala de aula, nas dificuldades do dia-a-dia, sobretudo nessas escolas maiores, com uma diversidade maior e salas numerosas.

G1 - Acha então que o curso poderá ter pouco efeito?
Penin - A questão é que os problemas estão lá na escola e o professor precisa ter um interlocutor. Nada contra fazer o curso antes, mas tem que continuar [a capacitação] durante. Os cursos de especialização devem estar ligados à realidade. É assim como temos tentado fazer nossos estágios na faculdade. São estágios que começam junto com a teorização, para que tenhamos a teorização em cima de problemas concretos.

G1 - O governo pretende exigir que o professor aprovado em concurso faça também uma nova prova após o curso de formação. É necessário esse segundo exame?
Penin - Se os professores forem concursados e se as provas de concurso forem bem elaboradas, elas deverão fazer o papel desse curso. Isso não significa que não deva existir curso de especialização. A única notícia boa aí é que haverá curso regular e sistemático de especialização.

G1 - Outra crítica do governador foi em relação aos temas das teses acadêmicas, que teriam pouca aplicação prática. O que acha disso?
Penin - Há teses de todos os tipos, como em qualquer outro país. Nem toda tese tem efeito prático. A universidade deve produzir conhecimento novo e uma parte é, sim, para resolver problemas práticos. Mas o avanço do conhecimento da humanidade também se faz sobre coisas que não há o resultado na prática por muitos e muitos anos à frente. A universidade tem que criar conhecimentos novos, alguns deles respondendo de forma mais prática à sociedade, mas não necessariamente só isso. E essas teses também são tão válidas e importantes quanto aquelas que têm uma aplicação imediata. Esses pensamentos simplistas não levam a nada. E não é disso que precisamos.

G1 - Entre as propostas previstas no projeto de lei enviado à Assembleia está a criação de duas jornadas de trabalho: de 40 horas e de 12 horas, além da criação de 50 mil vagas na rede. Qual é a importância disso?
Penin - A jornada de 40 horas é ótima porque é uma forma de assegurar o professor numa escola. É um avanço fundamental, porque a rotatividade de professor precisa parar. Um fato que as pesquisas mostram, essas que ele [Serra] está dizendo que não servem para nada, é que a permanência do professor na escola é um fator de melhoria de qualidade. E a criação de vagas efetivas é essencial para diminuir o número de professores temporários. É inadmissível que 40% dos professores sejam temporários. Isso dificulta a criação de vínculos com o aluno.

G1 – Qual é caminho para conseguir uma educação de qualidade?
Penin - É preciso haver uma articulação e cooperação das diversas instituições, como o governo, instituições de ensino e sindicatos. É um desserviço jogar um contra os outros ou só expor o problema do outro. É um caminho inadequado, perverso, que não ajuda a enfrentar o problema como precisa ser enfrentado. Em todos os níveis e instituições há problemas. Agora, se em vez de começar a resolver, jogar para o outro, só atrasamos o processo de uma revolução educacional de que precisamos.

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