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14 de abril de 2009

Entrevista Exclusiva - Pedro Demo

CONTRA O INSTRUCIONISMO
Defensor da pesquisa como fundamento docente fala sobre o instrucionismo preponderante nas escolas brasileiras e sobre o vestibular.

Nas ultimas semanas um debate intenso tem ocorrido no Brasil por conta da proposta do MEC de mudar o atual modelo de seleção para as universidades federais. Instrucionistas, reprodutivos e seletivos socioeconomicamente (não tanto intelectualmente) é assim que o professor Pedro Demo classifica o atual vestibular.

Professor Titular Aposentado da Universidade de Brasília (UnB), PhD em Sociologia pela Universidade de Saarbrücken(Alemanha) e autor de dezenas de livros entre os quais Educar pela Pesquisa (na 8ª edição), Saber Pensar (6ª edição), ele defende o fim do protagonismo da aula “No Brasil, no entanto, aprender é escutar aula. Um absurdo, tendo em vista que grande das aulas é cópia feita para ser copiada.”.

Confira abaixo a Entrevista EXCLUSIVA concedida gentilmente ao Depois da Aula pelo professor onde ele fala sobre vestibular, salário dos professores e a escola pública no Brasil.

O MEC reascendeu o debate sobre a validade do atual modelo de seleção para o ensino superior - o vestibular. Num artigo, publicado no seu Blog, o sr. faz uma analise sobre esta questão a partir de uma texto da revista Veja do economista Claudio Moura e Castro. No seu o professor diz que “é fundamental superar a história dos vestibulares atuais, cuja defesa não faz sentido". Assim como o sr. vê a proposta do MEC de utilização de um "novo ENEM" como processo seletivo das universidades federais? O vestibular nos moldes atuais atende? Ele avalia o aluno?
Primeiro é importante tentar fazer algo diferente dos atuais vestibulares, muito instrucionistas, reprodutivos e seletivos socioeconomicamente (não tanto intelectualmente). Segundo, o candidato mais à mão é o Enem, desde que fosse revisto para introduzir nele propostas que exigem mais raciocínio, solução de problemas, interpretação, e sobretudo redação. Terceiro, toda proposta de avaliação é questionável, por mil razões, já que é sempre projeto complicado julgar "aprendizagem", uma dinâmica tipicamente não linear, complexa. Quarto, quando menos, isto poderia dar uma boa discussão, para voltarmos a conversar sobre avaliação em nome do direito do aluno de aprender bem.

Um conceito que o senhor trabalha é que a aula não é centro da aprendizagem. De certa forma essa discussão sobre o vestibular não deveria ser um debate sobre modelo de ensino, ou seja uma reflexão sobre a aula, sobre o próprio ensino no Brasil?
Certo, esta discussão deveria colocar o dedo na ferida: o instrucionismo. É fundamental finalmente entender que professor não é quem dá aula, mas que, sendo autor, tem algo de reconstruído para oferecer. É urgente aprender a estudar.

Em uma de suas ultimas publicações, o livro "Bom Docente". É feito um questionamento ao instrucionismo e é expresso a convicção de que a qualidade docente é crucial para a qualidade discente. Quem seria este "bom professor"? como o senhor o caracterizaria?
Poderia começar dizendo que pesquisa é fundamento docente e discente, porque é boa estratégia de aprendizagem (além de ser estratégia de produção de conhecimento). Poderia resumir em "autoria", para realçar a idéia de que aluno aprende bem com professor que aprende bem (aula é decorrência secundária). No Brasil, no entanto, aprender é escutar aula. Um absurdo, tendo em vista que grande das aulas é cópia feita para ser copiada. Por isso, é decisivo mudar a definição de professor: não é quem dá aula, mas que sabe fazer o aluno aprender bem.

Discutir sobre o "bom professor" não implica discutir antes "boas condições de trabalho"?
Não diria que necessariamente as boas condições de trabalho vêm antes, mas são decisivas. É melhor ver as coisas juntas: boa formação, boas condições de trabalho e compromisso com o aluno. Salário não resolve, sozinho, a questão: um alfabetizador que não sabe alfabetizar pode ganhar o salário que quiser e continuará não sabendo. Mas não podemos conviver com os atuais salários docentes, em nome da dignidade do professor que é um dos artífices da cidadania popular.

Professor uma de suas áreas de atuação e produção acadêmica é sobre ao tema educação e cidadania e enquanto um estudioso que pergunto quais as perspectivas da cidadania no Brasil atualmente?a escola tem contribuído no seu avanço?
A escola tem contribuído muito pouco e, como o desempenho escolar estaria em queda, pode estar contribuindo cada vez menos. Mas uma boa escola pública é ainda um palco formidável da cidadania popular. Talvez seja a única chance do pobre: aprender a estudar bem. Assim, toda crítica que se faça à escola e ao professor só pode ter o sentido da os valorizar tanto mais. Nunca demos ao professor a atenção que precisa e merece.

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