11 de abril de 2009

Escola, única responsável pela educação?

Podemos definir Educação como um conjunto de práticas com as quais, e graças às quais, a sociedade promove o desenvolvimento e a socialização de seus integrantes e garantem a promoção da sua herança cultural, “desenvolvendo-se assim na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no seu artigo 1º.

Contudo na sociedade moderna a educação escolar adquiriu no imaginário das pessoas o status de única promotora do desenvolvimento e da socialização de todas as pessoas, sem exceção, restringindo desta forma a escola e as salas de aula, palco da educação escolar, toda a responsabilidade por estes processos.

Nesse contexto quase que nenhum aspecto ou questão escapa desta responsabilização da escola: delinqüência, intolerância, comportamentos racistas, problemas de leitura e escrita, consumo de drogas, escassos conhecimentos científicos e tecnológicos, desemprego dos jovens, gravidez precoce, violência doméstica, etc. Seja qual for o tema de debate, as carências e insatisfações relativas ao processo formativo das pessoas de ordem intelectual, social ou cultural são atribuídas, por ação ou por omissão, ao sistema educativo e à educação escolar.

Como conseqüência mais grave dessa “responsabilização” do todo - a educação - com o que, na realidade, é somente uma de suas partes - a educação escolar e o ensino – é criado no seio da sociedade uma desresponsabilização diante dos temas educativos. A educação deixa de ser percebida como sendo responsabilidade da sociedade, mas, em vez disso, estabelece-se a idéia de que a educação, entendida basicamente como educação escolar, é uma responsabilidade do sistema educativo formal os profissionais que trabalham nele, em especial os professores, e seus responsáveis políticos e técnicos devam assumir unicamente.

Por tudo isso se os alunos chegam até ao 9º ano sem estarem preparados para o ensino médio, se chegam ao ensino médio sem estarem prontos para o ensino superior ou se chegam e concluem o ensino superior sem estarem prontos para o mundo do trabalho, convencionou-se atribuir esta situação a escola, aos professores e a incapacidade do sistema educativo – exclusivamente.

Vejamos um exemplo simples e peculiar desta situação: Um aluno que não consegue aprender os conteúdos “ditos” necessários naquele determinado ano/série e importantes para sua socialização e participação cidadã. Se compreendermos o conceito de educação instituído pela própria legislação conseguiremos retirar deste simplório exemplo pelo menos três responsáveis. A escola, que evidentemente não negligencia seu papel educativo institucionalizado. Contudo avançando na discussão em busca até mesmo de soluções (coisa que é rara nas discussões sobre os problemas sociais atualmente) veremos que a família também precisa se responsabilizar pela educação do seu filho, muitas vezes com atitudes simples como verificar se o filho fez ou não a tarefa de casa, ou até mesmo participar das reuniões de pais e professores na escola e de estimular em casa o processo participação social responsável e cidadã. E por fim, sem restringir, temos o poder público (executivo, legislativo e judiciário) no repasse de recursos, na definição de políticas adequadas, na elaboração de normas, leis e projetos que atendam as necessidades das famílias, do sistema escolar e da própria criança e na observância do cumprimento das leis quanto ao repasse de recursos e efetivação de políticas publicas.

Mas os pais são analfabetos ou não se preocupam com a vida escolar dos seus filhos, dizem alguns. O poder público não investe adequadamente em educação, afirmam outros. Ou escutamos que a classe política não se preocupa com a sociedade. São fatos que não deixam de ser verdadeiros e reais, mas então como esperar que a escola sozinha resolva toda a questão educativa? Como disse o mestre Paulo Freire, “a educação sozinha não muda a sociedade”.

Discutir problemas e/ou soluções educacionais não pode jamais ser permeada por um sentimento de desresponsabilização social, seria reduzir demais uma questão tão complexa e séria. Apontar que temos um sério problema educacional hoje no Brasil, com uma deficiência de aprendizagem enorme dos alunos, soa como uma “profecia do obvio”, todos sabem, está claro que o temos, mas o importante neste caso é assumir a responsabilidade e se perguntar o que eu posso fazer para melhorar este quadro? Qual a minha responsabilidade? Qual o meu papel?

Quando um aluno não aprende determinado conteúdo/assunto ele está apenas externando o descaso e o despreparo de toda uma sociedade. Ou seja, não é, apenas, um problema metodológico, didático, pedagógico, mas acima de tudo é um problema social.

Frederico Dourado Rodrigues Morais - pedagogo e administrador do site Depois da Aula.
Artigo publicado no jornal O Popular, 9 de abril de 2009.

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